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Mrio Mximo
Nacionalidad:
Portugal
E-mail:
Biografia

VINTE E OITO CASAS

Vinte e oito casas são as casas da lunar caminhada.
Em cada quarto de tempo evolui tudo o que exulta de mistério.

Vinte e oito dias meditou Buda sob a figueira.
O Nirvana veio a seguir.
E a seguir recomeçou a caminhada de todos os outros.

Ninguém começa. Ninguém acaba. Tudo é continuar tudo.
Tudo é recomeçar e voltar a recomeçar.
Do alto da imensidão o Tibete admira o mundo e as almas.

A China não liberta o Tibete. O Tibete será tanto mais livre
quanto a China o encarcerar em tolices de poder.
Mas já chega de travessia do deserto. Já chega de provação.

A China vive sem coração. Ou melhor, o coração da China
bate ao lado do peito. O coração da China bate no Tibete.
As árvores do conhecimento há muito que o sabem.

As árvores do conhecimento fazem parte da mesma árvore.
São ramos da única árvore. Florescem para celebrar.
Seja lá o que houver para celebrar.

Os ramos da árvore do conhecimento florescem no Tibete.
Florescem em Curaçau. E nos Andes.
Há ramos da árvore do conhecimento a florir na Amazónia e na Ilha
da Páscoa. E em Nova York [embora com mais dificuldade].

Os ramos da árvore do conhecimento florescem na Rússia. Mesmo
quando floresciam sob a ordem dos sovietes era na Rússia que
floresciam. Também já foram vistos alguns ramos no Japão.
Em Hiroshima retomam os primeiros rebentos. A natureza tem todo
o tempo do tempo. Um dia destruída amanhã reencontrada.
A natureza vive muito para lá das loucuras do Homem.
A natureza joga xadrez. Joga xadrez e nunca perde.

As árvores que são ramos da única árvore jogam xadrez.
Também os rios e os oceanos. Também a terra, onde
há nabos e cenouras e descobertas de outras civilizações.

Jogam xadrez as civilizações. Mas jogam menos bem.
Um dia terminam. A natureza não termina.
Por vezes adormece. Permite ao Homem mostrar o que é:
fanfarrão violador de um corpo lindo. Um corpo inviolável.

A natureza volta sempre. Os homens também voltam.
A natureza é uma, tal como a árvore e o Homem.
Tudo é um embora seja sentido como parte.
O Homem está sempre a esquecer-se da parte que faz da natureza.

Florescem ramos da árvore do conhecimento em Dili e nos vales
de aldeias como a Columbeira. Florescem ramos no Nepal. Em
Alcácer-Quibir. Em Alcácer do Sal. E em Veneza [embora com menos viço].

A Lua embala a árvore do conhecimento. A luz que implora ao Sol
aquece os sonhos. Que é só de luz que os sonhos precisam.
O calor é outra coisa.

A Lua caminha sobre vinte e oito casas.
Muda de forma enquanto rebola pelo Universo.
Embora a forma seja a mesma.
A visão de quem olha é que sendo a mesma vê outra coisa.
É a luz. Tudo deriva da luz e do movimento. Ou seja, da energia.
A Lua é a mesma e rebola pela eternidade.

Olá fêmea do nosso pequeno espaço terrestre!
A Via Láctea é outra fêmea. Há outras fêmeas em Saturno.
Tinha de haver fêmeas. De outra forma a luz seria impossível.
E rebolar seria inútil.

Os planetas rebolam. Os machos também rebolam.
Júpiter e Neptuno sentem-se dengosos no rebolar.
A Terra é fêmea. Já me esquecia.
A Lua é fêmea e gira à volta da Terra.
Aqui está outro enigma.

Os instantes passam e desvelam enigmas. Ou melhor, revelam
verdades e horizontes que aos nossos olhos simples estão interditos.
A nossa ignorância transforma evidências em enigmas.

Abençoado seja o enigma da Lua! Abaixo a evidência da Lua!
As evidências são a negação da poesia! Vivam os grafitti que
inscrevemos na alma. A poesia é a única causa que não desilude!

Felizmente não podemos dizer: aqui está a poesia real.
O socialismo real rebolou pela história. Estatelou-se na rua.
Caíram-lhe muros em cima. Levou o socialismo irreal consigo.
E agora a esperança anda por aí nas mãos de casas de hamburgas
e de bebidas a saber a dinheiro farto. Nas mãos dos outros, claro!
Não há poesia real. Há a poesia que alimenta os corações.
A poesia é o coração de tudo o que gravita nos espaços.
A poesia suprema será Deus. Ou a perfeição.
Nunca haverá o perigo da poesia pragmática.
O pragmatismo nunca produzirá poesia. O pragmatismo devora
os versos e ensaliva-os de mau hálito. Com spray odoral à mistura.
A massa que sobra dessa mastigação é inconclusiva.
A poesia está-se nas tintas para as tintas dos palhaços da corte virtual.

E a corte virtual é pragmática. Fala de poesia como quem fala
de relatórios de imagem e administração. Quanto mais tiram a
gravata mais palhaços são. Palhaços sem a graça que a graça tem.

Querem imitar o estilo dos que têm estilo. Mas o estilo é independente
da gravata. Ou do fato. Ou do cabelo tutti-frutti. Ou das argolas
de l na vagina para as grandes cavalhadas do amor.

O estilo é independente da teatralização da independência. O estilo
nasce onde existe. É de geração espontânea. O estilo do poeta está
na alma e no coração que serve a sua poesia.
O estilo não procura audiências. Nem patrocínios.
Nem obedece a estratégias de imagem.
A primeira sondagem é o início do desvirtuamento do estilo.
O estilo é tão insondável quanto a poesia. Ou o amor. Ou a paixão.

Abaixo os posters do Tibete. Abaixo a Nossa Senhora de Fátima
em porta-chaves desportivos. Abaixo o “parlapié” do poeta que
depende da pena esfereográfica do crítico que ganha o seu.

Abaixo os posters do Che Guevara. A Marilyn é muito melhor!
Viva o exemplo do Che! Abaixo o exemplo da Marilyn.
Há quem se diga budista...talvez o seja. Eu não o sou.

Mas amo o Tibete. Queria estar em Lassa. Viver em Lassa.
Sei lá se tenho alma e coração para tal desafio!
Pelas paisagens do Tibete passam as paisagens da minha utopia.

Xangri-La deve ficar à esquerda do Tibete.
É só uma questão de encontrar a entrada.
Aqui, em Lisboa, numa das colinas de sete, eu olho o longe
e digo para mim que o Tibete é uma das últimas libertações que falta.
Eu não sou budista mas sei o que digo.Falta libertar o Tibete.
O terceiro milénio só assim poderá libertar-se para o grande desafio da esperança.
O Tibete cresce dentro de nós tal como a árvore do conhecimento cresce
e floresce em todas as partes do mundo.Em todos os continentes.
O Tibete tem a eternidade para vencer.
Os tiranos chineses terão, apenas, mais alguns decénios para...perder.

Mário Máximo
In “Oração Pagã”, 2001, Hugin Editores

_____________________

Uma folha de árvore pode ser um pássaro e um pássaro pode ser
uma folha de árvore, pois ambos voam e o vento e o etéreo
são os elementos onde ambas as condições – as de pássaro e de folha
de árvore – se encontram na harmonia que em tudo [ou quase tudo]
parece habitar.

Eu estou na folha de árvore e no pássaro esvoaçante como as volutas
que o seu desenho no espaço vai riscando.
No Outono, sobretudo no Outono, nos imensos jardins ou nos campos
a perder de vista, os meus pés pisam as folhas caídas e tenho a ilusão
de que pássaros nunca pisarei.

Mas, afinal, os ventos violentos ou mesmo os mais serenos,
vão-me mostrando que, mesmo se pisadas, as folhas caídas ainda podem
regressar aos espaços e riscar pequenos destinos.

O que são pequenos destinos?

Mário Máximo
In “ Árvore Hedonista”, 2008, Editorial SeteCaminhos

___________________

No silêncio da palavra acreditei que um Deus passava. Ouvia os seus passos
de divindade mas não o som de nenhuma respiração ofegante de Velho do Mundo [como se os Deuses não se banhassem todos os dias nas águas da fonte da eterna juventude…]. Os passos ouvia, sim, mas do Verbo, do Verbo não ouvi sequer
suspiro ou interjeição. E as saudades que eu senti de ouvir a palavra dos versos,
a luz poética que costuma acompanhar as entidades superiores.

Hemingway escreveu O Jardim do Éden mas era uma história de mar e de areia
e de amor, claro. O livro de Hemingway é um recorte de plenitude profana.
O jardim que procuro é o outro. É o que serviu de arquétipo
a todos os outros jardins. A perfeita metáfora de jardim.

Onde um jardim é metáfora perfeita o que serão as árvores que o compõem?
Jardins sem árvores só mesmo nas palavras poéticas
dos meus companheiros de ofício.

Caminho por um jardim inesperado. Um jardim de flores também,
mas acima de tudo de árvores. Porque cada árvore floresce em jardim. E tudo
tem significado: o tronco; cada ramo principal; cada secundário ramo.
Cada uma das folhas. Cada pétala de cada flor e seu respectivo caule.

Sinto-me o intruso abençoado. Aquele que pode contemplar o que está interdito.
O que pode tocar o que não é tocável. Por instantes que seja. Por sonhos fugazes.
Por luares que durem antológicas noites.

O toque da humana condição que me configura vive no viandante que represento.
Essa humana condição é a flor imperfeita que faz a diferença no perfeito jardim.
A consentida diferença que permite aos Deuses olharem os jardins-metáfora
com a infinita comiseração de quem está habituado a amar
no Olimpo do abstracto substancial.

Esse toque de humana condição concentra-se numa árvore especial. Uma árvore
única condenada à eternidade pois de seus frutos não se geram sementes.
É a árvore dos poemas e dos versos. Aquela onde se poderão ver florir
todos os versos e poemas que já escrevi ou escreverei.
A árvore onde florescem todos os versos e poemas que os poetas escreveram
desde a fundação dos tempos e todos os versos que até ao fim dos tempos
os poetas de todas as nações escreverão.

Essa árvore é a única árvore do jardim perfeito que não tem metáfora.
Ela guarda também os poemas que jamais serão escritos: os que constituem
o tesouro radicalmente interdito.

É a Árvore Hedonista! Eu contemplo a Árvore Hedonista!
Aquela onde o prazer dos Deuses se unifica. A Árvore que eles próprios,
ajoelhados, contemplam. Mesmo quando nós acreditamos
que no silêncio da palavra é um Deus que passa.

Mário Máximo
In “ Árvore Hedonista”, 2008, Editorial SeteCaminhos

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Como se regressara de um porto de mar escalado regularmente
pelos antigos povos da Fenícia.

Rosto de alma anónima cavalgando as ondas de um desígnio
feito das coisas simples que dão vida à vida.

No rosto único da mulher Núbia que por mim aguardara
numa espera tecida por pequenos gomos de destino.

A violência das recordações tem a deriva do imponderável coração. Amo-te
ó Núbia mulher que eu procurei de porto em porto.

Nas tuas mãos delicadas, na fidelíssima beleza da tez escura e dos olhos
de glaucas águas, reencontro o sonho que meu foi noutras eras.
____________

Os sonhos que lanço para longe. Os sonhos para os quais
ainda não nasci, o que são senão pássaros lindos e raros, pisados
pelos meus pés de falsa inocência?

Afinal apenas pássaros tenho pisado a vida toda. Muito mais pássaros
do que folhas. E os pássaros têm asas não as tendo as folhas
apesar de irmãs das aves também porque voam.

Mário Máximo
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BREVE BIOGRAFIA DE MÁRIO MÁXIMO:
Mário Máximo
nasceu, em 19 Setembro de 1956, na cidade de Lisboa. A sua vida repartiu-se por Olival Basto [até aos sete anos], Lisboa [onde viveu quase trinta anos] e Odivelas onde reside há cerca de quinze. Em termos académicos é licenciado em Economia pelo ISE [hoje ISEG].
Desde bastante cedo ligado às questões da literatura e da criatividade literária, deram os jornais a conhecer muitos dos seus poemas, mas também o conto e a crónica. O guionismo para televisão tem sido outra das suas ocupações. Em 1986 participou na Colectânea “Golpe de Asa” com um grupo de treze poemas a que titulou de “Um Milhão de Anos”. Desde então, sucederam-se mais dez livros de poemas, dois romances, três peças de teatro e um ensaio.
“Meridiano Agreste” [1991], “Hedonista” [1994], “Paisagens da Utopia” [1996], “Arte Real” [1998], “Oração Pagã” [2001], “Prima Materia” [2003], “Dezanove Sonetos” [2003], “Hangar de Sonhos – Odes Brancas” [2006], “Diário de Uma Ilha Distante” [2007] e “Árvore Hedonista” [2008] são os títulos dos livros de poemas.
“A Ilha” [1997] dá titulo ao único romance publicado.
Participou na colectânea “Contos Eróticos de Natal” [2000], com o conto “Águas Doces”.
É também de sua autoria o ensaio introdutório ao livro “Real Imaginético” [2004] que apresenta a obra poética completa de Afonso Romano.
Em 1999 o Ministério da Cultura atribuiu-lhe a Bolsa de Criação Literária, pelo projecto de poesia “Oração Pagã” [publicado em 2001].
Em 2001foi editado o CD “DIZERPESSOA”: 17 poemas de Fernando Pessoa e principais heterónimos são ditos por Mário Máximo e a música [composições originais] é da autoria de Paulo Nazareth.
Para além das responsabilidades assumidas enquanto gestor de diversas áreas empresariais destaca-se, ao nível da Gestão Cultural o seguinte:
1993-1994 – Membro do Conselho Executivo da Fundação Natália Correia
2002-2007 – Presidente da Direcção da Associação Fernando Pessoa
2005-2007 – Presidente do Conselho de Administração da Odivelcultur EM
[empresa que geria o Centro Cultural Malaposta]
2007-2007 – Presidente do Conselho de Administração da Odivelgest EM
Actualmente é Presidente do Conselho de Administração da Municipália EM
[empresa que gere o Centro Cultural Malaposta]
Foi Mário Máximo o principal impulsionador da criação da BIENAL DE CULTURAS LUSÓFONAS no Centro Cultural Malaposta, em Odivelas: a primeira edição decorreu em Março de 2007; a segunda edição decorrerá de 11 de Março a 5 de Abril de 2009.

mariomaximo@iol.pt

 

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