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Irene Zanette de Castaeda [Cnsul - So Carlos-SP]
Nacionalidad:
Brasil
E-mail:
irene@ufscar.br
Biografia

\\\'Quem és , meu amigo? \\\'
Irene Zanette de Castañeda

* Quem és, meu amigo?


Sou viajante de estrada
Sou viajante do além
Sou viajante da vida
Sou viajante de alguém.

O que levas?

Levo a fruta da vida
Levo vida a alguém.
Levo alguém para a vida
Só não me levo a ninguém.

E então?

Não me canso.
Não fracasso.
Não me envolvo com nada
E ninguém.

Trabalho pela vida dos homens
E, no entanto, para os homens e à vida
Creio: Não sou ninguém.


ESSE NADA QUE É TUDO

* Irene Zanette de Castañeda

Mito emblemático do dia ensolarado
Luz divina que dá vida aqui e além
Espalha razão sem piedade
Ilumina os que não querem ninguém.

Mito emblemático da tarde chuvosa
Nevoeiro que embaça olhos de alguém
Pela ausência de uma vida venturosa
De quem chora por quem não tem

Mito emblemático de um mundo fechado
Nos braços vazios de um grande bem .
Mas cheio de negrume e enfado
Num entrelaço de cores que não convém

Mito emblemático do anoitecer quente
Frio de gente e de amor também
Ébrio de desejo ardente
Sem temor daquilo que vem
.
Mito emblemático da meia-noite aventureira
Hora imortal de amantes com desdém
Não sabem , mas procuram a vida inteira
E enganam o ser que nos braços tem.

Mito emblemático do alvorecer gelado
Vazio do humano que não vem.
Quente de sonhos hibernados
Esperando no caminho: alguém


AMOR IMPOSSSÍVEL

A noite abre os braços preguiçosamente.
Asila forasteiros carentes de amor no céu de grandes estrelas
Faz ninhos quentes como pássaros ao frio
Buscando o calor nas asas venturosamente

Oculta enigmas da dor de outrora
Xadrez de um amor envolvente
Digno de deuses implacáveis
Que desfazem a noite amarguradamente.

Pirilampos silenciosos ofuscam altares
Do amor que só existe para os bem amados
Só acessível aos deuses baqueanos
Que enxergam e sentem o perfume de seres encantados. .

Gotas peroladas derramam desejos na noite escura
Paradoxalmente, acumulada de luz do dia fatigante.
São seres ébrios de amor impossível
Que se libertam na madrugada misteriosamente.

Esmagam-se bocas que sangram esfomeadas
Bebendo o néctar báquico divino
Eis um homem nos braços de uma mulher.

Amor impossível
Sociedade falida
Almas inquietas
Anti-Pitagoricamente construídas

O sonho: um mundo ideal
O momento : a matéria.
Corujas desmascaram o tempo
Homenageiam o amor
Que se constrói do impossível
Agora , todo imortal

LIVRO TAMBÉM SONHA

Irene Zanette de Castañeda

Para todas vocês -mulheres negras, brancas, amarelas ou vermelhas, solitariamente sonhadoras com o bem, ou coletivamente atuantes do bem, abro minhas páginas e através delas lhe mando a minha admiração o meu recado de amor e o desejo de ser redescoberto por todas vocês, como o tesouro oculto que, descoberto, enriquecerá a Vida, hoje transformada em brilhantes espetáculo virtual, belo mas descartável. E cuja beleza e brilho duram tanto quanto os fogos de artifício. Mas isso pode se mudado se vocês quiserem. Daí este meu recado. Venho da origem dos tempos e espero, um dia, que a nova transformação da Mulher aconteça. Eu, pequeno ser incógnito, enleado por um mar de palavras fulgurantes, cheias de sentido, mas trancadas num cofre de um mundo ainda por muitas desconhecido. Desejo sair , andar por todos os lugares, acariciar todas as mãos femininas, encher seus olhos de brilho, despertar-lhes a vontade de viver feliz. Vigio ao longe o seu pensamento, o seu sentimento e a sua razão. Percorro o rastro de seus passos na caminhada que fazem dentro e fora de si. Quero encontrá-las. Transformá-las. Emancipá-las. Quero-as fortes na defesa de seu direito. Conquistadoras não do poder, mas da igualdade. Quero-as felizes. Quero encontrar-me nos seus sonhos escondidos, nos seus sentidos jamais confessados, nos seus pensamentos intimidados por uma cultura massacrante, mecânica, que automatiza, que humilha, que desintegra a essência humana do ser, que as faz pequenas e indefesas. Quero partilhar as minhas dores porque também são de todas. Quero viajar na noite estrelada olhando cada canto do espaço sideral, através de seus olhos e encontrar em cada estrela piscando raios positivos transmitindo a energia cósmica positiva a todas que não vivem só da espera, mas atuam, transformam o mundo, dando-lhe filhos amados.. Quero que falem a mesma linguagem daquelas que sonham, amam e esperam encontrar magicamente braços fortes e abertos prontos para as acolherem carinhosamente. Deverão ser grandes companheiros. Quero que andem por lugares iluminados para encontrarem a verdade escondida nas falsas palavras ditas por seres inconseqüentes; disseminá-la aos corações que sangram abertamente porque esperam chorando. Alertá-las das artimanhas que os homens fazem para usar de seus corpos como coisas descartáveis. Desmistificar homens endeusados pela crença de que como deuses, tudo podem contra as mulheres. Quero também mitificar homens que amam ardentemente e se doam de corpo, alma e mente às suas bem amadas companheiras que sabem provocar sorrisos sinceros, que sabem acalentar os sonhos de grandeza humana . Quero abrir espaço na mata escura das mentes cheias de monstros perigosos para que seja encontrada a esperança esquecida ou abandonada no meio do caminho.Quero fazer preces,vigiar os perigos da escuridão, abrir a alvorada , abraçar o amanhecer num canto leve e doce que nasce na alma abençoada e se espalha por todo espaço da nossa existência. Do princípio ao fim, quero envolver-me com os olhares esquecidos pela multidão que passa apressada, inquieta , em busca do nada, do que não se vê com o coração. Quero desfazer a poluição que cega e promover novos horizontes para que a natureza, os homens e as mulheres unidos sejam vistos com os olhos sensibilizados pelo amor sem sombras, sem a obscurecida indiferença. Quero que elas experimentem a vida sublime, pura, cheia de sonhos. Plantá-la nos corações frígidos onde ela nasce e frutifica e do nada se cria um mundo encantado. Aquecer, dinamizar, ebulucionar, fazer tremer aquele grande músculo que existe dentro do peito.Fazer chorar de felicidade. Fazer vibrar os sentidos do bem , do saudável, da gostosa sensação de que se pode ser feliz tendo tudo ou não tendo nada de material , sendo tudo ou não sendo nada, eis minha função. Tornar o pensamento leve, sem pesadelos para que o homem sorva a mansidão no corpo da mulher. E a mulher, reciprocamente, sorva a fortaleza no corpo de um homem. Quero libertá-las das opressões , dos instintos baixos , da violência que inibe cada célula que perfaz um corpo incompleto.Orientá-las para se defenderem da violência que as ameaça a cada passo. Tornar cada célula de seu cérebro pensante num canto $3>morfoseado em asas de pássaro viajante usufruindo da liberdade de ser, de existir, de sentir-se parte integrante do sistema planetário, da terra e de toda a gente. Mostrar as migalhas dos quereres femininos escondidos no mais profundo recanto dos corações alienados que ainda não descobriram a beleza do amor sublime. Quero ser o caçador das sobras femininas e concretizá-las num belo corpo de mulher. Incentivar os olhares masculinos para a beleza de sua alma. Dar-lhes alma e fazê-las vivenciar a sensação de existirem de fato. Todos os seres estão aqui de passagem. Que esta passagem seja registrada nas paredes desse mundo real através de palavras. Que esta passagem não seja um pesadelo, uma vida vegetativa, mas um grande sol beijando a face de cada mulher a cada dia, a cada minuto, a cada pulsar do coração cheio de amor e sensibilidade. E se houver alguma dor sentida que seja passageira . Que essa dor seja anúncio de outro dia saudável e lindo e feliz ao lado de quem se ama seja um homem, seja um filho, seja uma planta, seja o sol ou a chuva com a força do infinito, do extraordinário, do fantástico. Que nesse novo mundo a ser criado em cada mente feminina não haja pobreza, nem opressão. Mas que a simplicidade domine sobre as consciências . Que esse mundo seja habitado por um exército de mulheres fortes, simples, valentes, mas, solidárias, sábias e felizes descobrindo-me. Que a igualdade social e econômica seja uma realidade incontestável em cada atitude tomada.Que cada mulher personifique a justiça e mostre ao mundo que todos os seres humanos são irmãos, iguais e livres para percorrerem o caminho passageiro a que estão destinados.Que sempre emanem de seus lábios benfeitores palavras sábias e de conforto, construtivas e sadias, justas e inteligíveis: verdadeiras e humanas.Que seus receptores sejam amáveis e compreensíveis, companheiros e solidários.Que esse novo mundo a ser construído a cada instante tenha sempre minha companhia porque eu sou a palavra escondida. Que me procurem nos momentos de lazer, nos momentos de trabalho, nos momentos que desejam viajar, belas viagens , pois sou eu que faço sonhar gostoso. Sou eu que abro caminho para o conhecimento de si mesmo e do mundo circundante. Sou eu que liberto os seres dos monstros disfarçados. Sou eu que promovo o pensamento crítico. Sou eu que construo novas consciências esclarecidas. Sou eu que fabrico a esperança. Sou eu que impulsiono a vontade de viver. Sou eu que torno as mulheres sábias. Sou eu que faço olhar para o céu: ver as estrelas, admirar o sol e a natureza .Sou eu que desenvolvo a sensibilidade. Sou um ser íntegro. Sou, enfim, um livro que abre as mentes das mulheres à vida e à luz. Um livro, o primeiro amante de grandes mulheres que sabem abrir caminhos com os próprios pés. Eu sou a semente de muitas flores que podem formar o mais lindo jardim, flores de todas as cores e de um perfume inspirador de sonhos e da construção de uma vida feliz..

*Professora de literatura da UFSCar

O GRANDE MÉDICO
* Irene Zanette de Castañeda

O inverno chegava de repente. Era manhã gelada. Mas aquele gelo não esfriava um coração de um grande médico. Era sisudo. Melancólico. Taciturno. Circunspeto. Sombrio. Sério.Pouco falava. Mas trabalhava em nome da vida. De trazer alguém à vida. Com passos firmes, dirigia-se com dignidade ao trabalho.Enfrentava o frio aquele que nunca perdera uma vida nas suas mãos. O frio queimava. Era ameaçador. A neblina teimosa, depois de muita chuva expandia-se como fumaça em cada canto. Escondia as pessoas, os seres, a vida. Os raios do sol nascente, ainda tímidos, tentavam iluminar a terra, onde se pisava forte e macio. Os pássaros, nas árvores, em frente ao Centro de Saúde, acalentando os seus filhotes, ensaiavam uma cantiga para anunciar a hora de se levantar, de buscar o alimento. “Mais um pouquinho”, pipiavam os filhotes. As mães, com suas asas abertas, sobre os pequeninos sem penas, aquecia-os com o calor do coração. Os sabiás-laranjeira protegiam os filhotes do frio ameaçador. O quentinho deles era a alegria das mães. O amor entre mães e filhos era uma canção suave. Sagrada. Inspirava ações bondosas. E como pipilavam bonito aqueles pássaros!.A natureza silenciava para ouvir tão doces melodias.Era o despertar para o dia, para a lida.Aqueles bichinhos tinham que comer! A vida continuava apesar do extremo frio. Os pardais, em sinfonia maciça, em revoada, fugiam do frio voando de galho em galho, de árvore em árvore. O movimento é um grande motor para aquecer o corpo e a alma. O coração. Os pássaros também têm alma. E o céu deles é encantado. Lá só se ouvem as canções sublimes dignas dos puros. De vagarinho, os pássaros, um a um, deixavam seus ninhos em busca de alimento. Lá se iam bravamente lutando contra os ventos e o frio para trazerem a seiva da vida aos seus amados filhotes. Batiam suas asas para o mundo. E como era grande o mundo! Se quisessem, não voltariam mais. A liberdade convidava a altos vôos. Mas voltavam. O amor de mãe era sagrado. Sabiam onde encontrar insetos, minhocas... bichinhos, alimento sadio. De volta ao lar, traziam no bico a satisfação do desejo dos serezinhos famintos. Estes esqueciam um pouco o frio, batiam as asinhas nuas, abriam largamente os biquinhos, pipiando incansavelmente, e recebiam o néctar da vida regurgitado das preocupadas mães de pé, na margem dos ninhos.
No quintal de uma casa vizinha, uma gata trazia à vida três gatinhos coloridos. Ali pairava um arco-íris vivo e quente. Com seus olhinhos ainda fechados reclamavam à mãe, num ronronar teimoso, o calor do peito e o leitinho. A gata-mãe, sem pejo, abria-se toda quente, para amamentar seus filhotes. Enquanto bebiam o néctar da vida, a mãe lambia carinhosamente os pequenos. Mais adiante, noutra casa ao lado, ostentando a riqueza do lar perfeito, a guardiã dos donos, uma cachorra bassé também amamentava seus doze filhotes, ainda úmidos pela marca da placenta. Mesmo assim, eles, com seus olhinhos fechados, já farejavam o leite, enquanto eram carinhosamente lambidos Passavam uns por cima dos outros irmãozinhos em busca de uma tetinha quente e cheia. Quente e cheia da seiva da vida. A cachorra, sem fazer distinção, os alimentava com amor. Não podia faltar nada. “Tem para todos!”, gania a grande-mãe. Emanava calor de seu ventre aberto. Tudo era festa naquele dia de frio hibernal. Ouviam-se os sons balbuciantes daqueles bichinhos tão desejosos de vida. E tão saturados de amor maternal.
Mais além, bem em frente, havia um Centro de Saúde. Também envolvida pela neblina, pelo frio, pelo vento cortante, pela sensação térmica gelada A pobreza era paciente. Esperava sempre pelo milagre saído das mãos dos doutores dedicados.. Um médico doador de vidas entrava apressadamente. Já se fazia hora de seu plantão. Orientaria mais mães, muitas mães a darem à luz ao mundo uma nova vida humana. Porém, antes de entrar no local, perto ao portão, na calçada, um raio de sol, afasta a neblina. Era estranha aquela aparição.. Um trapinho de lã rasgado,sujo chama-lhe a atenção.Ia entrar. Não. Voltou o olhar. Viu, atônito, surpreso, uma criancinha. O médico olhava com os olhos de eterna claridade. Ela parecia morta. Estaria dormindo aquele rostinho angélico?Estaria navegando nas asas do sonho? Ou do pesadelo? O cordão umbilical ainda sangrava. Esvaía em sangue. Tão cedo para deixar a vida tão bonita! Era uma criança solitariamente indefesa. Gelada. Hipotermia? Estaria ainda viva? Ah a vida! Esse estranho mundo que se manifestava agressivo e grande demais para tão pequeno ser de um mundinho tão solitário. Era uma criança mesmo! As formigas carnívoras já começavam a subir-lhe no peito aberto para comer-lhe as entranhas. O médico permaneceu, por alguns segundos, emanado ao divino, num ritual sagrado. Seu coração disparado impulsionava a uma boa ação. De repente, suas mãos recebem das alturas uma luz inefável. Desvenda uma alma num corpo. Abre seu coração humano inspirado pelo olhar divino. Estende os braços em direção à criança abandonada. Com suas mãos milagrosas, segura-a firmemente Levanta-a em direção ao infinito. Bebe lágrimas amargas. Não havia como enxugá-las. Seria o filho da noite que morria? Seria o filho do dia que acabara de nascer? Seria filho de uma sombra coroada de espinhos? Seria o filho de sedutores orgasmos já esquecidos? Seria o filho de uma quimera andante, vagabunda? Seria o filho de uma mulher levada pela corrente do engano? Seria o filho de uma pobre coitada, rejeitada pelos descaminhos da Liberdade ? Seria o filho do estupro? O médico enternecido fecha os olhos aos mil pensamentos. Abre o casacão, a blusa de lã, a camisa, leva a criancinha contra o seu peito quente. Abraça-a com todo o carinho do mundo, com todo o amor do mundo, com toda a solidariedade do mundo, com toda ânsia do mundo de salvar uma vida. Era um serzinho solitário, indefeso e roxo de frio, franzino, carente de carinho humano, esfomeado, abandonado por uma mulher pérfida e vil e sem alma. Insensível. Pobre mãe! Pobre criança rejeitada! Fecha o casaco com aquele serzinho gelado unido ao seu tórax. Agora eram um só. Ajoelha-se diante do milagre da vida. Levanta-se rapidamente. Chama um companheiro de trabalho. Enquanto ele segura a criança, o outro dirige velozmente o carro rumo ao hospital. Num solavanco, a criança geme. “Mais rápido!”, ordena o médico. Levam-na, enfim, para dentro da casa de Casa de Saúde. Convocam um pediatra, as enfermeiras. Fazem os procedimentos necessários para reanimar a tão frágil criaturinha. Todos de plantão correm a preparar o choque térmico. Um rápido Mergulho na água fria e na água quente. Tinha que ser rápido. Uma vida se esvaía. De repente, aqueles lábios se movem e um choro é ouvido por todos. “Eu quero viver”, dizia com o chorinho gritante. O sorriso nos lábios dos expectadores era evidente. Misturavam-se às lágrimas de alegria. Mais uma vida salva. As enfermeiras trazem a roupinha, preparam o sorinho, o bercinho. O coração no peito do médico batia forte. Era de um coração humano Ou melhor, divinizado. Tornara-se mito a partir daquele momento. Um mito. Bonito mito!Inesquecível para as pessoas de bem. Era uma vida que fazia renascer. O médico dedicado leva-a novamente ao peito quente. E como aquecia! Aquele quentinho era mais forte que o calor do sol.Era de um grande homem. A criancinha não era mais um anjo com asas. Mas sem asas, com novos sonhos. Uma longa e bela vida se desenhava a partir daquele momento. Não mais chorava. Antes, sorria. Um sorriso angelical, doce. Um sorriso de gratidão. De amor. De amor grande. Nesse momento acabava de nascer um deus de uma criança sem mãe, sem pai.
E bem perto, um pássaro não perdera o espetáculo e bradava aos quatro cantos:
Bem-te-vi! Bem-te-vi! Bem-te-vi!

*Professora de Literatura da UFSCar



AUSÊNCIA
* Irene Zanette de Castañeda

A ausência constrói. A ausência destrói. Provoca saudade. Esquecimento. A ausência amorosa é necessária. Vem uma bruta saudade quando se ama. Lágrimas correm. Ninguém as vê . Suspira-se. Mas a saudade, se muito prolongada sem notícias, sem diálogo é uma planta sem água, aos poucos vai secando, secando. Seca. As lágrimas também secam. Sua força evapora-se. Descola-se. Alguém morre no coração, no pensamento. Lá se vai um grande amor tão belamente construído. Conseqüências? São mãos desejosas de um carinho sem sintonia. São beijos quentes que esfriam pela ausência dos lábios amados..São olhares que buscam o amor no infinito de outros olhos imaginários .São corpos que se procuram apenas nos sonhos vãos.Que não se dão porque distantes indefinidamente. O tempo. Só tempo resolve, dizem. O tempo apaga quando é longo. O tempo traz de volta, se curto. A não realização do desejo pode provocar traições. Culpa? Haverá culpados? A ausência amorosa não acontece apenas pela ausência do ser amado, mas pela falta de notícias, de uma confissão do desejável diálogo, de declarações de amor. De uma palavrinha. De um grito de saudade mesmo que abafado num sussurro cortando os ares noturnos. Todo um ritual antecipado. Num sonho acordado. Assim, o outro é menos amado do que ama. Dói amar sem ser amado. Um amor, bem construído deve ser cultivado a cada ano, a cada dia, a cada instante, a cada minuto, a cada segundo, em pensamento. Um bilhete. Uma carta. Um telefonema. Um olhar sereno. Uma música ouvida por ambos os amados em lugares próximos ou distantes.Em sintonia. Ambos ouvem a mesma música. O coração agradece. Sempre deverá haver um elo unindo amados e amantes. Dá vontade de andar de mãos dadas na caminhada pelo mundo cheio de doçura . Mãos sacramentadas pelo amor depois de longo tempo. Depois de muita saudade. Mãos trêmulas. É a química efervescente. Química! Eis a ciência comprovando a existência do amor. A ausência construtiva é saudável. Traz a saudade. A vontade de gritar aos quatro cantos : “Eu estou amando!!!” “Mas meu amado não sabe amar como eu queria!.”Ah! A saudade Ela fortifica o amor quando se ama de verdade. Mas mesmo à distância ele tem que ser cultivado. As plantas regadas florescem, perfumam, dão frutos . E como são saborosos! Doces.Doce como a vida cheia de amor e de saudade. Até os pássaros fazem seus ninhos perto do verde vivo, perto do alimento que alimenta os filhotes até crescerem e ficarem em estado de partida para uma nova planta-mãe. Para um novo ninho.Para um novo mundo desconhecido.Os filhotinhos estão sempre em estado de saudade. A mãe está sempre em estado de partida. A junção permanente é impossível.. Mas Ambos os amados têm que se falar em algum momento.Ambos têm que movimentar a vida. Ela é um redemoinho que nunca pára. Quem pára morre. “E não caia nunca porque se cair será para sempre”, diziam os Astecas. O amado sempre está em estado de partida, para não ficar uma relação monocórdia, mas regressa porque ama. Cada um na sua casa é mais excitante Na ausência, manda notícias. Busca notícias. Faz o coração bater à distância. Nem um nem outro devem ficar sedentários, imóveis, disponíveis à espera apenas de instantes celestiais, mas dinamizar o mundo. Ausentar-se por horas, dias, buscando novidades,integrar-se ao mundo moderno que evolui a cada segundo, mas sem perder o contato com o coração distante. Ardente! Viver o “Carpe Diem”. Mas deixar um pouquinho para amanhã.Um telefonema. Ah! Maldito telefone emudecido.Resultado da ausência eloqüentemente fria. Não se pode ficar sedentário enquanto o outro parte ou se movimenta pelos caminhos de pedra, de selvas fechadas, ferindo-se em espinhos. Não se deve ficar imóvel como um “embrulho num canto qualquer da estação”. É indigno. Insuportável. Ambos devem partir . Ambos devem chegar. A chegada do ausente é um momento de união. O coração fala forte. A saudade vai embora. As mãos se encontram. Os lábios se esmagam. Os corpos se procuram. Um mistura-se ao outro.Fundem-se duas imagens numa só. .As estrelas brilham coloridamente no céu de todos os olhares ardentes. .Felicidade! A ausência é recheada da presença de quem vai para quem fica. E quem fica acaba sendo menos amado.Há que se abrir os olhos do coração. Por isso não ficar. Nunca ficar. A Mulher foi por muito tempo sedentária, caçada; o homem, o caçador, o viajante. Hoje diluíram-se as fronteiras entre o sedentário e o viajante. Ambos viajam. Correm pelos caminhos da vida sem cessar. Não param. Parar é deprimir-se . È vegetar. É morrer aos poucos.É suicidar-se .É auto destruir-se sem que ninguém saiba. É drogar-se de tédio. A depressão chega. Não se percebe. Não se aceita. O orgulho oculta o evidente. É tão fácil olhar-se. Encontrar-se no bem e no mal na saúde e na doença. Na presença e na ausência. E quantos estão morrendo sem se dar conta que existe uma vida bela a ser vivida cheia de amor. A vida é um sistema planetário. Cada planeta tem seu giro certo. Não param. Parar é morrer e matar outros planetas. A vida é deslumbramento do eterno prazer em movimento. O mar vive porque as ondas não param.As correntes marítimas não param. Movimentam-se continuamente. As estrelas brilham porque há olhos que sabem olhá-las. A terra será fértil indefinidamente enquanto for bem cuidada com húmus natural. E onde há mais húmus natural, meu Deus?!O ar será respirável enquanto houver 78% nitrogénio, 21% oxigênio e pequenas porções de outros gases puros necessários à sobrevivência saudável dos seres que querem realmente viver. O oxigênio só existe onde as matas ainda não foram saqueadas. A vida sem amor é vida sem ar. É pura asfixia. É morte em vida. É vida vegetativa. Enfim, para não morrer, precisar-se-á da presença da vida dinâmica, do movimento do ar dentro do peito, do sangue correndo vivamente quente. E quando chegar o grande momento do reencontro , de sorver a vida na sua plenitude, a beleza insofismável afastará a morte dos que amam. Os versos ao gosto romântico e de inspiração bíblica devem ser pronunciados:
“Inclina teus lábios sobre mim/E que ao sair de minha boca/Minha alma repasse em ti”.

* Professora de Literatura do DL da UFScar

BIOGRAFÍA:
Irene Zanette de Castañeda

Nascimento: 05-04-1945
Natural d e São Carlos SP
Divorciada

Professora Universitária de Literatura do Departamento de Letras da UFSCar São Carlos SP
Doutora em Literatura Portuguesa
Mestre em Estudos Literários
Aperfeiçoamento em Literaturas greco-romanas
Aperfeiçoamento Em Literatura Brasileira e Portuguesa
Professora de Literatura Infanto-juvenil
Professora de Estudos Clássicos
Pesquisadora de Semiótica greimasiana
Premiada com projeto PROEXT pelo Ministério de educação e Cultura \\\'Sarau Itinerante : Práticas coletivas de eco-leituras\\\'
Professora de \\\'Contação de histórias\\\'
Escreve artigos em prosa poética no Jornal Primeira Página de São Carlos;
Ganhadora de concursos em nível nacional [Menção honrosa] de poesia pela Academia Piracicabana de Letras.
Ganhadora de concurso de poesia na UNESP de Araraquara [2º lugar].
Títulação: Acadêmicus Praeclarus , cadeira nº 47 da Academia Piracicabana de Letras.
Tenho mais de 20 artigos científicos publicados em revistas científicas.
T^res livros de estudos publicados
1 \\\'Contos Populares: Portugal, Brasil, São Carlos\\\' pela EDUFSCAR ISBN 857600-034-2 [autora]
2- Literatura, Cultura , Sociedade E SEMIÓTICA ISBN 978-85-99803-18-2 [ Organizadora0
3-Literatura, CULTURA , e Sociedade isbn: 85-88533-27-8
[Organizadora]
Mandarei alguns textos em prosa poética para conheciemnto do emu estilo
Mandarei poesias logo após.

irene@ufscar.br

 

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