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Glaucio Cardoso
Nacionalidad:
Brasil
E-mail:
professorcardoso@gmail.com
Biografia

Glaucio Cardoso

Nascido em 1976, é natural de Mesquita, Rio de Janeiro. Mestre em Literatura Brasileira pela UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeir). Membro da Associação Brasileira de Artistas Espíritas (ABRARTE) et Membro da Academia de Letras e Artes de Mesquita.

Livros publicados:

  • Poesia: Enquanto Clara dormia (2011), Sopros e outros poemas (2012), La commedia è finita (2015).
  • Ensaio: Em defesa de um teatro espírita (2013)

Site pessoal: glauciocardoso.blogspot.com

 

Dom Quixote de Mim Mesmo

Em um lugar de meu sonho,

Cuja lembrança esqueceu de acordar,

Cavalga minha visão geniosa

Vislumbrando o que pode ser

Apartado do que não é.

 

Montado no garanhão do ideal

Galopo combatendo seres fantásticos,

Disfarçados em gigantes

Que enganam homens entorpecidos

Temerosos de monstros inventados.

 

Minha luta solitária

Ainda encontra quem me siga,

Em honra à dama a quem sirvo

Grato por sonhar-me.

 

Minha triste figura causa o temor

Àqueles que enfeitiçam os homens

Com ameaças de lançá-los ao fogo.

 

Cada homem é um livro

Que, mais do que lido,

Precisa ser despertado

Para que volte a sonhar.

 

Você sabe de onde eu venho?

Você sabe de onde eu venho?

Venho de quando em quando,

Venho de passo em passo,

Venho pé ante pé

Buscando versos no ar,

Traçando frases na pedra,

Ou quem sabe na areia,

De memórias alheias.

Você sabe de onde eu venho?

Venho de minha parte,

Venho com engenho e arte

Falar pra você que me escuta

Que há um tempo bem bom de dançar.

Venho tocando a vida

Nas cordas de um violão.

Você sabe de onde eu venho?

Venho de páginas em branco

Riscadas com cores e sonhos,

Marcadas a ferro e nuvens

Com traços invisíveis

Aos que não sabem sentir.

Você sabe de onde eu venho?

Venho de alguma parte,

Ou então de parte alguma,

Venho de onde a luz pede para brilhar,

Venho de onde canções não se calam,

Venho daquele lugar especial

Que é entrevisto em momentos mágicos

Quando sonho e realidade se confundem.

Você sabe de onde eu venho?

O sono de um anjo[1]

O anjo na areia

Parece dormir

Um sono cansado.

 

Queria vê-lo brincando,

Queria vê-lo sorrindo,

Queria vê-lo em seu prometido voo.

Mas o anjo não acorda,

Não brinca,

Não voa.

 

Quem cortou tuas asas?

Quem foi que apagou os rastros de teus passos?

Quem foi que fez calar teu riso?

 

Eu digo e afirmo

Que fomos todos nós;

Os olhos cerrados,

Os braços cruzados,

Todos fechados

Para quem só queria o refúgio

De um carinho sincero.

 

Será que as fronteiras

Que existem nos mapas

Se tornaram muralhas

Que separam os homens?

Por que é tão difícil

Abrirmos o peito

Pra dar abrigo

Ao outro que sofre?

 

Eu queria poder, meu anjinho,

Te tomar em meus braços

E cantar pra você canções de acordar,

E sussurrar coisas belas

Pro teu doce sonhar.

 

Mas o anjinho não vai acordar,

Nós condenamos, a ele e a outros,

A um aparente dormir.

 

Eu sei te dizer, meu anjinho,

Que nunca vou te esquecer,

Pois senão eu estaria

Esquecendo de mim

E de quem você é:

Você é nossas crianças,

Você é nosso futuro,

Você é a dívida

Que nos acompanha

E que é preciso saldar.

Você será sempre criança

Em nossas retinas.

 

Agora vá, meu anjinho.

Sobe bem alto até as estrelas

E conta pra elas as tuas histórias,

A que devia ter sido e a que fizeram ser.

Vai correr entre as nuvens

E cantar entre os pássaros,

Vai rir um riso solto no meio do azul.

 

Só te peço, anjinho,

Que perdoes aos homens

E que se puderes,

Em tua oração,

Meu anjo,

Sonha por nós.



[1] Em memória de Aylan Kurdi, menino sírio morto aos três anos de idade quando buscava refúgio de uma guerra que não era dele.

 

 

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