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Elvis Souza Nascimento
Nacionalidad:
Brasil
E-mail:
Biografia
CURVA DE RIO

Bois, terra boa e hospitaleira de gente obreira h de ser sempre...

Nos confins deste vasto territrio boiano h uma pequena cidade encravada entre dois grandes rios que correm em direo ao sul engrossando o caudaloso Paran. Boianpolis. Cidade como outra qualquer. Pequena em dimenso, mas grande em riquezas, porm pouco exploradas. isso mesmo, os habitantes desta localidade no do valor ao maior bem que possuem: suas riquezas naturais e culturais. H, isso coisa para boiola diz uns; outros dizem que tem mais o que fazer para ficar pensando nessas coisas. O fato que ficou um espao vazio que foi sendo ocupado por outras pessoas. Muitos moradores comearam ento a colocar nas mos dos forasteiros responsabilidades que deveriam ser ocupadas pelos habitantes locais.

Concluso: Boianpolis est perdendo sua identidade. Aquela pacata urbe com uma comunidade tranqila, ficou para trs e junto foi sua cultura, suas tradies seus feitos, enfim, no est sobrando pedra sobre pedra.

Isso ruim porque os povos nativos, os descendentes dos pioneiros, perderam sua identidade. E o que pior: ningum faz nada. Os poucos que cobram seu lugar so taxados de doido varrido o fulano? aquele l doido, no d ouvido para ele no.

Como diz o ditado: Boianpolis igual a uma curva de rio: s aparece garrancho. E a garrancheira toda vem, come arroz quentado e arrota caviar. E o povo reganha, e a cidade perde.

Imaginem vocs: um gringo recm-chegado ficou berrando at conseguir entrar na poltica e o danado passou mel na boca dos bestalhes, saiu candidato a prefeito, foi eleito, mamou pintou e bordou, pisou, massacrou...

Outro dia fui at a capital de Bias, a verdejante Boinia e, ao entrar em uma repartio pblica estadual para pegar um documento, o atendente, quando viu minha identidade me perguntou se eu era de Boianpolis. Confirmei que sim. Por qu? Retruquei. O diretor geral desta unidade de l disse-me.

- Engraado, como que ele trabalha aqui se no reside na capital? Infelizmente eu tenho o desprazer de v-lo quase que diariamente.

- Pra voc ver moo como so estas coisas de poltica. Raramente ele aparece por aqui. De vez em quando telefona mandando resolver algum problema de amigo dele.

Eu fiquei surpreso at porque o dito cujo quer ser candidato de novo. Exatamente! J imaginaram? Como uma pessoa dessas tem a cara de pau de querer ser candidato a prefeito sendo que s faz trapaa.

Na realidade mais um dos politiqueiros safados. No tem escrpulos, respeito ao errio pblico e ao povo que o acolheu quando chegou por aqui com uma mo na frente e outra atrs.

E por falar em garrancho, certo dia chegou um indivduo na city dizendo que era fazendeiro e que estava procura de terras na regio para expandir seu negcio pecurio. Uns quantos corretores carregaram o cidado pra cima e para baixo at que encontraram uma fazenda que interessou ao chegante.

Pagou a fazenda com cheques e ficou de receber a escritura ao descontar o ltimo cheque que ficou para trinta dias. Neste meio tempo, comprou em todas as lojas da cidade, roupas, equipamentos, mveis e dois veculos. O povo ficou fascinado com aquele cidado de bem. Alguns chegaram a cogitar um convite para ele participar da poltica.

No foi nada no, quando venceu o primeiro cheque da fazenda, o cara anoiteceu num boteco pagando cerveja para todos [com cheques claro] e amanheceu pra l de Bagd.

Os cheques emitidos no comrcio e na compra da fazenda era tudo roubado. O cara um bandido de primeira, cevou os trouxas, comprou, aprontou, casou e vazou, deixando seus credores a ver navios ou sero bois?

Mas isso sempre acontece por aqui. De vez em quando chega um esperto e engana o povo e aplica o golpe. A cidade parece que tem um m que atrai tudo que no presta. E o pior. Golpe em cima de golpe e o povo no aprende.

RESGATE

Uma vez por ms realizvamos coletas de quirpteros na Pousada das Araras. Um trabalho cientfico como requisito para obter ttulo de Doutor.

A Pousada uma Reserva Particular do Patrimnio Nacional, outorgado pelo Ibama. Alm da fauna e flora exuberantes, a regio guarda stios arqueolgicos com vestgios de povos que viveram na regio h mais ou menos quinze mil anos atrs.

Por ser uma linda regio, sempre recebe turistas, alunos de escolas pblicas das cidades vizinhas, universidades e pesquisadores de todo o pais e do exterior.

Em uma dessas campanhas de campo mensais, num sbado tarde, chegou uma dupla de franceses.

Encantados com o lugar, comearam a andar de um lado para o outro fotografando e filmando tudo que via. Como estava escurecendo, a proprietria pediu para que eles no afastassem da sede, porque poderiam se perder no Cerrado. Que fossem descansar e deixar o passeio para o dia seguinte com a companhia de um guia.

Tudo bem, dizia um deles. Vou fazer umas fotos aqui em volta e no vou me afastar.

O estrangeiro empolgado com tanta beleza entrou em uma trilha e se afastou da sede. Nisso escureceu. A foi um Deus nos acuda.

Todo o pessoal da Pousada saiu procura do francs e nada. Ligaram para o corpo de bombeiros de Jata pedindo uma equipe de busca. Enquanto isso, outra equipe de busca chegou de Serranpolis e cada equipe saiu por uma trilha.

Tarde da noite, todos estavam cansados e nem notcia do infeliz. At que o comandante da corporao cessou as buscas, reiniciando no dia seguinte.

Quando amanheceu o dia, as equipes retomaram as buscas procura do desaparecido. Uma pessoa viu rastos dele e gritou com a turma:

- O Francs pegou a trilha do rio Verdinho. Vamos todos para l.

Quando andaram uns 200 metros, o guia da pousada encontrou uma batida fresca e ona pintada e disse para os companheiros:

- Tem uma ona pintada andando por aqui h muitos dias. E ela est na batida do francs. Tomara que ela no esteja com fome e encontre com ele na reta. Se no, vai virar comida de ona.

Andaram mais uns quinhentos metros na batida da ona e nos rastos do homem. Ao fazer uma curva, no meio do Cerrado, encontraram o francs que vinha de encontro com a turma.

- Sa para fazer fotos e fiquei deslumbrado com tanta beleza e quando olhei em volta, j tinha escurecido e no encontrei o caminho. Pensei: no adianta gritar, por que ningum vai me ouvir, ento amassei o capim e deitei. E tive uma noite maravilhosa. Nunca vi um cu to estrelado e tantos sons diferentes.

- O senhor no ficou com medo? Perguntou um:

- Fiquei no.

- Uma ona pintada passou por aqui e quase come o senhor. Teve sorte.

- Eu ouvi um barulho estranho e resolvi subir numa rvore e vi passar uma gata linda. Mas no tive medo no.

- Ento vamos voltar para a sede, pois o pessoal est muito preocupado e tem umas cinqenta pessoas aqui na pousada a procura do senhor.

- Mesmo? Que povo preocupado. Brasileiro ser um povo muito hospitaleiro mesmo. J vi falar. Agora eu confirmo.

Ao chegar sede, o estrangeiro ficou to feliz com tanta de gente a sua procura que pegou um mao de notas [dlares, claro] e distribuiu quatrocentos dlares com o pessoal que estava a sua procura e disse:

- Brasileiro ser muito bom. Olha s o tanto de gente me procurando. Se fosse na Frana, ningum me procurava. Ia dizer: quem manda este idiota se embrenhar no mato noite? Agora se vire!!.

CARABA

No interior do Brasil, regio de Cerrado, durante os meses de junho a setembro para os povos desta vastido, principalmente para os habitantes da zona rural, uma poca triste, onde no existe verde, clima seco sem umidade no ar. Ao olhar para o horizonte, parece que o ar est tremendo.

Os ventos fortes que sopram sobre o bioma Cerrado, fazem com que toda a vegetao herbcea, seque, deixando os animais magros, passando fome.

De longe se ouve os gritos histricos das seriemas. O Carcar fica rondando sobre stios e fazendas procura de um filhote desavisado para fazer a refeio do dia.

As perdizes, durante este perodo, comeam a entoar seus cnticos de acasalamento, para dar continuidade vida. No cu azul, urubus voam em crculos aguardando a morte de uma rs para poder se alimentar, cena comum neste perodo do ano.

Mas no meio de tanta tristeza, a majestosa Caraba, uma arvoreta comum nos Cerrados, perde suas folhas, deixando seus ramos nus para dar lugar a lindos cachos de flores amarelas, parecidas com a flor do Ip. Iniciando a florao no ms de julho, prolonga at setembro, decorando o serto, atraindo insetos para sua polinizao e, depois que cai, atrai o veado catingueiro que utiliza as flores para se alimentar.

Nos pastos misturando com as reses, as garas boiadeiras, migrantes do pantanal, catam parasitas no gado e, tarde, voam para as margens dos rios onde passam a noite numa algazarra danada, fazendo um lindo espetculo crepuscular.

Os canrios da terra, ao amanhecer fazem a festa com sua melodia suave e agradvel e, ao entardecer, os pssaros pretos, iniciam sua orquestra nos bambuzais. As pombas do bando e as juritis voam para a copa das grandes rvores a procura de abrigo.

De longe se houve o assobio dos jas no meio da mata e dos inhambus nas palhadas. O Lobo Guar uiva triste no meio da noite, avisando que aquele territrio tem dono.

Biografia:
Elvis Souza Nascimento
, bilogo, Vice-presidente da Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Gois, com trabalhos publicados em Antologia de Contos da Cmara Brasileira de Jovens Escritores,trs livros e um capitulo de livro publicados em parceria com outros escritores, autor do livro de contos e crnicas Serto das Carabas.

e-mail. canguu@yahoo.com.br

 

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