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Rafael Rocha
Nacionalidad:
Brasil
E-mail:
Biografia
CANTARES
[I]

Cheguei at este limiar cheio de mim
Profetizando a dor escondida dos homens.
E delimitando no infinito do horizonte
Marcos e marcas para todos os viajantes
E neste limiar que pretende ser eterno
Profetizo o verso ainda no posto mesa.

[1]
O povo no mais pescador dele mesmo.
Arrasta a maldio da dor devido aos gestos estudados
De quem ocupa a tribuna e se diz autoridade.
O povo vive de restos malditos
E nasce em bero muito pouco esplndido.
No pretendo atirar a primeira pedra.
Prefiro denunciar ao mundo a ganncia dos chefes.
No pretendo aceitar os ditames da ltima era.
Debruarei meu corpo nos balaustres das pontes
Atentarei meu olhar nos rios sujos da cidade
E tentarei falar a voz humana: 'Sou pobre, mas honesto'.
Nem mais isso os meus queridos devem no balco da vida.

[2]
Hipcritas
Outros homens dizem possuir a voz de Deus
E abrem o livro sagrado para fundar igrejas
E corromper a mente dos ignaros,
Vendendo a f como uma sopa
E a crena como um po adocicado.
A justia fica adormecida em seus palcios
Fazendo ouvidos moucos pregao
Inconveniente da idia de Deus.
Eles consagram os vendilhes do templo
E beijam a moeda retirada do bolso do pobre.
Este um novo ritual
A fazer do inalcanvel a iluso alcanada
E comprada como um sapato ou um trago de cachaa.
Ladres da inocncia!
A espada dos honestos ainda ir perfurar
Seus imensos corpanzis de mentira e sujeira.

[3]
Ah, terra minha! Ah, gente minha!
Vamos agitar nossa fora nas estradas!
Vamos partir e subir aos mais altos andares!
Vamos agarrar nossas aspiraes na marra!
Tmulos no foram feitos apenas
Para quem no tem onde morrer de fome.
E a Ptria Nordeste ainda no foi
De todo descoberta como ela merece.
Escuta, gente minha!
As areias e os seixos dos rios
Ainda estaro aqui pelos prximos sculos.
E elas devem crer que nossos guerreiros
Souberam agir com mente firme e mo generosa.

[4]
Nem Cristo nem Guevara. Nem Buda nem Maom.
Nem Ocidente ou Oriente.
A salvao criar um tempo definitivo.
Tempo dos Severinos e Severinas da vida!
Agitar! Lutar! Sangrar!
No vamos mendigar aos pastores da mentira
A idia de um Deus de bordel.
Para que essa cegueira? Ns somos o Reino!
Ns somos os criadores da vida!

[5]
Meu verso est sendo posto mesa
s mos dos semeadores da palavra.
No dem as costas ao poema!
No estilhacem o sangue do poema!
No quero ver meus queridos agonizando
Sob a oratria dos corruptos e dos compradores da f!

[6]
Lotadas as estradas com a esperana e seu verde brilhante,
Os homens golpearo seus inimigos
Dentro do mais curto espao do tempo.
E meu esprito vestir a pele dos libertos
Desvendando as traies dos compradores de almas.

[7]
E todos iro saber que o Senhor da Liberdade
um Senhor que respira e vive
Na alma do homem da terra.
Ele forte e tem seu livro sagrado
Escrito na palma de suas mos e em sua pele enrugada.
Com os palcios derribados
Com os falsos senhores desgrenhados
O homem real da terra poder desfrutar a vida
E aprisionar parasitas que de nada cuidam
Mas apenas solicitam a presena da morte.

[8]
Caminhemos! Caminhemos! A estrada longa!
Vamos buscar mulheres e homens!
O Senhor da Liberdade respira
E tem seu livro sagrado escrito na pele enrugada
Dos homens tristes e pobres.

[9]
Quando o verdadeiro vento nordeste varrer o semi-rido,
As fogueiras das vaidades tero de ser apagadas,
Mas acender-se-o luzes de guas
E as chuvas ficaro plantadas
Nas almas dos guerreiros da vida.
E dos livros rasgaremos as pginas
Das histrias oficiais escritas pelos opressores.

[10]
Ah, meu verso proftico! Que beleza!
Aqui chegastes para extravasar a tua ira.
Aqui ests para render homenagem
Ao homem de nossa futura Ptria Nordeste.



[II]

Profetizo o verso ainda no posto mesa.
E neste limiar que pretende ser eterno
Crio marcos e marcas para todos os viajantes
E delimito no infinito do horizonte
A dor escondida guardada dentro dos homens
At alcanar este infinito cheio de mim

[11]
Agora fiquemos ss.
Ainda temos muito tempo.
Nossos refgios so seguros.
Estou olhando para a terra e nela vejo uma fora radiante.
No preciso que voc olhe para mim.
No sou forte nem tenho intento insidioso.
Mas no estou assim to adormecido.
Quero atrair voc para uma misso conjunta
Aos momentos em que trocamos idias e argumentos.
'Qual ser a misso?' eis a pergunta.
Olhe: as ruas esto perigosas e os seres humanos
Tm suas almas sonmbulas programadas
Por vdeos televisivos e mentiras oficiais.
No se preocupe. O mundo tem conserto.
Vamos entrelaar nossas idias
Como cordas emaranhadas a amarrar os navios do porto.

[12]
Fiquemos ss.
Tenho a inteno de amar a sua idia esplndida
Nos nascentes e nos poentes dos marcos deste planeta.
E desejando olhar bem para dentro de mim
Voc ver minha postura de guerrilheiro
Cumprindo um caminho evolutivo sem precedentes.
'Quem s?', eis outra pergunta.
Olhe: na amplido de todas as nossas madrugadas
Sempre aparecem as cinzas de um outrora.
Jogo-as pela janela do meu quarto.
Mas no se preocupe.
No vou jogar fora as cinzas de amanh.
Quero faz-las voar clere ao seu encontro
Como a luz daquela estrela
Que somente hoje alcanou a terra.

[13]
Em verdade, em verdade vos digo:
A vida dos melhores humanos est jogada na sarjeta
E por esse motivo que precisamos ficar a ss
E fazer um estudo dinmico daquilo que somos.
Hoje uma noite de agosto. Ela fria.
A ventania entra pela janela do meu quarto
Trazendo os gritos dos guerreiros iguais a ns.
Em verdade, em verdade vos digo:
Somos muito mais do que habitantes das sarjetas
E por essa questo temos de ficar a ss
Para recriar os sonhos dos grandes profetas.

[14]
Em verdade vos digo:
Quando os deuses da terra eram outros
O homem era muito mais feliz do que hoje.
Mas ainda h tempo para moldar uma nova mstica
E para plantar uma semente mais formosa de planta.
Por isso temos de ficar a ss. Eu e voc. Ns.
Somos os nicos a compreender a nudez,
A beleza, a dor, a alegria e a verdade das coisas.
Em verdade, em verdade vos digo:
Podemos fazer o vento carregar mensagens otimistas
Para todos os deserdados do planeta.

[15]
Fiquemos ss.
Vamos enrodilhar nossos dedos uns nos outros.
Vamos amalgamar nossos crebros para a luta.
Ao longo das grandes avenidas ningum se fala mais.
Ningum mais se olha para entender
As substncias dos rostos e dos corpos.
Esqueceram a enxada, o martelo e a foice no arquivo morto.
O homem hoje ri ao matar seus semelhantes
E ao olvidar seus ancestrais,
Sem chor-los pelas suas perdies nas multides.
'Que faremos?', eis outra questo.
Nada! No faremos nada.
Ficaremos ss para profetizar o novo tempo.
Ficaremos ss para ver a verdadeira histria ir e voltar.

[16]
A luz de sua imagem na plena madrugada
uma condensao de paixo para meus olhos.
Em verdade, em verdade vos digo:
Haver um tempo em que nos encontraremos
Arrependidos de nada termos sido
Tanto um para o outro
E de nada termos feito de bom do outro para o um.
Assim necessrio ficarmos ss,
Criando tempo de mim e tempo de voc.
Tentando ser ousados na criao e nas decises.
Nos palcios, os opressores de hoje riem de nossos anelos,
Mas ns daremos rdeas imaginao quando ficarmos ss.

[17]
Nosso ficar a ss servir para perturbar todo o universo.
Servir para acabar com as leis dos 'dinossauros'.
Para uma olhadela melhor s auroras.
Servir para um mergulho fundo dentro de cada poro nosso.
Em verdade, em verdade vos digo:
Iremos implodir milhes de silncios
E criar novas estrelas rubras
Para iluminar nossas futuras madrugadas.

[18]
Fiquemos ss.
'Queres ficar a ss comigo?'
Venha ento.
Conheceremos melhor as vitrias e as derrotas.
Nas rugas de nossas peles saberemos quem somos,
Para onde vamos e qual o objetivo desta misso.
Em verdade, em verdade vos digo, homem simples:
O saber dos sonhos cria em mim o dom da palavra.
O saber das lutas cria em mim o desejo da vida.
Em verdade vos digo: Ao ficarmos ss
Entraremos em contato com todas as raas do mundo.


[III]

Delimito no infinito do horizonte
A dor escondida guardada dentro dos homens
Crio marcos e marcas para todos os viajantes
E profetizo o verso ainda no posto mesa.
At alcanar este limiar cheio de mim
Limiar que pretende ser eterno

[19]
As esperanas ainda esto vivas nas ruas,
Apesar de os olhos dos homens no brilharem
Como nos dias de antanho.
Quase todos esto trmulos e sozinhos e ansiosos
E um tanto esquivos das suas realidades.
Talvez pensem que tudo esteja perdido
E que o reinado da dor e da morte tenha se revigorado.
Em verdade, em verdade vos digo:
No devemos nos esquivar daquilo que vivemos
preciso reunir nossas foras na beira de todos os rios
Antes que as sombras da morte
Derrubem a estrela perptua do seu altar de sonho.

[20]
Meus queridos, a Ptria Nordeste no uma terra morta
Cheia de cactos selvagens.
Ela a imagem dos olhos das crianas.
Das nossas mulheres e dos homens voluntariosos.
No deixemos que o lampejo da bandeira rubra
Se deixe ficar agonizante nas mos dos incrus que beijam
As bandejas dos desvarios e das loucuras do ouro.
No reino de dentro de cada um de ns
No devem existir disfarces. Em verdade vos digo:
Temos de nos comportar como se o vento nordeste
Seja um frmito de guerra com garras flamejantes.

[21]
No somos homens imbecis nem esclerosados.
No somos fantoches nem marionetes.
Estamos amparados uns aos outros pelo suor
A escorrer atravs dos poros quando trabalhamos a terra.
E, quando gritarmos juntos e unidos,
O sussurro da vitria ser um trovo
Que de to formidvel abalar
As entranhas dos comensais da morte.
Caminhemos! Caminhemos! A estrada longa!
Vamos buscar mulheres e homens!
O Senhor da Liberdade respira
E tem seu livro sagrado escrito na pele amarfanhada
Dos humanos tristes e pobres.

[22]
Os queridos que escolheram andar na outra margem
Deixaram de aceitar a realidade destes tempos.
'Ah, como violenta essa vida!' - pensaram.
Eles entregaram gratuitamente as almas ao deus do bordel
E aos homens que usam o livro dito sagrado para fundar igrejas.
Foram empalhados como espantalhos e programados
Para vender a f como um trago de cachaa
E para roubar a moeda do bolso do pobre.
Ser contra essa nao de hipcritas que iremos lutar.
No vamos dizer que possumos a voz da divindade.
Possumos nossa verdade e nossa fome.
Nossa pobreza e nossa honestidade.

[23]
Em verdade, em verdade vos digo:
O vento nordeste est cantando solenemente o hino
Da mais cruel realidade da nossa vida.
Que os hipcritas fiquem longe, no se aproximem.
Nem mais um passo dem.
Estamos em frmito de concepo,
Pois somos a raa dos escolhidos.
Antes que as guas cubram as plancies,
Em verdade vos digo:
Antes que a vontade dos corruptos seja cumprida
Os brotos das rvores sero muitos mais novos
Que as razes postas no cho pelas mos dos opressores.

[24]
Eis aqui: nosso maior anseio.
Eis aqui: nossa idia essencial.
Eis aqui: a exploso de nossos suspiros.
A ptala da flor vermelha se reabre
Quando ganhamos mais uma vez o dia
Ao rufar dos tambores da vitria dos nossos heris.

[25]
Qual caminho voc vai escolher, meu amigo?
No, nada disso.
Eu no estou fazendo papel de mstico.
Eu sou um guerrilheiro espirituoso.
Sou um peregrino a viver das minhas exploses verbais.
No vou obrigar ningum a seguir caminhos.
Se voc prefere a derrota, siga!
Tambm muito bom sofrer derrotas.
Com elas aprendemos o sentido da vida.

[26]
Eu falo porque quero falar.
Gritarei quando desejar gritar.
Fao parte do mundo e o mundo meu.
Os hipcritas que nos governam no so donos do mundo.
Est envergonhado de mim?
Que assim seja.
Mas em verdade, em verdade vos digo:
Ao ficar envergonhado de mim
Voc estar mais do que nunca sendo covarde.
E como um leproso pensando no ter cura
Esconder-se- nas cavernas do prprio medo.
Em verdade vos digo:
No ando pelo mundo a derramar lgrimas de lstima.
Nem vou gemer e me acovardar
Para ganhar as honrarias dos chefetes de ltima classe.

[27]
E ento eu pergunto outra vez:
Quer ficar a ss comigo?
Este ficar a ss no significa esconderijo
Significa guerra. Significa luta.
Significa que iremos tocar fogo nas histrias oficiais
Escritas pelos que se dizem donos da verdade.
Quer ficar a ss comigo?
Mostraremos o quanto somos vlidos
E no iremos criar leis
Para termos desculpas a serem descumpridas.


[IV]

Crio marcos e marcas para todos os viajantes
E delimito no infinito do horizonte
A dor escondida guardada dentro dos homens
At alcanar este limiar cheio de mim
E neste limiar que pretende ser eterno
Profetizo o verso ainda no posto mesa.

[28]
Eis-me aqui na terra completamente seca...
Um rosto enrugado de homem olha para o cu
Buscando as guas da chuva.
Nas suas pequenas e rsticas casas, as crianas
Brincam com a sopa de suas prprias fomes.
Mas o homem tem o olhar da esperana
Mergulhado at o fundo da retina no horizonte.
Esperando e contando nos dedos
Os poucos gros de feijo que poder ter
Aps umas poucas gotas de gua carem por sobre a terra.

[29]
E eis nos palcios dourados a safadeza das autoridades
Prometendo mundos e fundos para florir a terra seca
E preparando o corpanzil para voar
At as paisagens europias,
Onde poder gastar o dinheiro do suor do outro.
E desovar em algum recanto de Manhattan a sabedoria
Que julgam apenas eles a possuir por serem governo.
Em verdade vos digo, prias do dlar:
H de chegar o dia em que suas casas sero invadidas
Pelas almas mais simples desta nao.
H de chegar o dia em que todos ficaro
Olhando tristes para os remendos
De suas calas e de suas casacas.

[30]
A voz dos deserdados ainda no forte o bastante
Para rugir o trovo da guerra nas caatingas,
Mas os espritos hoje so outros.
No so adolescentes seguindo uma coluna vermelha.
Eu tambm no pretendo ser um lder.
O homem da salvao chegar no momento certo
Marcado h muito tempo na histria da raa.
Ele vir quando as guas dos rios
Comearem a cobrir as praas.
Quando o mar ocupar os vazios do espao a ele tomado.
E ele ser muito mais que o Enviado.
No ser um Guevara nem um Cristo.
No ser um Maom nem um Buda.
Ser simplesmente ele: o homem do tempo definitivo.
O homem Severino e a mulher Severina.
O homem e a mulher da agitao.
O homem e a mulher da luta.
O homem e a mulher vindos para sangrar.

[31]
Em verdade, em verdade vos digo:
O devir no mais ser como est nos 'livros histricos'
Escritos pelas classes dominantes.
O homem a surgir ser o mais forte de todos os homens.
Beber terra para matar a sede.
Comer vento para matar a fome.
E estar dando seu sangue a todos os companheiros
Postos ao seu lado na perseguio da verdadeira vida.
Em verdade vos digo:
Ele no vai enveredar pelos ardilosos caminhos
Da histria oficial escrita pelos vendilhes dos templos.

[32]
Portanto, querem ficar a ss comigo?
Ao p de qualquer rocha deste nosso Nordeste
Esculpida pelo vento rebelde das fronteiras
Veremos o verdadeiro significado do tempo.
A palavra medo ser riscada do dicionrio.
E nunca mais iremos enveredar pelos labirintos
Engendrados pelos ladres da inocncia
Para dar uma iluso de vida aos nossos filhos.
Em verdade, em verdade vos digo:
Ser para sempre e ser logo.
Ele vir a ns para o povo voltar a ser pescador dele mesmo.
Ele estar ao nosso lado designando como ser a luta
Para aprisionar os homens que dizem possuir a voz de Deus
E que vendem iluses como se vende cachaa.
Ele chegar para extravasar a ira mais honesta.
E para render tributo ao homem do Brasil nordestino.

[33]
Marcos e marcas.
Vermelha a cor das almas dos homens
Enxada e martelo e foice centenrias
Na espera da ressuscitao.


[V]

Para todos os viajantes e caminheiros
A dor escondida fica no infinito do horizonte.
Cria marcos e marcas no limiar cheio de mim
At alcanar o vazio que pretende ser eterno
Profetizando o verso ainda no posto mesa
Escondido dentro das almas dos homens

[34]
Eis que ele est chegando:
O homem do tempo definitivo!
O homem Severino da agitao!
O homem da luta Severina!
Em verdade vos digo:
Ele vem para agitar as almas e ganhar o dia.
No grande encontro dos rios da cidade
Encaminhar ao fundo do oceano as dores
E as tristezas dos menos aquinhoados.
E nos abismos abissais far naufragar
As estratgias dos governos opressores.
Eis que ele vem: definitivo como a morte.

[35]
E voc que por aqui passa, qual ser o rumo a escolher?
Voc diz no possuir rumo e caminha
Como se a vida estivesse escrita desde seu nascimento.
Em verdade, em verdade vos digo:
A vida vai comear a ser escrita no futuro
E voc dever fazer parte dessas escrituras
Ao lado da maior fora jamais vista na terra.
No tenha medo e no tenha vergonha.
So teus filhos que necessitam de espao
E de novos verdes e de lares mais calmos.

[36]
'Para que isso?' - pergunta o pobre de esprito.
'Eu j tenho o que preciso e nada devo aos outros
E meus filhos retratam a minha vida.
Para que esse mstico homem definitivo?
Tudo que constru eu fiz e nada mais.
necessrio deixar de curtir o realizado?'
Em verdade vos digo, pobre humano ignaro,
No h misticismo no homem definitivo.
Ele o Severino que e o que so todos.
Ele no o retrato da lstima nem da misria.
E muito menos covarde para se esconder
Por detrs dos ombros dos exploradores da terra.

[37]
Ah, quando os queridos da Ptria Nordeste
Empunharem o mastro do emblema do homem
A terra ir tremer desde o Itapicuru ao Capibaribe.
E ento ser tarde para os incrus tomarem tento
De tudo que foi dito e ficou escrito h antanhos.
Em verdade, homens da terra, eu vos digo:
Ser criado um vcuo aos ps dos opressores
E grandes caminhos de salvao para os oprimidos.
O cho ser de lama para muitos
E de podrido para outros.
Mas os escolhidos sero os enrgicos
A fincar com teimosia a bandeira da luta
Pela grandeza da vida.

[38]
Nossa ser a terra. Nosso ser o reino absoluto
Ao lado do emblema rubro da vida.
Sero nossos os rios e as vegetaes das margens.
E poderemos possuir todos os recursos minerais
E lavrar em prata e cobre nossas prprias moedas.
Porm, o homem definitivo no ter efgie
A ser desenhada em notas monetrias.
Ele ser a imagem permanente de todos os homens
E mulheres e crianas e animais e plantas.
Em verdade vos digo, verdugos da vida:
Chegar o tempo em que subiro ao cadafalso
E aos gritos vero suas cabeas entregues aos carrascos.

[39]
E os hinos de fora sairo das gargantas libertadas
Ressoando por toda a extenso da ptria
Do Itapicuru desembocadura do Capibaribe.
'Sou o predestinado para traduzir a nova lngua.
Os sabores da liberdade esto em mim e sobre mim
E os oferto para vocs, queridos da terra.
Os horrores dantescos dos infernos sero entregues
Aos infiis e aos habitantes dos grandiosos palcios'.
Em verdade vos digo, em verdade proclamo:
Os hinos de fora da vitria maiscula
Sairo das gargantas dos mal vestidos e dos famintos.
E sero traduzidos em uma nova lngua
Dentro das noites nordestinas,
Das grandes luas cheias e das brilhantes estrelas.


[VI]

Escondido dentro das almas dos homens
Profetizo o verso ainda no posto mesa
Crio marcos e marcas no limiar cheio de mim
At alcanar o vazio que pretende ser eterno
E para todos os viajantes e caminheiros
Trago a dor escondida no infinito do horizonte

[40]
Todos devero ficar a ss comigo
Quando os rios e o mar levarem de roldo as terras
E quando os grandiosos palcios na runa
Desabarem para sempre no lodo e na lama.
E aquele que vir com a amplido da noite ou a da aurora
Ter uma imensa multido para escutar
Seus hinos de guerra e de liberdade.
Em verdade vos digo, homens simples:
Ele trar a permanncia da agonia para os donos do ouro
E para os homens que vendem a f como cachaa.
E o Deus que estar ao seu lado ter parecena
Com a verdadeira imagem dos humilhados e perseguidos.

[41]
Eu sou apenas a voz a clamar no deserto de hoje
Para mostrar aos homens o tempo a vir.
No sou aquele conjugado no pretrito.
Sou apenas a voz a gritar do meio das caatingas
A mesma coisa que vocs podero ver e dizer
Aos filhos e aos netos e os netos aos filhos.
Pois a histria ir marcar o homem definitivo
No que ele sempre e no que sempre ser.
Ele o tempo futuro a abrir portas e janelas
A todos os futuros tempos dos homens.

[42]
Ao chegar perto dos escolhidos a voz retumbar:
'Sou aquele pelo qual o sangue do Nordeste do Brasil
Pediu com urgncia majestade superior.
Sou aquele que possui a noite amarrada ao dia.
Eu sou o que sou. Homem e poeta peregrino.
Guerrilheiro e abenoada matriz do mundo.
Eu vim e vou e no passo.
Estou aqui para matar a sede de justia.
Estou aqui para alegrar os desafortunados.
Em verdade vos digo: eu vim, vou e continuo indo.
Sou a emoo verdadeira e o rubi brilhante
Da bandeira empunhada pelos coraes dos homens'.

[43]
E aos opressores e aos corruptos vir o clamor:
'Valer a pena ver minha chegada bem de perto.
Valer a pena ver os vossos jardins com as flores murchas.
Eu sou o incriado que saiu
Dos parafusos das vossas fbricas
E das fumaas poluidoras.
Sou o redivivo da vingana
E vim trazer a vs outros a agonia absoluta.
Minha espada est sendo colocada prova
Desde algumas centenas de anos, infiis.
E agora que cheguei aos vossos jardins
No haver perdo para os marasmos e para o cansao.
Eu sou aquele a quem o beijo da traio republicana
Molhou as ruas com o sangue dos meus inocentes.
Eu vim. Eu vou. Eu no passo.
Sou o homem definitivo para rir de vossos remorsos'.

[44]
'Tirarei a paz de esprito dos governos gananciosos.
E ningum mais em toda a confuso das galxias
Tornar-se- partcipe da inclemncia dos corruptos.
Eu vim. Eu vou. Eu fico e no passo.
Sou o imortal a viver dentro das casas de taipa.
Sou o esprito redivivo das rvores derrubadas.
Sou a mente elementar da terra nordestina
Assaltada e violada pelos vendedores de deuses
E pelos ditos grandes filsofos visitantes de Manhattan.
Vou mostrar quanto valho. Vero meu entendimento
No expirar do vosso mundo e na chegana do reino
Permanente dos famintos e deserdados'.

[45]
Depois, ele no mais ir precisar revogar palavras.
Os crepsculos sero de todos, bem como as tardes
E as manhs e as noites quentes ou frias.
Depois, ele no mais precisar repetir a voz
Deste cantador que profetiza nas caatingas a sua vinda.
Em verdade vos digo: ele ser a palavra e a voz finais
Para decidir e revisar todos os horrios do reino.
Ser a mulher mais bela e desejada da ptria
E o homem msculo e enrgico em busca da vida.
Eu digo: ele habitar os becos e as vielas escuras
E ser uma luz a iluminar o corao dos homens
Eu digo: Ele foi, e ser o homem definitivo
A empunhar a bandeira da liberdade e da vida.

[46]
Na espera da ressuscitao.
Martelo e enxada e foice centenrias.
Marcos e marcas.
Vermelha a cor da liberdade dos homens.


[VII]

Do infinito do horizonte trago a dor escondida
E o verso ainda no posto mesa eu profetizo
No limiar cheio de mim crio marcos e marcas
E alcano o vazio que pretende ser eterno
Para todos os caminheiros e viajantes do mundo
Escondidos dentro de suas almas de homens

[47]
Eis o clamor daquele que profetiza nas caatingas:
Em um tempo no muito mais longe que um tempo
Todos iro conhecer a todos sob as matizes
Das vermelhides dos crepsculos e das auroras.
Eis o clamor definitivo da nossa raa!
Eis o clamor proftico vindo dos leitos secos dos rios:
A vida de cada um ser julgada pelo ganho e pelo roubo
E o homem e a mulher nascidos na misria...
E o homem e a mulher que no possuem terra...
E o homem e a mulher sem face corruptora...
Tero lugar ombro a ombro, mo a mo,
Junto ao homem definitivo.

[48]
E a terra deixar de pertencer
Aos prudentinos e s suas corjas.
Os padres e pastores vendilhes da f
Deixaro de violar as mentes.
E os herdeiros do homem definitivo alcanaro o topo
E agitaro para o resto do mundo a cura do cncer maligno.
Em verdade, em verdade vos digo:
Os humildes no sobrevivem nos dias de hoje
Porque existe um grande cncer corroendo o sistema.
Em verdade, em verdade vos digo:
Hoje a escravido do homem tem outro nome
Escrito nos dossis de RH
Dos gananciosos patres.

[49]
As vozes dos humildes tomaro outros rumos
Lado a lado, mo a mo com o homem definitivo.
Eu vos digo: os dias sero medidos com calma e vagar.
Os governos pagaro caro a desdita do homem da terra.
Eis o clamor do profeta das caatingas:
O maior mentiroso quem governa o pas!
Esse um cancro hereditrio vindo da raa dos cabrais.
Cancro que precisa ser extirpado com urgncia,
Juntamente com os outros cancros da mentira
A se esconder nas vestes ornamentadas das religies.
Padres mentem.
Pastores mentem para o bem dos cofres das igrejas.

[50]
O que devemos fazer com essa gente que no nos respeita?
Precisamos retirar do arquivo morto
A foice, o martelo e a enxada.
Precisamos ressuscitar a cor vermelha da liberdade
Pois estes sero os futuros e grandiosos marcos da vida.
Em verdade, em verdade vos digo, homens simples:
No ser mais necessrio fazer a marcha de uma coluna.
Todos estaro ombro a ombro, peito a peito, mo a mo.
Com a idia concreta do homem definitivo,
Trazendo do infinito do horizonte a dor escondida
Para todos os caminheiros e viajantes do mundo.

[51]
Valer a pena retirarmos a cabea dos travesseiros.
Comprimir as idias dos gananciosos numa bola de papel.
Valer a pena dizer:
'Estou dizendo isso, porque assim deve ser.'
'Estou fazendo assim para que meus filhos possam viver.'
Valer a pena cortar a voz dos polticos pela raiz,
Antes que elas comecem a colocar
Emblemas de promessas em nossos ouvidos.
Valer a pena dizer: 'No! Isso mentira. Eles mentem!
A nica verdade est conosco e dentro de ns.
E esta verdade nosso reino'.
Em verdade vos digo, homens humildes da terra:
Ns ressuscitaremos nossa idia
Como Lzaro de entre os mortos
Mas nem mortos estvamos e nem mortos estaremos.
Retornamos para o cumprimento da ao final
E valer a pena ver a chegada do homem definitivo
Dentro dos corpos de todos
Os homens e mulheres do mundo.

[52]
Eu j vos disse e mais uma vez repito:
Meus queridos, a Ptria Nordeste no uma terra morta
Cheia de cactos selvagens.
Ela a imagem dos olhos das crianas.
Das nossas mulheres e dos homens voluntariosos.
No deixemos que o lampejo da bandeira rubra
Se deixe ficar agonizante
Nas mos dos csares que beijam
As bandejas dos desvarios e das loucuras do ouro.
No reino de dentro de cada um de ns
No devem existir disfarces.
Em verdade vos digo, mais uma vez e outra vez:
Temos de nos comportar como se a alma do Nordeste
Seja um frmito de guerra com garras flamejantes.


[VIII]

No limiar cheio de mim crio marcos e marcas
E alcano o vazio que pretende ser eterno
Do infinito do horizonte trago a dor escondida
Para todos os caminheiros e viajantes do mundo
E profetizo o verso ainda no posto mesa
Escondido dentro das almas de homens

[53]
Est perto o momento em que
Os arquivos de RH dos gananciosos
Recebero a visita daquele que nunca veio,
Mas que sempre est e sempre renasce.
Ele ir rasgar as atas e os estatutos
Das mentiras oficiais que regem a idia dos salrios.
Porque o homem definitivo sabe:
A escravido nunca acabou sobre a face da terra.
Apenas ganhou outro nome e outro eufemismo.
Agora a escravido chamada de emprego
E quem lucra so os vendilhes dos templos.
E quem zomba do homem da terra
So os patres e os corruptores da nossa verdade.

[54]
Bem-aventurados aqueles que acusam.
Bem-aventurados os que ousam dizer:
'A histria escrita da ptria uma grande mentira.
a lavagem dos crebros para o uso das mquinas.
o beneplcito dos governos para o uso do dinheiro
Ganho pelo suor dos homens da terra durante sculos.'
Estes estaro lado a lado com o homem definitivo
Quando ele quebrar as correntes e libertar os escravos
E rasgar as atas e os estatutos das mentiras oficiais.
E, ainda: Bem-aventurados aqueles que sofrem
Por no possurem casas de pedra para abrigar os filhos.
Tambm sero herdeiros da idia. Eles faro o reino
Brilhar como a luz solar alimentando o oxignio da terra.

[55]
E o profeta das caatingas continua seu clamor:
Mentiroso quem governa! Mentiroso quem eleva Deus
Aos altares dos templos em busca do ouro dos pobres.
Eles so muitos. Mas so covardes, mpios e corruptos.
Matam para calar o verbo. Assassinam a verdade.
Mas eu vos digo, homens simples:
A idia do homem definitivo ser a salvao da ptria.
E ela vir cedo ou tarde, ainda que o sol deixe de nascer
Ou a lua seja desviada para outros recantos do universo.
Em verdade vos digo: A nica salvao esta idia.
E ela est escrita nas palmas das mos dos humildes.

[56]
E mais uma vez repito. A voz ressoar o clamor
A ser ouvido do Itapicuru ao Capibaribe:
'Eu vim. Eu vou. Eu fico e no passo.
Sou o imortal a viver dentro das casas de taipa.
Sou o esprito redivivo das rvores derrubadas.
Sou a mente elementar da terra nordestina
Assaltada e violada pelos vendedores da f
E pelos ditos grandes filsofos visitantes de Manhattan.
Vou mostrar quanto valho. Vero meu entendimento.
No expirar do vosso mundo e na chegana do reino
Permanente dos famintos e deserdados'.

[57]
'No sou Cristo. No sou Guevara.
No sou Maom. No sou Buda.
No sou Oriente. No sou Ocidente.
Sou Norte e Nordeste.
Sou o esprito do grande chefe de Canudos
Redivivo nas almas e nos olhares dos famintos.
Eu chego. Eu vou. Eu passo. Eu fico e transmito
A glria de cada um possuir o que merece
E repartir com o outro aquilo que ao outro falta.
Recebo com carinho todos os bem-aventurados,
Todos os que acusam os vendilhes.
Estarei lado a lado com os sem-teto
Bem-aventurados so esses homens de bem
Que no roubam o suor do outro nem a vida do irmo.
Todos estes faro parte do reino que h de vir
Todos faro o Belo Monte das cidades libertas.
E cedo ou tarde estaremos nas culminncias,
Quando o mar cobrir os grandes arranha-cus
E quando os rios ocuparem seus leitos roubados.'

[58]
'O vazio se encher de mim e eu serei todos.
O verso estar posto mesa para matar a fome.
A dor es

 

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