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Edgard Porto Filho
Nacionalidad:
Brasil
E-mail:
Biografia
ASAS ABERTAS

No me prendam!
No amarrem minhas asas...
Eu me tornaria como um de vocs.
J ouo o barulho do lao sendo armado nas mos de meu prximo; j escuto o tilintar das algemas; j sinto a inteno da canga em meu dorso.
Afastem-se de mim insetos infernais, malditos de meu Pai.
No sou cavalo e nem co.
Se teimarem em roer minhas asas sob esta pele de co, no me limitarei a coar-me...
Entrarei nas chamas para queimar meus pelos e mat-los; sairei queimado, mas sairei livre!
J ouo o zunir do lao a rodar em outras mos...
No sou co e nem cavalo, mas escoicearei e corco varearei at v-los jogados no cho; e ento - no se enganem comigo! -, pisa-los-ei at a morte e beberei o sangue no caneco da minha vitria!
No um pedido que fao, nem tampouco uma ordem que dou; to somente falo para mim mesmo... para no esquecer que tenho asas.
No se enganem comigo! Tenho asas mas no sou passarinho, sou um gavio, um falco e uma guia! Sou ave de rapina...
Tenho garras poderosas para estrip-los!
No um pedido que fao, porque no me atenderiam.
No porque me querem mal... porque querem o prprio bem.
No se enganem comigo, tambm quero o meu prprio bem!
J pressinto o tilintar das algemas e s de pensar o pavor me invade...
No se enganem comigo! Reagirei como fera acuada ou fmea que defende os seus filhotes; investirei com fria no olhar e com a fora que este pavor me d.
No se enganem comigo! O medo que tenho, no de vocs...
O medo vem de ter as asas presas e v-las atrofiadas; o medo do esquecimento de mim mesmo, que ento vir, fazendo-me igual a vocs...
No se enganem comigo! No falo para vocs; somos iguais neste ponto: pensamos somente em ns mesmos; a cada um o seu prprio espao e eu quero o meu.

Mas tambm sou um pssaro que plana nas alturas, levado pelo vento que, como eu, no sabe de onde veio e nem sabe para onde vai...
Tambm sou manso e gosto do carinho de quem comigo est; sou terno e indefeso mo acariciadora e terna, sempre desarmada...
nela, nessa mo, que recolho minhas garras e deixo-me quieto no agasalho carinhoso...
No se enganem comigo... sou frgil e doce, sei abraar e sei amar [quem est comigo sabe disto]...

Haveremos de planar nas alturas mais altas, os dois, asa com asa... com asas abertas.

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MENTIRAS

Um menino nasceu
Sua infncia viveu
Na escola aprendeu
Nos padres cresceu

Namorou srio
Noivou tambm
Como convm
Ao rapaz srio

Como manda o padro
Casou na igreja
Como convm ao varo

Como convm ao varo
Seu filho nasceu
Como manda o padro

O tempo passou
Da farsa acordou
Perdido ficou
No se achou

Liberdade!
Seu peito gritou
E sem idade
Seu corao chorou

E como quem acorda
Olhou para tudo
Olhou para trs
Olhou para as verdades que aprendera
Olhou para agora...

Enganado e ofendido
Enxugou as lgrimas
Calou as botas
Enrolou a camisa
E fez como convm...

Como convm ao bandido
A regra rasgou
O padro renegou.

Com o peito ardido
Saiu par a
Por aqui
Por ali
Calado
Cantando
Caindo
Subindo
Est por a
Est por a
Como convm
Como convm a um bandido...

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SONHOS

Ah, alegria de jovem!
Pensamento que tem asas
E no tem pouso
tudo possvel
s querer.

Ah, corao sonhador!
No tens culpa de preparar
Teu sofrer...

Ah, corao!
Se fosses mais sereno
E mais modesto
Em teus sonhos azuis...
Se ao invs dois
contasses um...
No lugar do tudo
Um pouco...
No lugar do gargalhar
Um sorriso pequeno
Mas sentido...

Oh, pensamento!
Carrasco sempre presente
Algoz de machado afiado...
Um dia acorda e diz:
'J chega! hora de comear a sofrer!'

Por que acordas Pensamento?!
Ah! Se teu sono fosse eterno...

Concede-me s um pouco mais...
Um pouco mais de tempo
Para que eu sinta
A alegria de outrora.

Deixe-me conquistar
O mundo novamente...
Deixa eu tentar...
Deixe-me salvar a princesa
Que est presa no castelo...
Deixa-me acumular riquezas
E ajudar os pobres
Que dormem na fria calada...

Deixe-me novamente
Sentir o ar puro de um campo
Aoitado por uma chuva que vem de repente...

Deixe-me sentar sob a rvore
E sentir-me leve...
E pensar que o mundo foi feito
Para eu seu feliz!

E, Pensamento,
Enquanto estiveres
atendendo este meu pedido...

Eu,
Num ato de suprema covardia
Vou mat-lo!

Sim, vou mat-lo
Para que eu possa Viver!

biografia:
Edgard Porto Filho

Nasceu em cinco de julho de 1946, em Itaperuna, cidade no noroeste do estado do Rio de Janeiro e aos sete anos sua famlia mudou-se para Niteri, cidade da qual nunca mais saiu.

um rebelde por natureza, contra os preconceitos da sociedade de seu tempo e, apesar de profundamente religioso - cristo -, renunciou Igreja. Renunciou tambm autoridade do Estado sobre sua pessoa, apesar de seus princpios rgidos e de seu respeito lei.

Seu meio favorito de expresso a prosa, onde valoriza a liberdade de pensamento numa sociedade que se limita ao esprito do tempo e valoriza o que ele despreza - o sucesso material.

Sua vida sua obra e se d no domnio da mente. Descobre suas 'possibilidades' em si mesmo.

porto.filho@editorafaroldasletras.com.br

 

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