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Luzia Magalhes Cardoso
Nacionalidad:
Brasil
E-mail:
luzia.maga@hotmail.com
Biografia

Luzia Magalhães Cardoso

Luzia Magalhães Cardoso. Brasil. Assistente Social, professora universitária. Livro publicado: "Engajou-me a Poesia", pela CBJE, RJ, 2010, ampliado e publicado pela Epublique, RJ, 2011, RJ, "Nuvens", pela editora CBJE, 2012, RJ e poemas publicados nas coletâneas do 11º Concurso de Poesias da Universidade Federal de São João del-Rei, MG, 2011 e em Antologias de Textos Premiados: Prêmio UFF de Literatura 2012, Universidade Federal Fluminense, RJ.

 

Saudade

 

É um elo confuso

em tempo difuso

entre o antes e o agora

 

É o sentido que aflora

sem ter dia nem hora

Sem quê nem porquê

 

É a presença distante

que nos leva ao instante

que queremos reter

 

É um ser alado

presente do passado

pela vida afora 

 

Partes de Mim

 

Parte de mim

Não mais me pertence,

Ficou na estrada,

É pó, é semente.

 

Parte de mim

Escorre no olhar,

Vai fundo, fluída,

Não tenta voltar.

 

Parte de mim

É pura pegada,

Marcada, suada,

Para não se apagar.

 

Parte de mim

É lança afiada,

Quando empunhada,

Irá penetrar.

 

Parte de mim

É colo, é abraço,

É laço cuidado

Para não desatar.

 

Parte de mim

É alma lavada

E, parte a parte,

Eu deixo brotar.

-----

Marias

 

Marias de pé,

Raízes no chão.

Marias com fé...

Fermento do pão.

 

Marias que crescem

Andando ligeiro.

Marias que vivem

Sem ter paradeiro.

 

Ao dia, Marias

Semeiam a terra.

A noite, Marias,

Faminta as encerra.

----

 

Transmutação

 

Nesta fogueira,

Eu viro chama.

Sou a fogueira

Que ela reclama.

 

Mensagem à Maria

Mãe Maria, no alto daquele dia,
na favela, tiroteios e correria.
Seu ventre doía, sofria Maria.

Maria mãe ganhava dois, três reais por dia.
Alimentar muitos filhos?
Não, não podia.

Mãe Maria,
lua cheia trabalhava na faxina, na diária...
Muita correria na labuta de Maria.

Maria mãe, mulher solitária trabalhou...
Lutou pelo pão
de cada duro dia-de-Maria.

Mãe Maria, a mulata pobre, grávida.
Com mais uma Maria?
Não, não devia!

Maria mãe nas ruas, nas estradas,
nenhum hospital se abria ...
mas, teimosa, Maria paria.

Mãe Maria,
de sol-a-sol, em noites sem lua...
Maternidade?
Não, Maria não conseguia.

Maria mãe com alta pressão
e muita confusão quando ao CTI subia
minguante Maria.

Mãe Maria,
oxigênio, sangue e choque...
Parava o coração enegrecido de Maria.

Maria mãe mestiça
padecia à porta de um paraíso,
que nunca existiria.

Mãe Maria, lua nova nascia...
Naquele mesmo dia...
Mulher negra, pobre e mãe...
Morria Maria.

Por Luzia, 2008.

Essa poesia foi escrita após o atendimento a mais uma mulher que foi a
óbito no período da maternidade.
Poesia é uma construção, por isso 'Mensagem à Maria' tem diferenças em
algumas edições. Foram modificações que fiz, disponíveis em
http://www.hgb.rj.saude.gov.br/artigos/
e também na janela 'Cultural' da Revista Augustus
[www.unisuam.edu.br]Acessar em:

http://www.unisuam.edu.br/augustus/index.php?option=com_content&view=art
icle&id=38:mensagem-a-maria-&catid=23:cultural&Itemid=34



Grito Contido

Eu queria falar, com nostalgia,
de minha infância inocente,
quando, aos pulos da amarelinha,
sorrindo, eu corria.
Tinha a boneca na mão
e meu irmão rodando pião.

Eu queria falar, com alegria,
do raiar rebelde de minha juventude,
quando o corpo sussurrava ao amor que surgia.
Tinha as conversas com o amigão
e os beijos roubados de supetão.

Eu queria falar das flores sortidas,
pequenas, grandes e perfumadas,
onde bailavam borboletas coloridas.
Tinha abelha e zangão
e outros bailarinos de plantão.

Eu queria recitar poesias de amor
emocionado por sua grandeza,
com rimas levadas libertando fantasias.
Ter estrelas a calar a escuridão
e o luar a viajar na imensidão.

Eu queria tanto dizer doces palavras,
permitir sonhos e esperanças.
Hoje, porém, eu não posso.
Há tantas almas perdidas na multidão,
tantas outras mutiladas pela solidão.

Eu não queria falar de mortes,
mas estão silenciosos os gritos em luto no Haiti.
São raras e caras as vidas perdidas lá.
Altos são os juros das tantas somadas além.
Tem ainda os dividendos das que ficam neste que é aqui.

Eu não queria falar, mas não calam poetas
noites que choram trevas marcadas por dor.
Gritam Chico, Manuel, Cecília, Dias...
- Esconda-se povo, desse insaciável devorador!

Eu ainda queria as mais belas e puras figuras trazer.
Se fosse artesã ligeira, estrofes inteiras, eu poderia tecer.
Mais rápida e voraz é a caçadora,
e escondê-la o poema não permitiria.
Predadora é a fome que mata, e mata mais
do que qualquer estranha força mataria.



Se é velha a leitura, mais ainda é essa história

Nesse percurso de vidas e de mortes
tivemos lutas, derrotas, vitórias...
Porém, a ordem de garras muito fortes
rasgou páginas de nossas memórias.

E tornadas verdades falsas lembranças
sepultaram as vis ações do passado.
Maltratadas... Foram-se as esperanças.
Utopias esquecidas no traçado.

Hoje, crescem cirandas de desilusões,
mantidas por latifúndios fétidos,
gerando fome e dor em multidões.

Empoderadas em sórdida riqueza,
insanas hordas, com sorrisos ácidos,
vivem [todas!] dessa extrema pobreza.


 

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