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Daniel Euricles Rodrigues Spnola [Cnsul - Cidade da Praia - Ilha de Santiago]
Nacionalidad:
Cabo Verde
E-mail:
Biografia

Ainda que o dia

me ame
e me revele os segredos das
coisas;
que a solidão não seja esse silêncio de metáfora
confrangedora
aniquilando a alegria incendiada da paixão

Ainda que o luar me
beije
e me faça ter sonhos de cristal
iluminado;

que os corais todos, as conchas todas, o mar
todo
sejam sussurros de encantos eternos, cósmicos e fantásticos

Ainda que a pedra seja canção e
espírito
e me fale de nebulosas e de elixires mágicos inestimáveis
e me ilumine por dentro e por fora de sabedoria e clarividência
Ainda assim
Não renunciaria nunca
à voz silenciosa e queda,
plena de salitre e poesia,
da minha ilha loira e inerte

Perguntem à saudade
pelas lágrimas e pelos sonhos
que destilei longe destas algas,
destas águas que me inventaram

E direi, Ulissesdizendo:
\'Mais vale ser escravo nestas ilhas de sol
do que rei nas terras da Frígia\'.

Procuro.

Sim, procuro algo
que em mim existe e não encontro.

Sei que não será para dentro de mim
que deverei olhar para encontrá-lo,
apesar de se encontrar bem dentro de mim

A neve estremece-se
ao aperceber-se do meu sentir

Não tem pudor
nem pena de mim
Em neve se torna
A minha prece
que pelo chão tomba.

Petrifica-se súbito
Ao redor de mim
o ar.

Ao que em mim pressente
tem receio e temor
Por detrás das nuvens afugenta-se o sol,
ou melhor, as nuvens e a neve
confabularam-se
para o sol eclipsarem e poderem assim
sobre o mundo reinar com os seus véus húmidos e frios.
Chega o inverno infindo de alva e fria neve.
Sinto-me triste então e só, solitário e perdido.
O céu afigura-se-me distante
mas também um confidente
e é com ele que falo desta minha alma inquieta.

Do alto da montanha que me rodeia e me olha muda
Da extensa planície que se perde no horizonte sem fim

Vem um alvo odor de serras e de neves cinzas.
Ermo, desolado e frio; friamente frio,
um halo escarlate de pura luz
acena-me então, insistente, por dentro da alma
Paisagens outras
resplandecentes, não só de luz, mas de espíritos,
fazem-me lembrar outros momentos,
outras estações
longe desta escuridão, destas sombrias trevas
e eis que uma estonteante alegria me invade
e nela bate o coração e a alma
que é o mundo nesse momento.
os contornos das rochas amadas
Ah! Como é bom sentir presente
o distante mar
e contemplar de perto.
Bem dentro de nós
sorver o seu marulho e aroma.

Em tal desígnio, já o disse - a própria alma é o mundo
e a eternidade o seu corpo inteiro
porque a vida é um pássaro cuja alma é minha
quando a luz me inunda por dentro e transborda-se a si mesma.
Perscruto-me, atento a esses acordes infinitesimais.
Perco-me nessa fantasia louca de sonhar lembranças
e desdobro-me em viola e vida, em música lira vida
e sou, nessa hora, lírio e delírio, mel melodia, canto encanto.
Ardente ardo-me nesse instante ardente a recordação presente.
Até ao futuro - creio eu, e o instante também - a recordação
há de sempre chegar, apartando a solidão e a tristeza.

Os grandes desejos quando ao grande coração chegam
maneiras mil, engenhos tais para o contentar buscam
e não há, não haverá corda mais sensível de tanger
do que a de um ansioso coração com sonhos do mais além
E agora sim, desse algo que procuro, sei bem:
Nada mais é do que o bater do meu coração
Na corola esférica e lúcida do meu umbigo
por sobre a minha ilha
[A luz expande-se sobre o mundo,
sobrevoando neves e nuvens,
e estende-me uma ponte
que vai de mim à minha ilha
no dorso de um arco-íris alado].

A água, dela mesma nasce,

nela mesma se alimenta,
nela mesma se sacia,
Porque de água sou,
na água me reconheço
[não como um espelho e a sua imagem]
como uma luz que se confunde com outra luz.
Eu sou uma fonte - sei-o bem -
Não de água apenas, de sóis múltiplos também,
e, por assim dizer, digo, e direi ainda,
que em mim há um estuário absoluto
com a cor de todos os rios do mundo
onde o sol - essa luz incomensurável -
se deita, desenhando figuras geométricas
na exacta medida em que invento planetas,
flores,
Cosmos, sons idênticos
e simétricos sentimentos

Como água e como sol que sou,
de mim mesmo me alimento e procrio
e invento cascatas de luz no escuro das trevas
e concebo luares de água em inóspitos desertos
e construo pontes, jangadas, céus e paisagens mil.

Às vezes passo como um sonho
ou como um brisa pelas asas de um pássaro

Outras vezes sou um pesadelo, uma alucinação,
numa planície louca que é o outro lado de mim

E, para ser mais explícito, quero confessar aqui
que, se por dentro trago esse rio onde me bebo e me sacio,
na mesma proporção sou esse Sahel e esse sol insaciável
que me consomem inteiramente e não me deixam florescer.

Mas, assim como uma ameba dela mesma se faz
Assim eu também me completo - de água e de luz
E saio a voar, girando como uma nebulosa,
ou me quedo silencioso,
qual Oásis sedentário
povoado de conchas e de estrelas celestiais.
E assim sigo o meu caminho
Refrescando a vida,
aclamando o mundo,
Ponho melodia nos meus passos,
Encho de cantos os meus gestos
E o verbo encontra-se sempre presente,
na extensão da minha mão,
pronto para o conforto e a consolação,
esconjurando a desolação e o pranto do rosto do dia

Na verdade,
esse caminho que sigo
sou eu mesmo e, como caminho que sou,
não tenho princípio nem fim.
Sobre mim mesmo caminho incessantemente
e do pó da minha viagem
nascem asas que ao céu alcandoram
em busca de outros destinos,
que não os da água que sou.

Assim também a diferença entre a cor original

E a sua codificação terminal, resultantes do ar e da luz
E principalmente dos olhos que olham

Fui ver o mar
E deparei-me com estrelas e búzios no ar
E vi que era bom e acreditei que o mundo existe.

Com os olhos postos no horizonte, para mais perto de mim me encontrar,
Surpreendi-me a cogitar sobre o ser e o não-ser
Não propriamente para saber, mas sim para sentir, para perceber
E é forçoso dizer Tenho que dizer esse lugar comum:
O tempo mudou
O mundo mudou, tudo mudou
Tudo muda a cada instante que passa
Não porque tem que mudar ou porque de facto mudou
Mas porque o nosso olhar mudou e tem de mudar
E eu que me pretendia imutável [?!] Como sou feliz por isso
Por poder mudar sempre que a mudança não me queira.

Sei de pessoas que pensam tudo saber
E entretanto ignoram essa verdade elementar
[O que é o mesmo que não existir]
E sinto-me bem por saber que pelo menos isto sei, e existo.
Não pretendo ser rei nem Deus
Não desejo ser ave, nem ouro, nem prata
Nem quero ser sol, nem mar, nem floresta
Contento-me tão-só em ser eu mesmo e nada mais
Por isso
Fecho os olhos ao mundo
E abro-os dentro de mim
Para não me perder
No labirinto que sou.

Infinito Delírio

Há um emaranhado de versos no emaranhado dos teus gestos que não consigo decifrar. Há uma pedra que te forma, sinto, quando vejo que tu és apenas um muro líquido sobre o horizonte invisível.

A montanha, por onde mergulho a minha prece; o vento que me leva ao início do mundo; a onda, mais forte, sobre a qual vogo, como uma balsa incandescente, até ao oceano infinito; o sol que espalha o seu manto róseo-amarelado, e que me seduz; o próprio mar que me embala e me adopta; a espuma que me beija, me acaricia, e com quem faço amor... Tudo isso, mais alguma coisa, não passa da tua presença bem dentro de mim, quando a memória é uma parcela de um tempo presente e real.

Olho-te. Os teus olhos são dois pássaros negros distanciando-se no horizonte púrpura. Gostaria de saber o que fizeste com o sol doirado que um dia te ofereci, mas vejo que o teu rosto se tornou numa esfinge milenar. Há múmias aladas povoando os teus sonhos. Uma constelação de símbolos dorme ao teu lado e eu não me atrevo a alvoraçar esse espaço e esse momento. Aliás, sinto que o teu corpo é uma cidade de arquitectura es­tranha e que o teu espírito é um satélite florescente pronto para o galope.

Como chegar-me então a ti, afagar-te a cabeleira floreada, desfalecer-me nesses teus lábios sôfregos ou penetrar-te, como uma luz invadindo o escuro [?], se já és uma crisálida ao vento ou uma imagem fugaz num espelho adormecido.

De qualquer forma, agora já nada importa, e amanhã estarei aqui novamente no cume dessa falésia para te contemplar.

Talvez um impulso mais ousado, ou um apelo mais veemente, ou uma batida mais forte do coração, ou o teu olhar insistente, bem dentro de mim, me faça oscilar nessa brisa mais guerreira, e, de braços abertos, no vácuo despenhar-me ao teu encontro, até me desfalecer de todo nos teus braços de vento. Ou, então, quiçá, eu atenda os búzios e a lua e me quede neste mesmo lugar, petrificado como uma estátua feliz, contemplando todas as auroras do mundo.

Talvez ...

VII

Falanges acaso? Dedos porventura? Ou mãos apenas sobre o rosto, sobre o corpo, sobre a água vo­gando? Um fogo que te penetra, que te inunda as vértebras e fala de coisas simples e sublimes e fala-te de sóis e espirais e de um co$3> longínquo em parto?

Falanges acaso? Ou bosques espessos, perpétuos e transparentes como um cristal de luz sobre a água? Ou vozes apenas!? Sim, voas por dentro das vísceras, por dentro do escuro inominado, por dentro da noite, por dentro da vida que se espanta, por dentro de mim?

Dedos porventura? Ou imaginação apenas de um toque, de uma valsa, de uma investida silenciosa, mas indefinível: de muitos braços, de muitos lábios, de múltiplos sentidos?

Durmo por dentro da tua boca e ressuscito-me dentro de ti. Brilho-me nos teus olhos como uma estrela na periferia da noite. É preciso limpar esse pó que se assentou sobre esse medo de te deixares devorar ou de te brilhares com as monossílabas, com os segredos sussurrados ao pé do ouvido.

Eis as minhas falanges, os meus dedos, as minhas mãos e a minha voz ao redor de ti, por dentro de ti: banha-te neles. Põe de lado o temor e penetra por dentro deles e vive neles até te tornares numa rosa, num canto ou no esplendor de uma madrugada.

Não há delírios, não há êxtase mais doce do que dois olhares gémeos, ou o palpitar simultâneo de dois corações bebendo-se, um ao outro, devorando-se, um ao outro, crepitando-se, semeando-se e colhendo-se na mesma haste, na mesma flor.

VIII

Amanhece em cima e em baixo. Amanhece ao redor de mim.

Vogo numa ilha que é um pedaço de mim e não há forma de me encontrar comigo mesmo.

Há um farol postado no meu coração e um can­deeiro imóvel na minha mão. Mas a claridade que me ilumina vem de mim mesmo e não há forma de me libertar dela.

Há um jogo de punhais à volta de mim. Há uma neve líquida suspensa sobre a minha cabeça, e, no meu crânio, uma galáxia galopa fugazmente.

De lá do infinito perscruto o mar. É verde. É fluo­rescente. É um corpo inteiro, silencioso, que me envolve. Pressinto o seu diálogo comigo e deixo-me envolver até ao infinito.

Sou transparente e transponível agora, como uma lâmina de água sobre uma lamela de luz.

Há risos que me inundam. Há febres que me encharcam a voz. Há raízes que me povoam; há carícias que se atomizam num cálice roxo sobre os lábios. E há uma pérola que baila ao redor de mim com o brilho de uma ninfa.

Amanhece em cima e em baixo. Amanhece ao redor de mim. Sou uma ilha no centro de um co$3>. Sou uma galáxia viajando ao sol.

Há um vulcão sonhando por debaixo das minhas pálpebras, e, bem dentro da retina, existe este canto longo ao dia que me vem visitar.

A lua e o mar, após a vertigem da noite anterior, permanecem exangues, latejando, contudo, bem dentro das minhas veias. Atearam-me um fogo inextinguível, por todo o corpo, no breve instante que se amaram.

Durmo e acordo-me nesse amanhecer sonâmbulo para te beber por inteiro, entrando-me pelas tuas vagas entreabertas como o amarelado solar afundando-se no horizonte crepuscular.

Sonho-me nesse instante: uma flor à chuva que­rendo ser abelha.

E perco-me nesse mel que me ofereces.

IX

As nuvens oscilam docemente, com os braços abertos e a boca aberta, dormindo sob a toada constante das ondas que invadem o horizonte. Uma folha estremece com a manhã despertando e esvoaça silenciosa pela neblina doirada da lua, como um barco numa espuma veloz, e vai pousar sobre o sono desperto do tempo.

Uns olhos, do tamanho do mundo, mas tão trans­parentes quanto o céu, ou a água num cântaro, espreitam o amanhecer sereno.

O mar, num embalo interminável, invade-me o coração e espraia-se por todo o meu corpo, num movi­mento de ondas, algas, conchas e búzios que põem salmos e cantos inomináveis na minha boca.

Chamo os astros e o vento; conclamo o tempo e as marés para me acompanharem nessa investida que prenuncio às coisas ditas e às estações interditas. E agora não há forma de parar esse fluxo que, num impulso de chuva branca e cristalina, molda as feições da manhã.

Deixo-me levar por essa brisa enfeitiçada e mer­gulho-me num emaranhado de vozes e de suaves ca­belos.

Há uma música que floresce desse toque breve dos meus dedos por entre essas ervas comestíveis, e enveredo-me pelo trilho dos pássaros sonoros em nidificação. Um vapor de cinza e de fábulas alevanta-se ao redor do dia.

Encontro-a: uma flor rubra numa concha de luz pronta para a viagem.

Num costado de sal, sobre o dorso de uma baleia, balouçamo-nos até à última gota de pedra da ilha arrebatada à rocha. A vida estende-se latente nesse berço flutuante.

Oiço-me através do tempo caminhando.

Das mãos nascem-me algumas montanhas e uns quantos versos que se vão postar sobre essa floresta marinha e bem à porta dessa caverna que me encanta.

Há um sopro salgado que se solidifica ao sol. Construo umas quantas escadas no ar e trepo até ao cu­me desse pomar aquático feito de ondas e de espumas galopantes sobre uma fogueira incendiada.

Sou uma pirâmide primaveril ao sabor do vento.

Sou uma maré cheia em quarto crescente sobre o jardim escancarado.

Semeio-me e colho-me num tom doirado de gota evaporando-se sobre a pele. Há um poro aberto na carne que me sorve. E sôfrego, desabo-me nesse rio que me inunda, para me tornar numa chama louca serpen­teando em uníssono com essa outra chama que se es­culpe movediça sob o meu corpo que se funde com o sol, com o mar, com a montanha, com as vagas.

E somos nessa hora a revelação, o génesis, ao pé do mar.

X

Um pássaro habita uma fruta que habita o meu ser.

Quando o pássaro canta, todas as minhas veias se inflamam e surge uma chama sobre o mundo.

Do canto desse pássaro, há ovos que se abrem numa flor donde nascem aves que voam por dentro de mim e acabam por pousar sobre a fremência do meu coração. E todas as vezes que comigo me desencontro, voo eu por dentro dos pássaros para ir dormir no colo de uma flor que está sempre à minha espera, com as pétalas todas iluminadas como uma concha transparente ao sol.

E é nesse momento que sinto o Cosmos bem dentro de mim e uma vontade de ser brisa ou espuma sobre o mundo. E como uma melodia no ar quedo-me eu, suspenso no tempo, sonhando por dentro de mim a lua e o luar que um dia fui à porta de vénus.

E sou nessa hora o gérmen de uma lembrança futura expandindo pelos quatro cantos do tempo, sobre o mundo, como uma nebulosa à luz do sol.

E não há palavras para nomear este delírio de cores que inunda o meu olhar por dentro de mim anulando assim todo o resto que permanece para além da retina sobre o mundo.

XI

Eu estou dentro de mim e o teu ventre dentro do meu coração.

Fragmento-me e olvido-me de mim mesmo.

Tudo o que existe, existe dentro de mim.

Sonho-me por dentro de mim e uma enseada verde se forma por entre as minhas costelas.

Olho a paisagem longínqua e as árvores que se alongam pelo céu e vejo-me a correr por entre brumas e uma sombra densa perseguindo-me.

Algo mais se insinua em doirado no horizonte. Não sei o que é, mas pressinto que são outros olhos florindo rente ao solo.

Alguém mais se encontra dentro de mim. Não sei quem é, mas perscruto-lhe a voz e vejo que veio de longe. Aliás, de muito tempo atrás, do Éden, ou do centro de uma maçã.

Estendo os braços, que se transformam em raízes e percorrem o dia em busca de sol, e sinto que sou, nessa hora, um rio de múltiplos afluentes bebendo o brilho das coisas.

Estou dentro de um livro e sou um anel de fogo ao redor de uma sombra viva invadindo o ocidente e o oriente; sou um gérmen no círculo de uma flauta. Há uma melodia que me atravessa o peito e transborda no meio de um relâmpago de sal povoado de trovoadas de gelo.

Há o chão. Há a luz. Há o oiro. Há a vida. Existes certamente como um fio de água que se corrompe e se perde no ar, qual luz ao sol, ou um magnésio pelo solo.

Há também essa voz que é nossa e que se tornou num só corpo habitável e apetecível. Há as estrelas ao redor dos pólos, quais cristais de neve seduzindo o dia branco e claro. Há essa reverberação cósmica que se insinua por dentro da nossa respiração e invade o nosso olhar. E, vindo não sei donde, vejo-a descendo numa cascata de espuma azul, com os seus olhos de algas e a sua boca de fruta madura. É um orvalho branco no horizonte transparente que desce sobre um Arco-Íris negro que se perde pela enseada verde, ao sol.

Vem com os braços em ondas e o corpo em dunas saltando o muro de séculos que nos separam - os cabelos em ramos e folhas esvoaçando pelo tempo.

Um castelo e uma torre surgem do nada e um im­pério inflama-se numa bolha de cristal, através dos bei­jos soltos sobre o mundo que se multiplicam em jardins.

Sei agora que me veio buscar para me levar nas asas de uma nuvem até ao reino dos sentidos. Veio do mar atravessando pinhais de estrelas douradas e punhais de ventos irados. Encontrou-me a dormir e deitou-se por dentro do meu sono povoando-o de mistérios.

E quando sonhei, ela fingiu que era um sonho também a percorrer a noite, e, lá bem no fundo de mim, me ofereceu essa maçã que sempre trago presa na garganta. E quando acordei e encontrei-a ao meu lado, com uma folha de lírio vermelho sobre o púbis, soube que estava perdido e que nunca mais voltaria aos meus sonhos marítimos por dentro de mim.

XII

Mas, os sonhos vêm-me do estômago e o medo vem de dentro de mim - das raízes subterrâneas desses sonhos que me habitam.

A noite e o vazio não são nada sem mim - não existem sem a minha invenção.

Mas, quando a noite se torna numa seta luminosa caindo no meu regaço, eu torno-me numa cascata muda entre o horizonte e o sol.

Mesmo sendo a cidade uma pirâmide de vozes ao vento, eu não deixarei de ser um círculo de luz à volta de uma fogueira, porquanto, entre o meu umbigo e o centro da cidade, existe essa cordilheira voraz de cor e de maresia que nos consome a todos.

A manhã quando se levanta ao pôr do sol nascente, o azul da memória transborda-se num cálice de pura luz que se espalha pelo infinito, em delirium de sonhos e de corais

Eis o canto solsticial da aurora:

Neve lívida sobre incandescente lava; gotas de fumo à fronte da tarde.

Sou! Sim, sou!

Chove por dentro de mim: suor, seios, sexos.

Voa ao ritmo de uma borboleta, azul, a cinza de um coração amando. Sim, tudo dentro de mim.

Há a chama de um corpo que ficou sob o tacto das mãos decepadas pela hora que passou.

Basáltico é o travo, amargo, só, do corpo apagado, e da luz que se esqueceu dos olhos.

Lírica lira é a madrugada sonhando com os teus lábios de vento e maresia consumindo-me.

se viesses agora

rasgaria a fome deste quarto

nestes dedos suados de solidão!

Um sopro, ou uma respiração no ar, é tão leve, tão ténue quanto uma gota de água que se perde na imensidão do mar.

Uma borboleta e a sua fugacidade de cores são tão efémeras quanto a beleza de uma flor ao romper da aurora.

Um vidro que se parte, uma agulha que se perde, um sorriso que se desvanece, um sonho que se acaba, ou uma ilusão que se desfaz são coisas tão simples, tão frágeis - até mesmo o bater do coração, que de repente pára; a carne que se apodrece e se desintegra em pó; os olhos que deixam de ver, as mãos que deixam de pegar, os pés que deixam de andar, a alma que deixa de viver - enfim, tudo na vida, inclusive a vida -, são frágeis seres, apesar das suas infindáveis potencialidades de serem infinitas fortalezas.

Enfim, tudo e todos somos tudo e nada e vice-versa. Uma só palavra, um só gesto, uma só atitude, tanto pode destruir-nos como salvar-nos; através de um pensamento, podemos encontrar o paraíso, o infinito, ou o inferno, ou o abismo.

Enfim...

Tudo não passa de um INFINITO DELÍRIO

Biografia
Daniel Euricles Rodrigues Spínola


Presidente de SOCA- SOCIEDADE CABOVERDEANA DE AUTORES

Natural de Ribeira da Barca

Concelho e freguesia de Santa Catarina

Ilha de Santiago

Cabo verde

Continente - AFRICA

E-mail:

dannyspinola@gmail.com

 

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