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Adelice da Silveira Barros
Nacionalidad:
Brasil
E-mail:
Biografia
O grito

Um. Dois gritos. Vrios. Horripilantes, rompem a negrura da noite. Acordo com o corao atarantado, saltando pela garganta. Meninas pulam da cama em atropelo. Sempre tive medo de dormir naquele pavilho isolado. Plantado nos fundos do colgio, ao lado do campo de esportes, fica distante dos outros blocos. Considerando que o colgio todo cercado, no teria problema, mas naquela regio o muro est em pssimas condies. Esburacado em alguns lugares, desmoronando em outros. Os moleques no do trgua, sobem e descem, bisbilhotando nossas aulas de educao fsica. Bobos, s para ver pedaos de coxas brancas sob o saiote curto do uniforme de ginstica? Algum aciona o interruptor. Irm Consuelo, tentando ajeitar o vu nervoso sobre a cabea, sai de sua tenda branca, no final do corredor formado pelas duas alas de camas. Apesar do tumulto, reparo que a irm no careca como dizem. Tem cabelo e bonito. Os gritos vo se espaando, ficando mais baixos. O que aumenta a intensidade do sofrimento sufocado. Nossos ouvidos continuam espantados com o que pode ser um lamento humano ou o uivo desesperado de algum animal ferido de morte. Seja l o que for, vem do dormitrio das irms. Meninas descabeladas em longas camisolas de cambraia amarfanhada, encarrapitam-se nas janelas. Duas tentam retirar a pesada trave que veda a nica entrada do dormitrio. Outra esbarra no estardalhao de um penico, que at ento permanecera na clandestinidade. Gente, algum do nosso dormitrio usa penico! Irm Consuelo, o vu cobrindo a vasta cabeleira, aparentando uma tranqilidade que est longe de sentir, gesticula, tentando organizar o caos. Cessam os gritos. O silncio aterroriza mais que o lamento. Finalmente, podemos ouvir os apelos de nossa guardi: Calma, crianas, acreditem, Jesus est no meio de ns! Ele nossa proteo, nossa segurana. Ento, qual o motivo para tanto barulho? Vamos meninas, todas de mos dadas, respirando fundo, expirando o medo, exorcizando os fantasmas. Isso! De novo! Muito bem! Agora, vamos rezar o Pai Nosso com toda a f de nossos coraes acalentados. Uma pinia, irm, o meu continua disparado. Fico entre Maria Amlia e Nlida e ambas tm mos geladas. Pai nosso que estais no cu [puxa, que noite atrapalhada!], santificado seja Vosso [a irm sem aquele vu fica ainda mais bonita. Se Padre Mariano encontrasse ela sem vu ia ficar mais vermelho ainda] nome, venha a ns o Vosso [ser que morreu algum?] reino, seja feita a Vossa [de defunto eu tenho medo, e o penico, que nojo, de quem ser?] vontade, assim na terra como no cu. Um arrepio negativo percorre nossas cabeas, interrompendo a conexo: e se tiver sido uma chacina? Se estiver sobrando apenas nosso dormitrio? E se os bandidos estiverem vindo para c? Recomea a gritaria, agora, das meninas. Algum tenta se esconder debaixo da cama. O penico solta um uivo estridente, esparramando urina pelo dormitrio.

Maldormida, a noite acaba. Naquela manh, ficamos livres da chatice da missa, uma ladainha em latim, que ningum entende. No refeitrio, durante o caf, tentamos, em voz baixa, obter informaes. Nada. As grandes sabem tanto quanto ns. Apesar de manterem o ar de superioridade, percebemos que elas tambm esto assustadas. E s atrapalham. Para nos impressionar, falam em seqestro, estupro, morte e no sei quantas outras barbaridades. O corpo docente no nos d a menor explicao, as aulas acontecendo como se nada tivesse acontecido.

No final da segunda aula, entra o casal desconhecido. Ele, nervoso, cara amarrada; visivelmente contrariado. Ela, franzina, olhos inchados, mal se vem suas feies to baixa mantm a cabea. J estamos na quarta aula, quando o mistrio comea a ser desvendado.

Espetculo ruim de se ver. E eu, mida, amedrontada, presa em suas malhas. Caminho pelo corredor com a caixa de giz nas mos [precisava do giz acabar numa hora daquelas?]. Vindo ao meu encontro, o cortejo fnebre. Nele, o casal que ningum sabe quem , a irm diretora e, entre eles, algum que a princpio no reconheo. A pessoa no anda. praticamente carregada. No olha para lugar algum. Nem para o cho. Plida feito a morte. Ombros curvos. Ar de ausncia, velhice fabricada em questo de horas. No possvel, no acredito! Baixinha, o rosto redondo arruinado. No usa o hbito, mas ela, nossa querida e doce irm Celeste que sempre separou os dias em alegres, de uma alegria contagiante, ou cinzentos, calcados na mais profunda depresso. Passa por mim e como se eu tambm tivesse sido anulada, riscada da vida. Busco proteo na caixa, que seguro firme junto ao peito franzino, e vou passando meio de lado, olhando com o rabo dos olhos, desconfiada.

Aos poucos, vamos descobrindo: nasceu livre, na liberdade de uma cidade pequena, beira de um grande rio. Era para ter vindo homem, mas, por um descuido da natureza, nasceu mulher como suas trs irms. Com uma agravante: menos bonita que as outras. Quando consegue sair do mutismo de quarenta dias, o pai sentencia: esta h de ir para o convento. Se arranjar marido para trs j no fcil, que dir para quatro. E voc, mulher, no me arrume mais barriga. Quero mais saber de filho homem no.

Predestinada ao cativeiro, vivia livre, os ps cavando a maciez das areias brancas, o sorriso largo abraando a volta dos pescadores. Acompanhando o nado dos peixes, apostando corrida com os mais velozes. O pai, jacar tinhoso, s aguardando o momento de dar o bote. A me, tentando revogar a sina da filha. Homem, no se ama um filho menos que os outros, olha que rostinho meigo, que olhos vivos. De to negros parecem opacos. Hoje fui chamada ao colgio. Pediram minha autorizao para a Yara participar do coral. O professor de msica disse que ela uma revelao, que tem voz de... de... contralto, acho que isso. Contralto? Aquela voz esganiada, parecendo passarinho engasgado? Besteira! no, homem, quem sabe ela no acaba sendo famosa, uma grande artista, hein? Dessas que a gente v na televiso. Tem uma tal de Maria Callas no tem? J pensou, nossa filha brilhando em palcos grandes por esse mundo afora? Eu ia ficar to orgulhosa! Vira essa boca pra l, mulher! Sangue meu misturado com gentalha dessa espcie! Palco! Por trs do palco tem o camarim. O convento o lugar que eu reservei a ela. E j no sem tempo. Me avisaram que ela anda trocando olhares melosos com o filho do Divino, aquele pescador que traz os peixes que voc encomenda.

Ento veio tona. Irm Celeste, nossa professora de canto, ou Yara, filha de pai de linhagem nobre portuguesa [de nobreza mesmo ele s tem o nome comprido] e me descendente da tribo dos carajs, nunca teve vocao para a vida religiosa. Tomou o hbito mas no foi capaz de se acostumar com o vento quebrado na aspereza de muralhas, os ps metidos em grossos solados, a cabeleira preta aprisionada, esquentando seu pensamento afoito, que ningum dono da prpria vontade; a alma enclausurada em dogmas que no eram seus. Da depresso loucura foi um passo.

Era, de fato, um cortejo fnebre sem fretro. O enterro de uma morta-viva. O mundo inteiro morreu um pouco naquele dia. Eu morri muito.


Salada de Capites

O olhar entediado do homem varre, pela milsima vez, a atmosfera de fornalha, esquadrinhando, palmo a palmo, a paisagem montona da caatinga. Sonda os arbustos ressecados, caminha preguioso pelo areal em brasa, atravessa a suuarana e vai pousar, indiferente, na cascavel gigante.

Essa pasmaceira t me bulindo com os nervos. Tanto coronel a pedindo pra ser sangrado e a gente aqui -toa. D at coceira nos dedos.

Que outra sada? Depois de tantas estrepolias, onde mais se esconder? S mesmo o Raso da Catarina, essa filial do inferno. Pensa que eu tambm no t abusada? Como primeira-dama do governador dos sertes, acho que eu merecia mais. Sabe do que gosto mesmo, meu amor? de ser entrevistada, fotografada, sair nos jornais. Ah, como eu queria um retrato meu, do tamanho que eu sou, como o que voc viu da Baronesa Joana Viana, l em gua Branca, nas Alagoas, quando voc saqueou o palacete dela!

Pode contar com isso.

Posso mesmo, Virgulino? De que jeito?

Vou mandar vir das estranjas um cabra dos bons s pra fazer o seu retrato.

Meu amor!

Da Europa? Pra qu, capito, se temos timos retratistas aqui?

Cala essa boca, Luiz Pedro. Vontade de minha Santinha pra mim lei. Mesmo sendo voc quem , cabra do meu peito, meu compadre, padrinho da Maria, ainda assim vai pagar pela insolncia.

Enquanto fala, voz mansa, sem pressa, vai sacando o punhal.

Que isso, compadre? Precisa castigo no. J aprendi a lio.

Demorou muito pra aprender, no gosto de cabra lerdo. Encomenda a alma pra quem voc quiser.

Antes que Maria, pasma, possa intervir, o homem arremessa o punhal contra o vulto, que, assustado, tenta fugir. A cabea, decepada, bola de borracha nas mos da morte, pula uma centena de vezes, mais alto que os arbustos. Pra, finalmente, aos ps do capito. Os olhinhos tristes do bicho piscam despedindo-se da vida.

Valei-nos Nossa Senhora dos Cangaceiros, o capito errou o alvo!

Errei no, sua anta. Entre um burro e um macaco, ainda fico com o burro.

Do seio das labaredas do meio-dia, surge o homenzinho raqutico. Cabea descoberta, caminha descalo pelo areal abrasado, indiferente aos espinhos do xique-xique, da macambira. Feies alteradas pelo cansao, barba de semanas. Olhando de longe, parece miragem. Volta-Seca esbarra o desconhecido na ponta do rifle, enquanto Corisco leva o recado.

O homem deseja lhe ver. Diz que capito como vosmec.

Tem arma?

No. S idias.

Nesse caso, inofensivo. Pois deixe que entre.

Camarada Luiz Carlos, que surpresa! Eu tinha em conta que voc estivesse em Moscou, aprendendo novas tcnicas de guerrilha.

De fato, estou. S vim dar uma vista dolhos aqui nos sertes. Aquele frio de l congela o ideal no peito da gente. Esse sol, sim, aquece a vontade. Vim...Quem h de saber por que vim?

Os olhos do homem buscam a distncia. V, na saudade, a coluna que se arrasta, longa, comprida, serpenteando no areal dos sertes, comendo poeira, dividindo a sorte grande [no conheceram uma nica derrota] com a minguada do sertanejo. Descalos, esfarrapados. O peito estufado. Verde o ideal. A verdade na ponta da lngua. Vez ou outra, cometendo injustia.

Passa a viso. No horizonte, o nada. Atrs, o vento desfez as pegadas. Alguns esqueletos na beira do caminho. O Cavaleiro da Esperana. Difcil manter esse mito sem cair no ridculo. Muito mais fcil ter morrido na trincheira do inimigo. Um dia dividindo, no outro saqueando. Aquele que planta, certamente no o faz por lazer. 25 mil quilmetros! muito cho! Em cada palmo, uma verdade, uma razo. Somos um pas de agricultores, no de bandoleiros.

Ento o exlio no lhe tirou o gosto pela guerrilha?

O senhor, Capito Virgulino, qual a causa pela qual o senhor mata?

Causa... Mato por causa que matei o primeiro. No momento ando meio parado.

Faltam homens?

No, homens no me faltam. Lembrei-me foi das guerrilheiras que voc deportou l pra Bolvia, que rumo tomaram elas?

Penso que, depois de tanta fome, podem at estar trabalhando como faquir em algum circo por l.

Pois ento passava-se fome na Coluna?

No se passa no cangao?

Passa no. Esses coronis de merda mantm meus alforjes cheios. Sede, essa sim. s vezes, por dias, no se encontra um sertanejo.

Quando encontram tomam a gua da cabaa dele?

Se ela for suficiente...Se no, bebemos o sangue do cabra pra completar. Faa essa cara no, camarada, a lei da sobrevivncia. Mas falemos de outra coisa. Em boa hora voc me aparece. Preciso de um favor seu. um capricho da minha Santinha. Careo de um retratista dos bons, e tem de ser do lado de l.

Compreendo, capito. o tempo de chegar e eu providencio seu pintor.

No silncio cinza, os dois homens encapuzados em si mesmos cismam. A inatividade gera a dvida. na batalha que afugentam seus temores. No cu de chumbo, o gavio voa majestoso, livre, senhor absoluto das caatingas. Um tiro s e o cangaceiro tem a seus ps a ave.

Pra que matar, capito?

Pra que ter algum com mais poder que voc? Se veio atrs da verdade, camarada, essa pode ser uma.

Perfumou meu cavalo, P Corante?

Oxente, meu capito, j lavei e perfumei trs vezes, mas o cheiro de sangue no sai.

Tambm, depois daquela chacina em Jeremoabo! Meu amor, precisava tamanha violncia? Matar a famlia inteira, escalpar, cegar e depois arrancar o corao do velho Salina, ainda vivo, na frente do nico filho que lhe restava, isso s vai atiar ainda mais a ira dos coronis contra a gente.

Pois deixe que eles venham. Dvida antiga assim que se cobra. O velho mereceu. Era um sovina. S mandou a de do dinheiro quando lhe pedi, uns anos atrs.

Tem a um desconhecido, capito.

No recebo ningum, Beija-Flor. E trate de aumentar a vigilncia. Pode ser emboscada dos macacos. Temos que estar preparados, h de vir chumbo grosso por a.

Parece de bem, o fulano. Vem da parte de algum que presta.

Como que voc sabe, moleque?

Ele falou assim, capito, na lngua esquisita l dele: El hombre que me ha mandado es Prestes.

Ah, meu amor, deve ser o tal retratista. Mande entrar, depressa!

Sei no, meu bem. Corisco, chame dois cabras dos bons e d uma vistoria no homem. Pergunte o nome dele.

Pode levantar, seu Pincasso.

Mi nombre es Picasso. No es Pincasso.

Repara no, seu retratista, que o cabra a fanho.

Fique tranqilo, meu capito, o tal retratista mesmo. S tem um porm, o nome dele muito esquisito, Picasso. Ou ser apelido, por alguma razo especial...

Nesse caso o gringo no chega nem perto de minha Maria!

Agradeo-lhe por ter atendido meu chamado. Um homem ocupado como o senhor.

Agradezca antes sus instintos, capitn. No vine atendiendo su invitacin y sin a mi obsesin.

No entendi.

Ni era para comprender. Ya est lista seora?

Prontinha, seu retratista.

Cad a sua roupa, Santinha?

Apoquente no, meu amor. Roupa mero detalhe. Prometi que ia ajudar o MST, no prometi? Alm disso, tem muita folha seca nessas caatingas, me cubro com uma delas.

Mulher tudo igual, pura danao!

Sem qualquer motivo aparente, vem memria do homem a cascavel gigante.

Tnel de papel

Tenho doze anos e meio. Quase treze. Alguns me olham assim, desconfiados. Pensam que sou louco. Acho que sou mesmo. Um pouco. At gosto de ser, mas eles so mais do que eu, porque acreditam no que no existe. E fazem coisas absurdas. Cara, em nome da tranqilidade, do conceito de normalidade, aceitam tudo, at reduzir seu campo visual. V se voc me entende: nascem enxergando em 360, depois o campo vai diminuindo. Realidade. Janelas de vida? Links? Vou e clico: estou em tal lugar, a realidade aqui tal e pronto, quem no se adaptar que se dane. Camisa de fora. No mundo a colocaram e no tiraram mais. A minha... acho que tirei. Quer dizer, no sei. A vida a vida, diferente pra cada um. O mundo o mundo, cada um v como quer. O meu, [ou foi?] sem fronteiras, infinito. Catico. A cor depende do dia.

Cada dia eu vejo de um jeito. Primeiro, via como todo mundo v, eu acho. Quer dizer, quase todo mundo. Isso foi antes da coisa acontecer. No gosto de falar dela, da coisa. Quando falo, sinto o medo voltando. E di, cara.

Uma lembrana anterior coisa: meu pai e eu, ns dois sentados na ponte, balanando as pernas enquanto a gua rola a tarde morna. Um panfletista passa. Meu pai faz um barquinho com a folha de propaganda. Faz um gesto de lonjuras e me entrega. Joga, ele diz. Jogo. Depois comeo a roer as unhas, angustiado, vendo meu barquinho ir-se distanciando, distanciando. Pode ter sido um agouro, no sei. Quando a coisa aconteceu foi parecido, mas muito pior. A vida, as coisas comearam a se afastar de mim como o barquinho. Fui ficando sozinho, margem de tudo. At que um dia, sem essa nem aquela, despenquei da vida. isso, cara, ca da vida, no t mais nela, na vida. D pra entender o que t dizendo? Foi assim, eu estava sozinho em casa. Fico muito sozinho, sempre fiquei, mesmo quando era bem pequeno, no sei se minha me achava normal ou se no tinha outro jeito. Vou comear do comeo: estou sozinho em casa, antes de sair a empregada grita da ria de servio: teu prato t no microwaves [ela s fala assim, microwaves, trabalhou na casa de um casal de australianos, aprendeu, nunca mais esqueceu, agora todo mundo aqui fala assim, at eu, s vezes]. Jogo videogame. No tinha tido nenhuma aula depois do colgio. Tava de saco cheio de no fazer nada, da internet, do desenho animado, dessas coisas que se faz quando no tem outro jeito. Penso em pegar um filme na locadora. Depois me lembro que a Microwaves j tinha ido. As duas portas esto sem chaves. Estou sozinho, trancado, sempre fiquei. Uma vez pensei em atear fogo na casa s pra morrer queimado e depois, disfarado de fantasma, assistir ao pranto de minha me. Sigo batalhando, sem nenhum interesse no jogo. Bocejo e de repente sinto as coisas irem-se afastando de mim. Loucura, cara, parece que eu tava no barranco e tudo ia embora na correnteza, como o barco de papel naquele dia. Nada real, tudo est longe, lambuzado de bruma. No fao parte das coisas, nem elas fazem parte de mim. Vejo tudo indo, indo embora, indo, e uma puta solido tomando conta de mim. Penso: pronto, aconteceu um troo aqui na minha cabea e fiquei bobo. Mas no com essa calma. T bobo e nervoso ao mesmo tempo. Meu queixo comea a bater. Quero me levantar, me agarrar a alguma coisa, mas as pernas no me obedecem. Nem nos filmes de terror eu tinha sentido tanto medo, nunca.

Me me encontrou encolhido na poltrona, chorando. Um babaca choro. A foi o maior fuzu. O pediatra falou que era manha, necessidade minha de chamar a ateno de me. Acho que apesar de meio panaca o homem tinha uma certa razo, minha me tava sempre com gente que no era eu. Me mandou por a lngua, eu pus assim, bem grande. Com jeito de sabicho, recomendou umas coisas. No comeo foram feitas, depois acabaram meio esquecidas.

Quando aconteceu de novo foi ainda pior, porque, alm do medo que eu sentia, sentia medo do medo que eu tava sentindo, entende? Acho que fiquei muito esquisito mesmo, porque, l do outro lado do mundo, Jimmy, o cachorro que tinham me dado [uma das poucas clusulas que fora cumprida], comeou a latir feito doido. A empregada tava por perto. Mas foi ficando longe. A eu tentava me agarrar a ela, ela fugia de mim, eu tentava de novo, acho at que pra acalm-la, mas no fui entendido. Ela gritou com tanta vontade que fomos parar os dois no hospital mais prximo.

O psiclogo foi acionado. Deu uma razo relativamente simples pra angstia descomunal que eu tava sentindo: estresse. Como conseqncia, me perdeu a Microwave e passou a ter um gasto extra comigo. Meu pai, como sempre, tirou o corpo fora. Diz no acreditar que conversa tenha poder de cura sobre as doenas, que no tem dinheiro pra gastar com frescuras de garoto mimado, essas coisas. Minha me aumentou sua carga horria e permitiu que eu fosse biblioteca pblica perto de casa, mesmo noite. Em contato com os livros, comecei eu mesmo a escrever. Escrevendo, acho que me desatinei mais que o permitido pelas leis da normalidade. Sem freios, a imaginao me levou pra onde bem quis, para o outro lado da fronteira, o mundo ilimitado, a vida monumental, o cu, imagino eu, onde se pode tudo. Descobri o vasto mundo fora do crculo traado, no sei bem por quem, e teria ficado l, no fosse a interveno de um colega [que entra em cena no prximo pargrafo], um pouco mais habilidoso do que eu no equilbrio entre o que admissvel e o que no .

Na terceira vez [para agilizar, eu acho] contrataram esse novo personagem, o psiquiatra, aquele, sim, doido de pedra, porm cheio de artimanhas. Quando sa do efeito tnel e me dei conta de onde me encontrava, reagi feito um louco, gritando me tirem daqui, me tirem daqui, seus filhos da puta! Acho que o mdico no gostou da concorrncia. A me colocaram uma camisa de fora to justa quanto a que vestiram na vida, no cosmos. Fui promovido a louco oficial. Disseram que meus escritos livres, sem regras, sem pontuao no passavam de delrios fantsticos. Foi ento que descobri um fato novo: ser louco d tanto ibope quanto escrever um livro pornogrfico ou pintar uns borres s pra ver o indivduo espremer o crebro e no traduzir porra nenhuma. Investi na minha condio como se investe na carreira. Meu temperamento especulativo me permitia passar horas e horas contemplando o mesmo objeto, que tanto podia ser uma mancha no piso, um ponto traado na mente, quanto uma visita na sala. Pessoa mais interessante, porque enquanto eu permaneo tranqilo, com os olhos vidrados, ela vai se desconcertando. Mulher ento, desconfiada, ela ajeita a roupa, muda de posio, especula se no tem nada aparecendo. divertido.

No final das contas, dependendo do ponto de vista, nos demos bem: o psiclogo, o psiquiatra, as drogas e eu. Ter conhecido a escurido, estado do outro lado, do lado onde o sol no bate e ningum mais chega, ajudou-me a aceitar melhor o tratamento. Doeu. Tive um medo horrvel de no voltar mais. Voltei. O preo foi a renncia inspirao, que, no meu caso dizem, poderia ser uma faca de dois gumes. No sei.

Sntese biogrfica:
Adelice da Silveira Barros
Goinia-GO

Natural de Cau, Gois. Graduada em Pedagogia pela Universidade Federal de Gois. Membro da Unio Brasileira de Escritores de Gois [UBE] a partir de 2 de agosto de 2000. Secretria Geral da UBE de 2002 A 2004. Membro da Alesg-Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Gois a partir de 16 de outubro de 2005. Seu nome consta do do Dicionrio do Escritor Goiano, de Jos Mendona Teles Kelps 2006 pgina 39.

Obras publicadas: Salada de Capites [contos] Edio do autor 1999. Um Jeito Torto de Vir ao Mundo [romance] Editora Kelps 2000. Prmio Alejandro J. Cabassa da Unio Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro em 2002 e Colemar Natal e Silva da Academia Goiana de Letras AGL em 2002. Obra adotada em Vestibulares de Gois, no perodo 2003 2004. Prisioneiros do Vento Sul [contos] Cnone Editorial 2002. Iana Sol e Sombra [romance] Cnone Editorial 2003. Barrabs [romance] 2005 Cnone Editorial. Camumbembe [contos] Cnone Editorial 2008. Prmio Hrry Laus da Unio Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro em 2006.

Participou das seguintes antologias: III Concurso de Contos Professor Venerando de Freitas Borges, 1998, Goinia. Antologia Potica de Contos SESI Arte e Criatividade 1997-1998, Goinia. Coleo Estalidos da Associao Artstica e Literria A palavra do Sculo XXI, Cruz Alta-RS, 2001. II Antologia 2001, Prmio Prtico, publicado pela Cmara Brasileira de Jovens Escritores. Rio de Janeiro, 2001.

Um Rio de Contos, Antologia luso-brasileira, Editora Tgide, Lisboa. Obra em andamento. Recebeu em 2007 o trofu Goyazes categoria romance Trofu Eli Brasiliense, Academia Goiana de Letras. Seu nome integra a obra Literria Goiana: Sntese Histrica, de autoria de Geraldo Coelho Vaz.

e-mail:
adelice.silveira@terra.com.br

 

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