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No Filimo Massango
Nacionalidad:
Mozambique
E-mail:
Biografia

Escreva mãe
Escreva,
Porque hoje estilo,
Verso a verso
O estalo que me acontece ao acalho
Não me cale mãe,
Se é que encalho,
Deixe-me enxuto
Deixe-me sepulto
Neste poema que se instala
Emudecido em talco

Escreva,
Escreva mae,
Escreva,
São pássaros!
pássaros!
pássaros e não andorinhas
Que bicam o arroz feito dos seus filhos mãe
Cantarolando saciados da nossa desgraça
São pássaros!
E eles, já não são mais pássaros mãe
São passaredos parasitas!
Que dos quatro cantos do mundo
Nos inundam e cantam mãe
E do espaço que nunca lá estivemos
Voam, voam e voam
Depositam grão a grão
O purificado cereal dos seus bossudos ventres
Olha para eles mãe!
São pássaros!
pássaros!
No brio adestrado das suas asas
São pássaros mãe!
Quantos grilhões lhes prende sozinhos ao espaço?
Quantos grilhões lhes prende à liberdade dos pássaros?
E a nós mãe! No vazio das nossas negras mãos?

Autor: Noé Filimão Massango
In: Diário inconsulto da minha mãe


Meninos do outono?

Gritam homens do stéreo
Aos quatro passos do vento
Gritam homens do stéreo
Aos quatro tempos da poesia

Gritam puerís
Ainda em primaveras de pombas
ninguém cála seus passos,
Suas rimas e seus encantos
Pelas manhas,
Se espalham as grotas do silêncio
Que drenam ao mar,
Suas emoções ocultas diluidas

Ode ao verão
Aquem se despeja e se limpa o suor
Daqueles homens cheios de torpor!
Gritam homens do stéreo
Aos quatro passos do vento
Gritam homens do stéreo
Aos quatro tempos da poesia

No inverno
Sacodem suas gangas caregadas de orvalho
Embalam suas cangas homens de sóbrio
ninguém escuta seus passos,
Suas rimas e seus encantos
Mas gritam homens do stéreo
não serão estes os meninos do outono?

Noé Filimão Massango - Maputo, Moçambique

Vem, das estradas longínquas da minha terra
Vem, das estradas do mar, do céu e do infinito
Vem, célere cruzando
As inúmeras vigas dos tempos e dos espaços
Na diversidade de terras e dos tempos que nos barra
Vem, falemos só uma lingua
Vem, das ruas claras das cidades
Na respiração pura das acácias e micaias da minha
Terra
Vem, da vegetação densa dos cactos
Das matas que eternizam a nossa máxima plenitude
Vem, das valas que sulcaram impunes nossa terra,
Drenaram nossa esperança, mas vem
Traga os ventos que morrem impregnados na ânsia
Traga também os tempos cravados na lápide
Traga consigo os destroços inesquecíveis do verbo
E do verso que já se desfaz em clamor
Vem,
Ganhem forma os ventos!
Na calada da noite ou com sol ardente
Vem,
Surja poeta como lua subtil
E ilumine nossas mentes à volta desta fogueira
Traga na memória dos tempos
A dócil palavra dos povos
O canto perene das almas
Vem,
Traga os destroços do meu país por aí recalcados
Na imensa vegetação de versos
Traga da espuma homogênea do índico
A poesia e o clamor de África, traga meu irmão!
Traga do meu Índico sedento
A maresia que nos incha as almas de vertigem
Traga, meu irmão, traga
Quem exaltará a dor e Cl[amor] do nosso povo
Minguado?
Quem exaltará o peito habitado de Tchopo
Ritmo que dançavamos á roda a madrugada na
Nossa terra?
Quem exaltará no peito,
Ngalanga que retumbava ao entardecer na nossa
Zona?
Aquela ngalanga que tocavas e evocava Duma Ka Zulu se lembra?
Quem exaltará nos sonhos
Nossa casa possessa do espirito Ndaw?
E a nossa timbila de zavala
Que tocava e dançavamos ao ritmo chope, então?
Canta nesta fogueira seu povo
Conte sua história nesta fogueira antes que se
Apague
É a podridão do nosso povo, não é?
Fale,
Fale então da podridão dos negros
Á falacia com que se inventa um sorriso
Quando se inicia uma história, uma lenda, um conto...
Então, Conte!
Cada história um povo
Cada verso um rosto
Cada voz um timbre
Nesta brasa de letras que se esfuma a poesia
Traga essa chama que a alma atea
Nesta fogueira da alma que ao texto ilumina
Traga o verso e nada mais
Na calada da noite,
Ou com o sol ardente, vem
Traga a voz que dilacera os conceitos
Traga a força apocaliptica do verso comprimida em
Suas mãos
Traga de tudo que nos é consentido saber
A poesia será o doce orvalho
Que nos delicia delicadamente as almas
A cada verso que se liberta do seu peito pulmonado
Para esta fogueira,
Traga aquela melodia subtil
Com que os corvos pacientaram as noites cegando
Aquelas melodias, com que as cigaras cantaram
E iluminaram as noites de Nkaringanas
Nkulukumba,
Desça tatana dos céus relampejando
Solte na sua luz um pedaço de tempo que já
Perdemos
Fale da inocência dos versos de ontem e de hoje
Oprimidos
Do folclore do nosso povo escaldado
Tatana tatana,
Há homens que incendiaram nossa palhota de preces
Homens que no arminho recalcaram pedra
Há homens que no charuto tostaram uma palavra
Então, traga a semente
Que germinará a casa e árvore poética dos puerís
Tatana tatana,
Desça macumba das nossas mínguas e soluços
E nos aponte com destreza mesmo ofídica
Que aquele oficio é poesia
Que aquele minguado é poeta
Com os versos guardados no seu bolso só para ele!
Traga tatana esse poeta
Traga da cabeceira os sonhos desse poeta
As lágrimas dum poeta pingados na pedra
Traga dos escombros também um verso
Da palavra uma míngua, do verso um amor
Da poesia as almas
Dê-me esse trago agora tatana
Antes que o vento maldito nos apague
Nossa fogueira de lenha
Quero dizer um poema também
Quero contar uma história também
Traga também seu xiphefo tatana
Que ilumina estrelas aqui cintilando
Tantas cobertas de neve que não as vejo
Traga tatana depressa
Tio mbalele quer dizer seu poema
Tio Mbalele quer contar sua história
Tio Mbalele quer cantar
Traga tatana traga ... He, já começou!
-Nkaringana wankaringana!
-Nkaringana wankaringana!


Outras Obras:
[Invergonhas de um pai mandrião, Conto de Noé F Massango]
[Ritmos de meu Povo, Poesia de Noé F Massango]

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Noé Filimão Massango

FORAM 7 ANOS
Foram milhas de percurso
Limbo a limbo
Verso a verso
Na carestia com que se busca tal ousadia,
Foram 7 anos,
Milhas de percurso,
Verso a verso
Em Cada texto um rosto
Perdulários do nada mesmo
Viemos do nada
Do Ocidente não podemos...
Só de Matanato nossa terra natal
Em 7 anos!
Endividamos a nossa própria desgraça
E morreremos assim mesmo
Caiporas do além e do confim
Nossos barcos de papel,
Ainda temos de volta
Não aportamos em limbos
Porque sabemos onde vamos
Aqui, ali e acolá
Buscamos o retiro
Para mais um suspiro
Uuff!...
Foram 7 anos!
Em 7 anos
Quantas vezes depomos as faces irmão,
Ante miragem com que desfaleciam nossos sonhos?
Quantas vezes cruzava em seus olhos
Aquele sorriso fingido meu irmão?
Quantas vezes cruzava em seus olhos
Uma lágrima que desfalecia num arco íris?
Quantas vezes irmão? Em 7 anos!... Quantas vezes?
Foram 10 anos caramba!
Em 10 anos
Quantas vezes vergamos nossas pupilas meu irmão
Ante o brilho candente das nossas estrelas?
Quantas vezes enterramos nossos passos
Só porque construíam um mundo a lodo?
Quantas vezes irmão?... Quantas vezes?
Na ironia dos nossos versos!
Foram 7 anos!
9 anos?
Afinal quantos anos foram irmão?
7 anos
Encarnando em nós mesmos
A sinfonia das cigarras em cada solidão sofrida
O cantarolar húmido dos galos em cada amanhecer sentido
O grito inoportuno do nosso vizinho espinhado
Na nossa cidade extremamente violenta!
Foram 7 anos!
Em 7 anos,
Quantos espelhos deixaram de reflectir nas nossas faces?
Quanto brilho não vislumbrou na cor dos nossos cabelos?
Quantas bolsas não encaixaram nas bocas das nossas axilas
E quantas algas semeamos no jardim das nossas flores?
Quantos anos foram 7+7?
Na antítese dos nossos versos
Foram 7 anos irmão!
7 anos
Ao silêncio cru da luz que está por vir
Aos passos erráticos num ermo extremamente enfermo
Foram 7 anos
Ao paraíso onde o caipora nos trouxe o consolo
Mas 7 anos
Do sabor acre das palavras anatomopatológicas
Do doce da esperança que ainda está aí por vir
Mas 7 anos,
Do punho que já nos ergue irmão
Foram 7 anos
Mastigados pedra e cal
Ao sabor acre das nossas palavras sem sal
7 anos
E em cada sulco da vida que se abre irmão
Arrumaram-se os anos devagar,
Foram-se os versos irmão!
Foi se a nossa idade na ânsia
E hoje,
Estamos aqui
Do olhar já se juntam as cores
Na sombra da noite sobre as flores
Nenhuma pétala murcha nos mostram irmão
Nenhuma alga murcha nos mostram irmão
Quem não colherá de nós uma rosa?
Quem não colherá de nós uma esperança?
Foram 7 anos irmão!
7 anos!

[15 de outubro de 2004]


Nuas feiticeiras
Do verão estão completamente escaldadas
Nuas feiticeiras,
Constam das trevas do etéreo
Suas faces já não brilham mais
Seus olhos já não sonham mais
Seus corpos bamboleiam e logo se desfazem
Nuas feiticeiras,
Fazem por enquanto da faça a sua graça
Já conhecemos!
São elas mesmas... Nuas feiticeiras!
São mesmo desgraças.
Nossas feiticeiras,
Constam das bíblias recentes inominadas
Fazem parte dos enigmas do presente encomendado
Oram sempre
Enjeitando se curvam de crentes
Em orações de versos torpes
São elas mesmas... Nuas feiticeiras!
Já conhecemos,
São mesmo desgraças!


Noé Massango


Visto a selva,
No primeiro caminho da paisagem
não sei da matação sobre o vale
Nem do segredo das árvores galopantes
No vento sobre o dia
De verde urgente, no tal de presente,
Busco o luar em plena madrugada e acompanho,
Atravesso os rios de orvalho no inverno
à Busca dum segundo caminho no poente
E um segredo na descida acometida
Sobre o vento, galopante na monção.
O segundo me assesta o assento
Sobre o caminho do terceiro
Quando atravesso a foz do rio,
Verde,
Na selvajaria do asfalto Virgem
E me agacho,
No quarto,
Em maré de extensão
Na onda estreita da vegetação.


Noé Filimão Massango
Estudante de Medicina

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DESGRAÇA MEU LÓBREGO DESTINO

[Este é um caminho minado
e nele alguém tem que andar,
Para que se perpetue o mutilado]

Mau agouro, desgraça, negrura, negregura, naufrágio...
questão de opção
Neste meu módico dicionário ou palavras do dicionário à espreita
Isto não é fole de ferreiro!

Oh! Deus que me deixas ladrar à lua
Nestes dias martelados a ferro frio,
Nesta terra que mal me nasceste
E me empandeiraste na lonjura que de envolta
Um lôbrego destino, sabe
Isto não é fole de ferreiro

À discrição me deixas verter pranto
Nadando neste mar seco
Sem levar estas águas ao seu vento
E além enchendo de naufrágio
Este bandulho desalentado
E dia a dia,
Ruminando um póstero acorrentado,
Sabe, isto não é fole de ferreiro!

Oh! mãe que na caveira de burro me nasceste
E sem lume nos olhos
Me tornaste este verbo de encher
A marcar passo sem eira nem beira,
Que molejo me criaste mãe?
Neste relento à vela andando
Isto não é fole de ferreiro

Olha mãe, saiba que a vida continua,
será que num fole sonho renascer desta crónica
E não volto mais à vaca fria?
Isto não é fole de ferreiro mãe!

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Ritmos do meu povo

Segui brechas sombrias de ritmos
Sulcadas na mbila dum povo alegre
Segui flautas, frémitos, pausas, silêncios...
Timbres de vozes inchadas de vertigem
Segui célere,
Ritmos do meu povo
Timbres de vozes isoladas
E no verso,
Um povo cruzado em favos.

Segui brechas sombrias de ritmos
No instinto e na origem
Timbres do meu povo
Segui vísceras,
No ventre duma lágrima
ténue, e devagar...
Ritmos do meu povo

Segui brechas sombrias de ritmos
E nos escombros da vida dum solo
Encontrei uma palavra,
Encontrei uma penumbra
Dum menino alegre colorido de lágrimas
Com um tambor de nada ás costas
Baquetas de ferro em punho e carnívoras
Naquele menino da pátria feliz!
Naquele menino feliz cruzado de sonhos!
Naquele menino feliz pousado de canto e que canta!
Ritmos do meu povo,
Segui brechas sombrias de ritmos.

Noé Filimão Massango
Aos 23 de Outubro de 1972
trepidou a palhota do meu arquivado avô ante o reboar dum grito uníssono refinado, característico da primeira candura ressonando desafectos e cepticismo quando pela primeira vez emergi lentejado do massacre perpetrado naturalmente das vísceras maternas, e a caligem nos olhos catracegando a lisura de tantas paciências e esperanças reacesas iluminando-me hostilidades estereotipadas em cada gesto imperceptível, mas prontos a luz!
Pressagiava-se logo a rústica patuscada, minha alma nua amontoada de versos no regaço da morte, quem anunciaria a poesia? Roncaram-se tambores de núncio, rituais folclóricos dos recantos do meu campo vegetante e acolheram-me deusas de florestas, homens de calos que pelo invisto defluíam do fogo da enxada, definhados todos da dor do vento no meu sedento Matanato, meu vácuo natal de olhos espalhados e atentos na calema do sul onde a bafagem do indico me traz a tradicional respiração do meu Eldorado Moçambique.
E na balança do pensamento alheio orçado em cinco anos de chileto e palmatória sentado no banco fofo de areia nada mais que quatro categorias altas cedidas no horizonte da lucidez em 1983 do meu esquivo Matanato.
Com os tentáculos do pensamento reflorescendo o miolo vim-me arredado para sempre do regaço dos meus despóticos pais internado nas masmorras daqueles inóspitos armazéns incondimentados de Mavila; será que haviam mesmo homens epistemologicamente inteligíveis? Nada astral que um bandalho que nem eu acrescer as duas categorias disponíveis até aquele ano de 1986 quando já planeavam-me o despejo a algures do rio Inharrime que dá pela santa Igreja de Mocumbí. Veja só um cavaleiro dogmático da selva irresistível a percursos de densas florestas errático em cada friesta sólita desflorando a paisagem mística onde a claridade é a brancura do orvalho que a reveste, agora no soalho duro da modernidade, chi... Ê ê ê eu sei muito bem que acolheu-me Mocumbí naquela chuva de balas que apoquentava intermitentemente aquelas divindades ali reprimidas ao cerco do rio onde banhava-mos o sangue dos nossos afogados e devorados colegas para depois voltarmos desalmoçar o milho amarelo descozido e despeliculado dos pilões que despertavam a insânia daqueles homens atrozes e intrusos para além de carnívoros que não pedem quando sentem fome. Oh confrades conformados, é assim mesmo? Três anos esbanjados injunjia-me a termo o nono ano de sabedoria descabida em 1989 naquele vento estuante que até soprava alguns conhecimentos desamparados. E expediram-me delido até aos ossos devorados pela sequidão da fome e pergunto, viver é aquilo? Lembro-me que até ganhei o sorteio dos meninos magros humanamente intactos na apoteose que nunca mereceria sinceramente sem o roteiro de suspiros na aula nefanda da desgraça que a vida intentara.
E despiciendo que estava estorvei tráfegos pelas avenidas da capital Maputo descalço e zombado sem saber porquê. Afinal de contas proibiam-se calos, e curiosas desatenções pelas cidades. E assim vim-me de novo internado na Munhuana onde completava o lote dos meninos desajeitados, e contumazes aventureiros da Manyanga; nível apurado aos homens da boa fama, é disto que querem que fale?
Pousou-me o silencio e o tempo sensato consumiu-se vertiginosamente delindo os dois anos de memorizar vitoriosamente o 11º diploma na angústia forjada em cada lágrima efémera de esperança soterrada.
Em 1990 minha triste esperança começa e claudica \'candidato desclassificado pela insuficiência de provisão\' e na nota final vinha: apartado pelo porte incomprovado dos dez mil meticais equivalentes a menos de um dólar para o ingresso na universidade. E aí estava mais um desgraçado em defeso, na verdadeira sina de ser pobre.
Mas sempre no regaço levei meu sonho aceso de médico frustrado que até hoje me detém a cupidez nas réstias dos homens nobres da terapia como estudante vagabundo. Onde está a lisura da vida? Cada instante da minha desvivência com a alma, em cada morte alvitrada o cepticismo de viver na combustão da arte, sozinho no vácuo onde se torturam as palavras, será isto vida artística? Cristalizado em cada espaço de desinformação literatorturado, perfilando o tempo sem manso nenhum de páginas onde estendemos a morte depois do verso, cosmopolita mundano que vende baratas publicidades da negritude as vezes internado na Internet e pergunto será isso ascender?
Espertina na formatura do injunjido prazer de servir a vida e a morte em leitos exânimes da arte no conhecimento mágico da vaga celestial que me acompanha ao sossego na minha convulsão de suspiros, sólito, na minha balança da respiração, e prontos; o que digo então da biografia?

Prosa Imprevista

Chi! Macolorido no seu íntimo acolhimento, catadura de gingona. Dizia um dos meus vizinhos e convizinhos da formatura aparentemente agastado pela incontinência das palavras à guarda do mutismo sigiloso onde as ignóbeis criaturas normalmente não ligam.
E como observador exigente quis acreditar vendo.
Sorvei um gole de coragem para vigorar o espírito desvelado de sonhadores disfarçados, libertando a atenção às fofocas. Torci o olho à taxia dos factos e eis a pluralidade do esplendor que até trazia em claro as chamas do Minigolf fotografando as almas desvairadas agitando vigorosamente os corpos.
Eram assim aquelas cores reflectidas pelo sol naquele corpo suavemente ondeando no seu ofício de encantar até os Deuses que de forma galopante aproximava como se fosse uma flecha rubra e furiosa assestando os olhos indefesos. Mesmo assim, pertinaz, afastei o auspício da cegueira que perceptivelmente importunava a visão limpa e fitei-a de cima para baixo, da direita à esquerda e vice versa.
Vestido azul com chumaço solavancando os ombros; tetas descabidas no peito à moda actual de soutiens incompletas e abaixo ligeiramente descaídas.
Justo saínho furtivamente desalongado com brechas à moda deixa sofrer. Sapatos cor de rosa com zips luzentes e salto bem alto de tocar as nuvens sem esforço. E na cabeça a tecelagem rotulando o seu ofício à moda antiga do cabelo com cordas macias e brilhantes cor castanha da pele que os homens lúcidos presentes apelidaram de mechas.
Rosto franzino e mansinho de deslizar o cebo sem sequestros, com meigos olhos de cativar bargantes na sua falsa megalomania convidativa. E o golpe sensual emergindo daquelas unhas púrpuras aparentemente envernizadas e estateladas na boca daquela pastinha nova e levemente recheada; murchando lindamente o ombro e amealhando a atenção daqueles inúmeros olhos viajantes que em silêncio colectivo e instantâneo cruzaram serenamente os olhos naquela magia jamais surjira que ondulantemente invadia com uma dose de ímpeto e petulância degrau por degrau o acesso à intimidade daquela pobre gente aparentemente molestada.
E para desviar a intenção obstrutiva daquela toda desarrumação dentro, prontos:
- Abra espaço senhor, e deixe passar essa senhora aí...duas filas, um caminho aí... Encoste senhor!
E prosseguia olhando para o fundo do meio donde a luz sorria
- Feche esse espaço senhor, encolhe a barriga senhora ou paga o dobro... Ou então sai.
Cobrava a quem de direito devia se restituir o espaço alheio para mais um, dois... Lugares licitamente habitados numa algazarra de protestos contra nhyma hy rheve.
E na estreita porta do ónibus em que seguia a minha aventura pousava o milagre suavemente no soalho em degraus oscilando até aquele pé lindamente embrulhado e suspendia a marcha do outro convergindo serenamente como quem entra no ceu pela primeira vez; estendendo a voz inefável das palavras raras \'com a licença\' na hábil vibração suave do som vaporoso e suspenso como ela, regra pura dos homens da boa fama. Só que a voz que torce os tímpanos à plebe não desassossega o vício indiferente dos homens impuros cheios de vigor.
Havia que dissitiar energicamente a módica passadeira entre ombros e costas de duas formaturas desarranjadas que um simples favor descabia naquele silêncio inconcusso. E prontos, desarranjando por completo o rosto mansinho matou o sorriso fingidor evocando enérgicas possessões em sigilo íntimo e impávida rasgou as rédeas da mente verticalizada, abrindo o espaço por alí desencontrado. Localizou provisoriamente entre vizinhos e convizinhos da fila o seu soalho acolhedor, fixou-se e seguiu de baixo do Homem vigiando-lhe o sossego.
Um Homem de cinco brechas cicatrizadas no rosto fitando-lhe as aparências e concluiu...
Encostou-lhe sossegadamente e disse:
- Pisaste-me!
Levantou o queixo e devagar olhou para ele e num gesto modesto de descartar despercebidamente aquele acto provocador replicou honestamente a vítima sem porfias.
- Desculpe-me
Murmurou o falso lesado num jeito enfadonho aparentemente amistoso desconcentrando a vítima e zás!
Ich!... Bradou ela, majestosamente desapossada num acto espectacular em que só dez vizinhos sossegadamente assistiram.
- Com a licença senhor! Prosseguiu coitada, toda ela desesperada.
Ao que virou a cara arrogantemente o másculo homem atroz e cuspiu-lhe a desgraça nos olhos recheados; aquele bárbaro cheio de desgraças dos outros desgraçados sorriu dispondo-lhe de duas das suas brechas profundas para que a malfadada depositasse suas desnecessárias lágrimas e esquecer a dor; ao que acedeu compulsivamente. Sugou-lhe até aos nervos com os seus lábios massudos dos sulcos os últimos pingos de desafecto de modo a despistar o grito indesejável dos vizinhos que por inércia romperiam o silêncio mantido.
Ciciou-lhe pela última vez num jeito sarcasticamente amistoso de quem avisa. Se gritas já sabes, deixe-me descer em paz ok! E ainda mais vá em paz estás limpa sortuda! E mais ninguém ouviu-se no ónibus naquela tarde além daquele ruído ensurdecedor sossegadamente caminhando e lentamente se perdendo singularmente naquele silêncio inabalável. Revertia o ronco a malfadada enquanto o ónibus convergia assobios nas suas efémeras estadias, estava localizado o despejo da vítima. Libertou-se vertiginosamente como se tivesse um trampolim de elásticos no corpo para lhe serem fiéis ao fugir de calorias dum gajo enérgico e furioso libertando esforço. E pousou peremptoriamente no asfalto fora por detrás do ónibus em descargas e com um pé lindo desembrulhado saboreou o prazer amargo de fabricar calos dolorosamente. Deu dois passos em direcção ao outro lado da via mordendo furiosamente as cordas esticadas no cabelo para acalmar o ânimo roedor da alma nos recônditos. Reclinou o pescoço com o terceiro passo já no inferno, este já proibido e absorta com a língua deslizando no hábito das palavras não tardou a inércia perante o esplendor: Com a licença! ante o salteador made in Transvaal, rubro e furioso de esbanjar duma só vez uma soneca desvivida nas noites findas em vigília e prontos lá se ouviu, êêêêêêêe.... Torci o pescoço para desafogar o rosto do espanto que me aflorara naquele instante e lá estava... O silêncio tomou as nossas vontades, o asfalto gélido e mais ninguém escapava a fervura do tremor, com as memórias todas apagadas.
Segundos depois levanta-se a vítima mesmo ali estatelada e suspirou em jeito de culpa; orou do outro lado de cá e para lá rogou acocorada na eutimia da paz forjada sem ginganços, com a licença! ouvia-se na porta larga doutro lado do mundo. para quê ninguém sabia, todos nós embalsamados para viver depois.

Noé Filimão Massango - Maputo, Moçambique

Invergonhas de um pai mandrião

Caía a tarde, célere sobre o róseo infinito da paisagem quando vi uma lágrima desangustiada desprendendo-se lavrada dum rosto enrugado e aparentemente grelhado pela chuva do sol que ardeu o relento daquela cidade morta, recheada de insalubridade em cada esquina de sôfregos amotinados em raças.
Pendeu-me o destino instantaneamente desarvorado, revolvi a memória longínqua retraída a distancia onde passeara longe daquela imaginação obstrutiva de júbilos, e suspirei num jeito mórbido de subornar a alma para não esfiar a lágrima como aquela mãe desajeitada que não suportou o seu próprio vício.
Uma mãe com um grito delido roçando-lhe as costas pelos vistos seu filho preso num fio de seda que já foi capulana e pendurado como se fosse uma mochila num colo decapitado dos ombros já murchos e a cair devagar num fogo demolidor de aços com fumos de maledicência.
Aproximei-me devagar sentindo ao longe o tremor da terra escancarando a boca e devorando-lhe viva desde os pés enterrados descalços até a alma mais recôndita no subterfúgio naquele escasso universo insidiado; e o hálito da morte desbravando os sentidos em cada gesto improfícuo simulado na perceptível fuga inadiável para desafogar a imaginação.
Desarrumei o soalho vulgarizado pela natureza onde o homem não ousou enterrar a pedra e sosseguei o corpo desfalcado sem fogo para não ondear o medo sobre a dúvida e cristalizei-me.
Entre nós só deduzia-se um sigilo intransigível mesmo pelo vento que nos grudava. Sussurrei-lhe bem alto para não rotular o silêncio.
- Boa noite senhora
Desmanchou por completo os lábios, olhou-me impávida como se fosse uma ignóbil formiga que se atreve a morte inevitável por debaixo dum pé ambulante desprotegida.
Descativou uma lágrima e agravou as valas macias do rosto quando o caudal subiu-lhe, alagou-se, mergulhando-se depois naquele caqui pegajoso não de lágrimas e adormeceu.
Insinuei-a já com novos agasalhos de palavras emotivas e abrandantes para uma mãe que já sentiu na dor um grito sangrento entre o delírio e a morte.
- Boa noite mamã. Levantou-se e retorquiu
- Mamã eu? Só tenho um filho, este sem pa...
Não tardou o dilúvio nos olhos, já imaginava tudo que tinha por dizer mesmo sem aqueles mares para libertar toda aquela angústia que sufocava o peito daquela mãe improvidente que não via a claridade do seu suor em descalabro. Aqui também divulguei a incontinência da emoção mesmo com as asas na mente a desbravarem o silêncio, solucei.
Verdes,
Verdes são as árvores
Desbravadas em silêncio
Que tombam a chiar
E tombam entre as matas
Densas de vegetação
Esquartejadas em raças.
E prontos, o silêncio não era o alvo almejado enquanto cativarmos as palavras, nem a importunação pelo revertimento sequioso da angústia por um pai invergonhado, trabalhador a ganhar um filho mundano.
Mesmo assim reverdecemos estendendo o dialogo na monção de suspiros eu aí feito um zarelho pertinaz a mendigar o pouco da desgraça.
- Mamã que aconteceu?
Regurgitou uma lágrima perene, último manjar disponível para desmotivar a fome e replicou:
- Pai dele filho, pai dele... Que nem gostaria que o simulasse por engano ou ignorância num gesto igual ao dele se não evapora daqui e prontos. Evacuou-nos pior doque estamos com este filho dele, o filho que ele mesmo gerou e o nega agora porque ganha trezentos contos que não pode dividir com o seu próprio sangue, para dar a quem? È filho dele, definhado, carcomido e sugado pelas lágrimas da vida na alvura negando-lhe a paternidade. Será que fugir é solução?
Suspirou profundamente desterrando arduamente o ódio e engoliu uma coisa bem palpável desta vez aliviando a fome lá no fundo do vácuo.
E a noite ia içando por um lado a sua brumosa espuma sobre o universo enquanto o luar subia invisivelmente entre o fulvo da textura horrenda crucificado no azul do céu, assim juntos cobertos do mesmo lençol da vida.
- Mamã o que faz para viver?
- Viver? Delido assim! Sobreviver filho, como servo dos mundanos, empregada da esquina, uma pobre sorrateira para ganhar porrada.
- Porrada?
- Sim, porrada! Senão aceito alargar esta família porrada meu filho, sem onde queixar é só cumprir, aliás quem sou eu aqui? Logo nesta casa infame dos malfadados e desempregados...
Suplicou penosamente o cataplasma enquanto uma lágrima contínua e desagradável na indignação do seu casamento escorria as valas que o tempo insano sulcou naquela mulher desalentada para drenar a sua esperança.
É fértil a lágrima sobre os olhos
Florindo verde o silêncio
No desespero duma mãe incorpórea
Favos de ossos decompondo-se
Sobre a lama fértil da solidão
Com um bebé gordo
Coladinho na boca
Sugando-lhe as gengivas para sobreviver.
E o filho sereno, espertinou os olhos articulando os vigamentos da ponta à ponta e bradou como se uma lágrima da mãe coçasse-lhe dolorosamente.
Encostou-lhe do lado esquerdo do peito e com a mão entre os favos vazios de alvéolos que já foram mamas engoliu-lhe a chucha presa entre os dedos que pelo seu desuso suplantava a involução.
Chupou, chupou, chupou e adormeceu enquanto ela também coligia sonhos para empandeirar profundamente as lembranças dos dias lúgubres e indeléveis como estes e tantos. E não desatremar nem manchar a esperança adiada para amanha.
- Chau, visite-nos mais e sempre que poder... despediu-se ela e retirou-se ciente que algo tomara a sua plenitude desvigorando a marcha dos nossos consolos e imergiu-se naqueles andrajos do corpo que ao mesmo tempo cobre quando dorme fingindo que não sente nada e sucumbiu no vento, a necrópole das desgraças.
Já não podia mais perpetuar a estadia ali enquanto rubra a esperança de renovar a presença dia seguinte.
Devastei avenidas sem fim, errante à busca dum conhecido meu que tolerasse um sôfrego a desoras onde o vulgo taxi não rastejava o asfalto àquela hora, rogando-lhe um abrigo por uma noite esfalfante e inolvidável como aquela.
Terminada a marcha, esgotos de água arrebentados, tais modernos rios dos nossos ratos assim como farrapos e recados velhos como abrigos incônditos das nossas crias despistavam-me sem êxito o acesso àquela porta já matizada.
- Boa noite João
- Oooh! Faz favor, entre; a quanto tempo!... entre, não aconteceu alguma coisa pois não, ahhh... você não mudou, sente-se, então...
E prontos, foi o reacender das boas lembranças num reencontro intempestivo onde pressagiara que velhos amigos não se esqueceriam em dias como aqueles. Descabiam-me manjares àquela hora, aliás quem suportaria tantas paciências? Faz favor!
E mesmo inconfortável a dessuetude da esteira numa fétida e módica sala escura apertando-me até a própria alma servida com hombridade por quem não podia dar mais que aquilo adormeci mesmo sem aqueles sonhos habituais.
E ao despertar não esperei o café da manhã, retornando e seguindo as pegadas que me levaram àquele sono a fim de retomar a amarga conversa suspensa para mais um lote de esquecimentos.
Lá estava ela despertada e serena como quem planeia mais uma labuta e quando se apercebeu da minha presença desprendeu os lábios e sorriu.
- Bom dia mãe, aqui estou de novo, ainda se lembra de mim?
- Como não filho, afaste alguma coisa aí e sente-se. Replicou desfiando a carapinha desgrenhada e afastando intrusos grãos de arreia despregadas que importunavam a visão limpa quando retornassem ao solo.
- Mãe, não vai acordar o filho, parece que já faz sol aí e ainda mais há pessoas que querem...
- O quê? Acordar? Deixe-o filho, estatelado nesta rua dos malfadados e desesperados. Chi, afinal elas não sabem? Deixe-o, vogar sobre o leito que merece e se a morte planea-lo deixo-o vale a pena onde o sobreviver é o alento do dia, oque acha que será dele?
- Pode vir a trabalhar e quem sabe até vir a ser um homem...
- Não filho, ontófago. Talvez um homem esbanjado pelas moscas nas lixeiras à busca duma fatia que o pai farto trincou, mastigou, cuspiu e atirou aos pedacinhos fora só porque não quer que seja seu filho em casa aquel

 

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