s
s
s
s
s
s

El contenido de esta página requiere una versión más reciente de Adobe Flash Player.

Obtener Adobe Flash Player

Carlos Domingos
Nacionalidad:
Portugal
E-mail:
Biografia
O MEU PAI

Lembro-me do meu pai
como um cultivador de virtudes
e dignidade antiga plantada no rosto.
A teoria, os princpios, a honra da famlia,
a humanidade e a ptria
eram os seus amigos de domingo tarde.
Mas a ptria escondia-se dentro de cada um
tiritando passagem duma brigada de polcia.
E a humanidade comeou a arder
com fogo posto
por fantasmas produzidos em srie
nas casas Farben, Krupp e outras firmas
fabricantes de monstros.

Lembro-me do meu pai
angustiado sobre o mapa.
Lembro-me do meu pai
agasalhado com a voz do Fernando Pessa
[BBC - A Voz de Londres].
Lembro-me dele
descendo baixinho ao fundo das horas mortas
para conversas hertzianas com Rdio Moscovo
que lhe segredava as ltimas
sobre a vida e a morte dos homens.

Ns, os meninos,
tnhamos ento pressa de crescer
para no ser apanhados desprevenidos.

Lembro-me do meu pai esquecido de si prprio
ensinando-nos a esquecer as dores semeadas no nosso cho,
os nossos mortos,
as nossas grilhetas, as mordaas, a fome, o silncio,
a noite profunda dos nossos olhos,
porque uma morte mais morte asfixiava o Homem.

Lembro-me do meu pai imvel de p
de olhos perfurando a distncia
quando uma esperana mil vezes assassinada
se levantou envolta em sangue,
disposta a morrer por ns como uma me,
escorrendo angstias e desespero, mas esperana!
chamada Stalinegrado.
Aqui resistimos, de unhas desfeitas nas rochas,
aqui estremecemos por cada casa derruda,
por cada tijolo esfacelado,
por cada punhado de terra abandonado.
Aqui todos fomos Stalinegrado, mil vezes morremos
e mil vezes nos sublevmos morte.
Sememos alvoradas em regadios de sangue,
forjmos msculos e certezas,
pendurmos olhos na noite.

E ns, os meninos,
demos um sentido oculto aos nossos jogos.

assim que eu relembro o meu pai
e no quero outra forma de o amar.

Porm, os meninos vo crescendo e tomando conscincia da realidade que os cerca

Eu estava a cumprir o servio militar quando Salazar comeou a mobilizar tropas para a ndia e foi uma sorte incrvel eu no ter sido mobilizado. O poema seguinte no foi publicado na revista Vrtice por ter sido cortado pela Censura salazarista.

BARQUEIRO DO BARCO NEGRO

Barqueiro do barco negro,
quero voltar minha terra.
Naqueles longes de bruma
tenho os meus irmos esperando
o estilhaar do silncio
que pesa sobre a montanha.

Naqueles longes de bruma
os homens perdem o riso.
Parou o tempo. E o Sol
desmaia logo ao nascer.

Barqueiro do barco negro,
quero voltar minha terra.

O hlito de fogo e cinza
do monstro que traz a morte
seca os prados, seca os rios,
faz mirrar os pensamentos.

No h estrela que perdure
na noite densa do medo.
Neva o luar sobre as casas
enregelando a vontade.

Barqueiro do barco negro,
quero voltar minha terra.

Morrem os rios nas fontes,
morre a semente no cho,
morre o grito na garganta,
morre o protesto no sangue.

Os lobos rondam uivantes
de lanternas apontadas.
Barqueiro, quero voltar
com olhos de fogo-posto.

Barqueiro do barco negro,
ai, barqueiro do barco negro...


A aco revolucionria tinha de se defender do seu mais directo inimigo, a polcia poltica, os torcionrios da PIDE com o seu exrcito de informadores, os bufos.

OS RPTEIS

Escorrem das paredes
e infestam a calada.
Viscosos. repugnantes,
com balas de dio alvejam
e derrubam a pomba
que teimava em voar
no azul da nossa mgoa.

As suas munies
so lamas e excrementos.
Penetram pelas frestas,
instalam o terror
no mago do sonho
e destroem o anseio
de acalentar o amor.

Os rpteis cospem rtulos,
separam, classificam,
marcam a fogo lento.
dentada, esfrangalham
o calcanhar da esperana
e aplicam-se a varrer os
destroos do futuro.

Entre as vrias aces da juventude anti-fascista contavam-se as distribuies de manifestos, o lanamento de panfletos e, com muita frequncia, as inscries nas paredes com frases de denncia e palavras de ordem.

SOMBRAS

Uma
a uma
sombras leves
deslizam aladas
na noite breve.

Mensagens velozes
de paz e de amor
ocupam noite
a cidade cativa.

E, como um beijo da brisa
nas guas adormecidas,
passam singrando no silncio.

Mil olhos guardam a noite.
Mil olhos riscam a noite
de fogo e de cinza quente.

E a lua vem, traioeira,
com sorrisos de navalhas,
apunhalar as esperanas
da manh que h-de nascer.

E as sombras passaram
e, uma a uma, caram.

Mas ainda ficaram
vibrando como gritos
as nossas mos de sombra
nas paredes brancas.

[Este poema foi publicado, na dcada de 60, no Suplemento Literrio do Dirio de Lisboa, assinado com o pseudnimo de Lus Gameiro, pois nessa altura j vivia na clandestinidade e no podia publicar com o meu prprio nome].
Na minha casa da Calada do Monte fazamos reunies do organismo de direco da luta anti-fascista em Lisboa, ao qual eu pertencia.

Calada do Monte, 64-2

Daqui desta janela sinto o mar.
Estou sentado em casa eis o refgio,
o parapeito, o ombro em que me apoio,
o quartel general das minhas mgoas
onde tarde recolho sempre, aps
o corpo-a-corpo com o dia-a-dia.

Aqui o sonho cresce. Esta janela
a moldura que limita a fora
do meu olhar. l no fundo, ao longe,
para l dos telhados e do Tejo,
que eu afogo no mar o desespero
como um sol sem resposta para a noite.

As estrelas no dormem, mas eu espero
que um dia a manh rompa o nevoeiro.

Escrevo luz do petrleo at bem tarde.
H sombras espalhadas pelo quarto,
sombras que danam com o pensamento.
H rudos l fora, para l
da porta. Ser o vento ou serei eu
que tremo deste lado? Fico escuta
[os vizinhos no so de confiar...].
Ser melhor queimar os pensamentos
na chama do candeeiro? No se sabe
em que momento o monstro atacar.

Tremeu a porta, como um sobressalto.
Ergo-me a indagar o que se passa.
Pouco importa, afinal. Nada vir
mudar o rumo deste sonho aceso.

quase dia. Abro a janela e sinto
que o mundo existe, que as estrelas dormem,
que o tempo no desarma, mesmo noite
com as aberturas todas bem trancadas.

No posso mais calar a minha voz.
Mesmo que o pretendesse, o canto j
no se detm e reproduz-se em ecos

metralhando as muralhas, pedra a pedra.
Venham, tragam mordaas, que os meus olhos
continuaro a transmitir o grito!

Mesmo se me matarem viro outros
e gritaro por mim.
O grito invencvel. Sim! O grito
ser sempre invencvel!!!

Batem porta. Que me importa agora?
Mais uns minutos e ser manh.
V, arrombem a porta! Mesmo assim,
tenho a certeza que haver manh!

O crescente nvel da luta em que me empenho provoca uma perseguio cada vez maior, j no sendo possvel continuar sem passar a viver na clandestinidade. Foi essa, portanto, a minha deciso: aceitar a proposta dos rgos dirigentes. Por essa ocasio, em Maio de 1958, vsperas da campanha eleitoral para a Presidncia da Repblica, despeo-me, com um poema, de todos os meus amigos. O poema, intitulado Mensagem circulou de mo em mo por todos eles. Anos mais tarde foi publicado.


MENSAGEM


Parti um dia, meus amigos,
da cidade em que todas as estradas
desistem no mar.
Desapareci por entre a poeira das viaturas
aglomeradas na passagem de nvel.

Trinta e tal pontos de interrogao
me procuraram no dia seguinte ao nascer o sol.
Tambm os teus olhos sentiram que eu faltei
no autocarro dessa manh de Maio.

Parti, meus amigos, para to longe
e, ao mesmo tempo, para to perto de vs
que nem o vosso pensamento poder
sequer acompanhar-me na jornada.

Sigo por uma vereda talhada na rocha,
por matagais de cardos, por rios e montes
e as pegadas de sangue que deixo no caminho
ensinam o rumo aos novos companheiros.

No me assusta a ladeira
nem rolarei sem foras
pelas encostas.
Deixo-vos o corao
como penhor do meu regresso.

At vista, amigos!
At quele dia
em que a manh nascer sem nvoas
e em que os frutos dos laranjais libertos
matem a sede ao caminhante exausto.

[Este poema foi publicado, em 1963, no Suplemento Literrio do Dirio de Lisboa, assinado com o pseudnimo de Lus Gameiro

Em 21 de Dezembro de 1961 cobardemente assassinado pela PIDE numa rua de Lisboa o militante clandestino, escultor e pintor Jos Dias Coelho.

ELEGIA
[No dia do assassinato de Jos Dias Coelho]

Hoje no quero rimas nem tambores.
S lgrimas e balas. S negrume.
S noite acesa de cruel queixume,
s labareda a crepitar rancores.

Tombaste, amigo, mas no tenho flores
para cobrir-te o corpo. O azedume
com que os meus versos chicoteiam lume
tornou estas imagens incolores.

Com a tua certeza, a tua esperana.
o teu calor, o teu olhar to leve
[sementes que o meu sopro espalha] sigo

no teu caminho feito de confiana.
O teu sorriso reverdece e, em breve,
a Primavera voltar contigo.


[Escrito em Dezembro de 1961,este soneto foi publicado, em 1963, no Suplemento Literrio do Dirio de Lisboa, assinado com o pseudnimo de Lus Gameiro]

Na primeira visita em comum que tive com a famlia, sob a vigilncia dum chefe de brigada e de um agente, alm do guarda prisional, consegui passar disfaradamente l para fora um pequeno poema escrito numa mortalha de cigarro.

ISTMO

Um preso poltico como uma pennsula:
rodeado de lobos por todos os lados
menos por um a certeza
que o liga aos companheiros.
[Priso de Caxias, Outubro de 1972]


De todas as torturas a que fui submetido pela PIDE, a mais terrvel foi a tortura do sono, que consistia em privar o preso de dormir dias seguidos para lhe quebrar a resistncia, tanto fsica como moral.

NO 13 DIA DA TORTURA DO SONO

Esta manh o Sol,
vermelho de vergonha,
veio espreitar se ainda vivo.

Sinto-me num barco que se afunda.
S eu flutuo
deriva num mar encapelado,
as tbuas unidas por um fio inquebrvel,
jangada varrida por chicotadas de tormenta
com agresses de rochedos a doer nos ossos.

Deso ao fundo de mim. Ao menos
aqui encontro segurana.
minha volta os monstros investem
mas s por fora a carne sangra.

Recosto-me
num monte de recordaes
que as vertigens no deixam ordenar.
Ah! Bem desejam os monstros apreend-las
e por isso espreitam desesperadamente
atravs dos meus olhos.
Mas, entretanto, eu desliguei a lmpada
que dava luz c dentro.

Estou suspenso de mim. Acho que vou cair.
Mas no. As paredes que rodopiam
e abrem-se agora passagem de figuras brancas,
monstros de cal, corpos recortados.
Quem so, quem so? Ah, no apertem
pois quero respirar.
Que ouvidos so aqueles pendurados no tecto?
Como conseguiram entrar na minha cabea
e escavar, escavar... ?
Rio-me, pois nada encontraro
a no ser uma ampulheta marcando o tempo,
cada vez mais difuso.
Rio-me, sim, com um riso de sangue em brasa.

Eles tentam isolar-me cortando as amarras,
quebrando as antenas,
destruindo a bssola.
Mas eu continuo a orientar-me
rompendo o nevoeiro do seu dio.

O meu pensamento uma escada em caracol
a que faltam degraus.
Ontem noite escorreguei
e quase mergulhei no sono universal.
Mas hoje, com o render da noite,
senti-me vivo e gostei.

Amo a vida, o amor, a liberdade.
E por isso que morro pela vida,
odeio pelo amor
e pela liberdade estou cativo.

Soltam minha volta palavras-mastins
que ladram e abocanham:
Diz!, Declara!, Fala e vais dormir!
[sons para mim sem nexo].
monstros pobres diabos!
Nem sequer se apercebem que no podem
vergar esta barra
dura como a vontade.

Deixei-me cair em indiferena de algodo.
Desisti de fazer o puzzle que trago nos olhos.
Sons e imagens, podeis vogar, sois livres,
podeis confundir-vos, bailar.
Gargalhadas na parede, ameaas,
olhos a passear pelo cho,
bichos repelentes, rpteis,
hlito podre de polcias suados,
mos na garganta, lpis
a rolar sobre a mesa como um bulldozer,
tudo isto est prensado
nesta muralha de dio minha volta.

Dentro de mim est a vida.
Dentro de mim trago os companheiros que se agitam,
dentro de mim trago os povos que fervilham,
povos que recusam a vala comum
e reconstroem o Sol.
Dentro de mim est o amor
que se transmite em ondas de confiana.
Dentro de mim
h um carregamento de certezas
implacveis.

por isso que o meu sorriso
uma arma de agresso
que transforma o dio em desespero.
Dentro de mim, bem no fundo de mim,
que est a passagem para a liberdade.

Mas s eu tenho a chave do alapo.

[ Priso de Caxias, Outubro de 1972]

Finalmente, perante a inutilidade das torturas, enfiaram-me numa cela onde estive isolado trs meses.

Em Maio de 1973 foi preso o cantor Jos Afonso, meu amigo de longa data. Atravs das janelas gradeadas, eu vi-o entrar. A minha me chegou a falar com a famlia dele e foi essa a nica vez que contactmos indirectamente. No entanto, segundo ele me afirmou um dia mais tarde, esse simples contacto indirecto foi-lhe benfico, sentiu-se acompanhado.
O poema seguinte -lhe dedicado.

TROVADOR
[Ao Jos Afonso, no dia em que foi preso em Caxias]

Apagou-se uma estrela e logo
uma cano perfurou o silncio.
Assim, semeemos a noite de canes
para que as estrelas no durmam.

E por isso que eu te exorto,
trovador de rias amargas,
a arrancar da viola os acordes
da tua inquietao.

Tudo o que bulir dentro de ti,
amor, revolta, espanto, saudade,
dores, esperanas, raivas e certezas,
so essas as munies
que armam a cano.

Empunha a tua voz
e investe contra o dio
que se tornou muralha.

Canta!
Nos postigos da fome ou nos portais do frio,
nas esquinas dos ventos traioeiros
ou nos cais onde plangem as distncias
h sempre uma cano
que, dentro de ti, espera.
Nas vozes caladas pelos silvos das fbricas
ou entre os medos que uivam nos pinhais
h canes, espreita, para ti.

Canta!
Desprende a tua voz pelos espaos.
Se te mandam calar, tu no te cales!
Se a guitarra te quebram
os ecos sabero
acompanhar o teu canto.

Canta, trovador!

Mesmo se te algemarem,
a cano voar
em estilhas de revolta e sis de esperana.

Canta!

Se te esmagam a voz,
os teus olhos continuaro
a disparar canes
para alm da mordaa.

Canta!

Se quiserem matar-te,
nem mesmo assim te cales
milhes de vozes cantam j contigo.

Canta, mesmo que te matem!

[Priso de Caxias, Maio de 1973]

Apontamento numa caixa de fsforos no dia do meu julgamento no Tribunal Plenrio:

A Liberdade, finalmente!!!

LIBERTAO


S notei que era Abril quando acordei
da asfixia geral, assim que o mar
cavalgou a muralha, espuma no ar
chicoteando as grades. Mas no sei

se era o mar ou o sangue, que ateei
de chama inquieta, de alma a crepitar
no meio da alvorada, ou se era o esgar
do silncio daninho que arranquei.

Punhos cerrados estilhaam portas,
animam-se de ritmo as horas mortas
como crislidas que a luz invade.

Instalam-se canes de pedra e cal.
O vento expulsa os medos do olival.
Respiro o amor, o beijo, a liberdade.

[Comcio em Torres Vedras, 26 de Abril de 1974]

Alguns dados biogrficos
CARLOS DOMINGOS
[de seu nome completo Carlos Domingos Soares da Costa] nasceu em Lisboa a 11 de Maio de 1933. originrio do bairro da Graa onde, em jovem, devido a influncias familiares, passou a desenvolver uma actividade poltica contra o regime salazarista, que continuou a exercer pela vida fora..

Aos 9 anos comeou a escrever quadras para serem cantadas nas excurses e passeios duma colectividade do Bairro.

Durante a adolescncia colaborou na fundao duma biblioteca juvenil na Sociedade Promotora de Escolas. Esta Sociedade j possua uma Biblioteca de ndole cientfica, onde adquiriu uma formao cientifico-filosfica.

Na Biblioteca Juvenil tomou contacto com a literatura mundial e com o essencial da poesia portuguesa. Frequentou tambm a um curso de tcnica teatral, desde os gregos a Stanislavski.

Nesse ambiente fundou um jornal de parede de carcter literrio e cientfico, que era lido por mais de uma centena de jovens do Bairro.

Em vrias colectividades fez teatro amador, como actor e como encenador, dirigiu um teatro de marionetas, organizou recitais de poesia e alguns concertos musicais.

Foi o seu vizinho Alfredo Guisado, um dos poetas do Orfeu, que o encorajou a continuar a escrever poesia.

Nessa poca privou com personalidades como Antnio Srgio, Castelo-
-Branco Chaves e lvaro Salema. A este ltimo, notvel crtico literrio e ensasta, ligou-o uma forte e duradoura amizade at sua morte prematura.

Tinha 16 anos quando publicou o seu primeiro poema no Dirio Popular.

Em 1954 foi colaborador da revista Vrtice, onde alguns poemas seus foram cortados pela censura..

Participou em vrios recitais de poesia levados a efeito em vrias colectividades populares de Lisboa por um grupo de poetas ligados ao movimento neo-realista [Jos Ferreira Monte, Jos Prudncio, Manuel da Fonseca, Mendes de Carvalho, Sidnio Muralha e outros].

Devido s sua notria actividade contra o regime salazarista, comeou a ser perseguido pela PIDE, que o procurou prender, tendo por isso continuado a sua aco na clandestinidade a partir de 1958. At sua priso em 1972, lutou na clandestinidade, dentro do pas, contra o fascismo salazarista durante 14 anos consecutivos.
A sua redobrada actividade poltica no o impediu, no entanto, de continuar a escrever poesia. Vrios poemas seus circularam em folhas volantes e alguns foram transmitidos pela Rdio Portugal Livre.
Em 1959 conheceu a militante clandestina Francisca Caeiro, alentejana recentemente regressada de terras algarvias, que mais tarde passou a ser a sua companheira. Foi este contacto que lhe abriu as portas para um mais profundo conhecimento do Alentejo e do Algarve.

Por alturas de 1960 foi encarregado da redaco do jornal clandestino
O Corticeiro, destinado a todos os operrios corticeiros do Pas.
A partir de 1963 colaborou com regularidade no Suplemento Literrio do Dirio de Lisboa acobertado com o nome de Lus Gameiro, pseudnimo que s era conhecido do seu amigo lvaro Salema, que dirigia o Suplemento..
A partir de 1968 dirigiu a luta de todos os ferrovirios portugueses por melhores condies de vida e de trabalho, que teve o seu ponto alto na paralisao nacional de toda a actividade ferroviria no dia 20 de Outubro de 1969.

Em 1972, denunciado por um informador infiltrado, foi preso e barbaramente torturado pela PIDE, tendo sido julgado pelo famigerado Tribunal Plenrio. A defesa que ento apresentou um verdadeiro documento poltico, que foi amplamente difundido nos meios anti-fascistas. Condenado a 3 anos e meio de priso, no chegou a cumprir a pena completa porque entretanto foi libertado pela revoluo do 25 de Abril de 1974.

Durante os 2 anos que passou nas prises de Caxias e Peniche escreveu alguns dos seus poemas que considera mais emotivos.
.
No perodo em que permaneceu preso em Caxias elaborou tambm, com a colaborao de outros dois companheiros, um trabalho intitulado A Represso Fascista e a situao dos presos polticos em Caxias, que foi lido no 3 Congresso da Oposio Democrtica, realizado em Aveiro em 1973, onde foi acolhido com uma enorme ovao. Esse trabalho encontra-se publicado num dos volumes das Teses do referido Congresso [7 Seco].

Entretanto, todos os seus originais foram apreendidos pela PIDE, tendo-se salvo apenas os que j tinham sido publicados e aqueles que estavam na posse de familiares e amigos, alm dos que conseguiu reconstituir de memria.

De regresso liberdade, colaborou no jornal O Dirio e em vrios jornais regionais com destaque para o Notcias da Amadora.

Foi fundador e dirigiu o semanrio Margem Sul, de Setbal.

Foi mais tarde jornalista sindical, restaurando o jornal do antigo Sindicato do Pessoal das Garagens intitulado O Pneu, de que foi simultaneamente redactor, reprter, reprter fotogrfico, paginador e revisor.

Por esta altura, j tinha fomentado, organizado e dirigido uma cooperativa cultural de nome PLATAFORMA, a qual, alm de ter editado alguns livros, promoveu vrias excurses de ndole cultural, com o apoio de vrias cmaras municipais, promovendo visitas a diversos concelhos, que incluam sempre recitais de poesia, alguns at ao ar livre. Os poemas ditos em cada uma dessas iniciativas foram sendo editados numa coleco de cadernos intitulada Poemas Ditos.

Foi igualmente membro duma outra Associao Cultural, em cujas iniciativas participou e cuja revista literria [a revista SOL XXI, dirigida pelo falecido poeta Orlando Neves] contou tambm com a sua colaborao, tendo tambm participado em recitais promovidos pela dita associao em Albufeira, Condeixa, Coimbra, Tondela, etc..
Est ainda presente numa antologia de poemas em homenagem a Garcia Lorca editada pela Universitria Editora, integrando, mais tarde, uma outra, Neruda, Cem Anos Depois, organizada por Cristino Cortes e publicada pela mesma editora.
Tem tambm colaborado nos cadernos de poesia Viola Delta coordenados pelo poeta Fernando Grade.
Em 2003, na Biblioteca da Cmara Municipal de Lisboa, no Palcio Galveias, pronuncia a palestra O Soneto, esse desconhecido. A alguns que contestaram a validade do soneto, respondeu com o artigo Sobre a actualidade do Soneto.
Em Maro de 2007 publica nos cadernos culturais da Tertlia do Monho um artigo de homenagem ao cantor Jos Afonso com o ttulo Jos Afonso deixou-nos h 20 anos. No ms seguinte pronuncia na Casa do Sabugal a palestra Jos Afonso No vigsimo aniversrio da sua morte.
Ainda em 2007, em Novembro, participa em Pavia numa comemorao do centenrio do nascimento do pintor Manuel Ribeiro de Pavia, abrindo a sesso com o texto Homenagem memria de Manuel Ribeiro de Pavia.
Em 2008, a convite do Gabinete de Cultura da Cmara Municipal de Lisboa, pronuncia a palestra A Poesia na luta pela Paz.
membro do Conselho Portugus para a Paz e a Cooperao [C.P.P.C.] e, nessa qualidade, tem participado em variadssimas aces pela Paz, nas quais se incluem a difuso de poemas em favor da Paz, uns publicados em vrios jornais e revistas, outros distribudos atravs de vrias organizaes, promovendo mesmo a sua circulao pela Internet [a nvel nacional e internacional].

colaborador da revista de poesia Isla Negra, dirigida pelo poeta argentino Gabriel Impaglione.
Integrado num grupo de poetas, est a trabalhar na elaborao e futura publicao duma colectnea de poemas de luta pela Paz e pelos direitos humanos.

Actualmente est a tentar compilar todos os seus escritos, em prosa e em verso, tanto os que se encontram dispersos por jornais e revistas como os inditos, estando j prontos para publicao dois livros de poemas: TEMPOS DE BRUMA ou Poemas para memria futura e Seis Sonetos Erticos e Outros Poemas de Amor.
Alm de muitos outros poemas, dormem ainda na sua gaveta diversos discursos polticos pronunciados no distrito de Setbal em 1974 e 1975 e o esboo duma pea de teatro.
Tem ainda em preparao um livro de contos.

Mais tarde, quando o meu pai morreu, j depois do 25 de Abril, eu no perdi s um pai, mas perdi igualmente um companheiro de luta que durante todo o tempo me acompanhou, mesmo sem me ter junto de si. No entanto, a minha memria reportou-se com maior intensidade quele perodo da minha infncia em que ele era para mim o modelo a seguir.

carlosdomingos@mail.telepac.pt

 

Desarrollado por: Asesorias Web
s
s
s
s
s
s