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Silvrio Duque
Nacionalidad:
Brasil
E-mail:
Biografia

CONTEMPLAÇÃO DE UM ROSTO IMÓVEL:
UMA ELEGIA EM VISITA AO TÚMULO DE MEU AVÔ,
OSÉIAS DIAS DA SILVA, O \'SEU NENÉM\'.

Nasci de mortos...
Agora e sempre continuaremos.


JORGE DE LIMA

[Sonetos gêmeos]

– Contemplar estas lousas em silêncio
como um poema ilícito... perdido;
perdido neste chão envolto em lágrimas,
olhos dispersos, olhos sem consolo...

Aqui estão as pobres coisas tristes,
reencontrando a essência e a memória
das dores engolidas pela terra.
Ó doce espelho d\'alma deste mundo,

venho abreviar com os olhos os dias hirtos
de minha vida inteira e ressequida,
como se este poema fosse a face

de minha angústia, aqui, recomeçada,
quando perdi teu nome em meio às lápides...
como perdi a Paz com a tua morte;


no entanto, ali estão os diversos rostos
e, hoje, meu rosto muda-se ao rever-te,
carrego-te nas sombras e nas sobras
destes mármores, deste chão vetusto.

Hoje, a leveza de teu corpo invejo;
invejo esta tua casa de silêncios,
a tua morada eterna e verdadeira,...
invejo a ausência de teus olhos.

Venho buscar teu ser por entre as brumas,
venho sentir teu rosto sob a terra,
acariciar teus pés por sobre as ervas...

Tudo contém as máscaras amargas
da mentira, mas, hoje, é doce o rosto
da verdade que a terra te modela.

Feira de Santana, 28 de março de 2006.

II

UM CÂNTARO JUNTO À FONTE:
UMA ELEGIA EM VISITA AO TÚMULO DE MINHA AVÓ,
ALICE CARNEIRO DA SILVA, A \'DONA LICINHA\'.


Do suor do teu rosto comerás o teu pão,
até que voltes à terra, porque dela foste tomado...


GÊNESIS: Cap. 3; Vv. 19.

[Totentanz]

– Na concha de retalho das palavras
teu nome se alinhou às minhas lágrimas
como se alinha
ao sonho
o que se busca,
ou como nada fica do que foi
outrora
os teus passos sobre o chão da casa...

As lembranças daqueles que te amaram
repousam sobre o pó que te recobres
e,
um dia,
hão de ficar sobre estas minhas memórias todas.
Sinto, todavia, a tua sombra unida à minha...
viva,
qual a raiz profunda dos instantes,
como sinto [ também ]
este silêncio povoar-me com a mais insidiosa saudade
e esquecimento,
como me povoou a vida... a tua ausência.

Dir-se-ia que a morte é soberana
e sem igual... mas nada nos iguala mais,
nem nos torna mais
humanos; só assim
nos recordamos mutuamente:
somos matéria mesma e propósito...
Prossigo por mim mesmo
nesta distância que nos faz tão dispersos
e sem rumo
e aguardo pelo dia em que o tempo nos abandonará.

Até então,
posso apenas dizer-te o que os meus olhos
sentem ao reencontrar-te sob o manto
de espera no qual te envolves,
como o ocaso envolve o dia
que não se sabe findo,
mas,
em tua casa,
eles ainda não são bem-vindos.
Feira de Santana, 2-10 de novembro de 2006.


III

OS BENS DE SANGUE, HEREDITARIEDADE
E OUTROS ATAVISMOS:
UMA ELEGIA EM BUSCA DO TÚMULO DE MEU PAI,
AMARÍLIO DE SOUZA DUQUE.


De nossa mente lavamos o ouro como de nossa alma um dia os erros
se lavarão na pia da penitência. E filhos netos bisnetos
tataranetos despojados dos bens mais sólidos e rutilantes portanto os mais completos
irão tomando pouco a pouco desapego de toda fortuna
e concentrando seu fervor numa riqueza só, abstrata e una.


CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

[Improviso]

– Quando soube de ti,
já eras morto;
nem nunca tive em mim
palavra tua
que não me fora dada
de outra boca;
vives em mim como os
Santos sobre as abóbadas
de ouro
nestes antigos templos,
onde o amor
é demais para tão
simples lembrança
ou mera construção
de fantasia,
mas reconheço em mim
a trajetória
secular, a herança
de honra e sangue,
traçada muito antes
desta ausência
tão certa quanto frágil
e indelével...
mesmo sem nunca ter
te visitado
os ossos,
ou
o teu rosto
nos retratos.

Candeias, 25 de dezembro de 2006.

O CACHO PERDIDO DE TEU CORPO
VARIAÇÃO SOBRE UM TEMA DE PABLO NERUDA:
SONETO XCIII – UMA PARÁFRASE MINHA.


à minha sempre, Lucifrance Castro,
por não ter outra razão para amá-la senão amá-la.




Así establecidas mis razones de amor te entrego esta centuria:
sonetos de madera que sólo se levantaron porque tú les diste vida.


PABLO NERUDA

[Tema]

Si alguna vez tu pecho se detiene,
si algo deja de andar ardiendo por tus venas,
si tu voz en tu boca se va sin ser palabra,
si tus manos se olvidan de volar y se duermen,

Matilde, amor, deja tus labios entreabiertos
porque ese último beso debe durar conmigo,
debe quedar inmóvil para siempre en tu boca
para que así también me acompañe en mi muerte.

Me moriré besando tu loca boca fría,
abrazando el racimo perdido de tu cuerpo,
y buscando la luz de tus ojos cerrados.

Y así cuando la tierra reciba nuestro abrazo
iremos confundidos en una sola muerte
a vivir para siempre la eternidad de un beso.

[Sonetos gêmeos – variação em tom menor ]



Se alguma vez teu peito se detém,

se algo deixa de arder em tuas veias,
se a tua voz se esvai sem ser palavra,
se tuas mãos, no delírio, adormecem,

Amor, deixa teus lábios entreabertos,

porque este beijo durará comigo...
ficará para sempre em tua boca,

e me acompanhará também na morte.

Morrerei nesta louca boca fria,
junto ao cacho perdido de teu corpo,
buscando a luz de teus serenos olhos.

Assim, receba a terra o nosso abraço,
e, confundidos numa mesma morte,
viver, num beijo, a Eternidade, mas...

[Em tom maior]

...antes que esse torpor de nós se encante
busquemos, Minha Amada, a cor ausente
de nossa vida em chamas, a roubar da dor
seu território... quantas coisas puras

se farão tão longínquas e sombrias,
qual teus olhos fechados a esta luz
a eles consagrada, Alma Minha,
beija-me, antes que desabitemos

a humana parte desta terra fria,
para sermos um só entre os silêncios
do barro, dos insetos... das raízes.

Permita-me dizer-te: \'Eu te amo\',
para que a treva que roubou teu sonho
não arranque de mim a tua essência.

[Coda]

– \'Amado Meu, há muito tempo, a terra,
ausente de cuidados, nos convoca;
Amor Meu, eu padeço de vontade
igual a erva que se sabe chão

e esparge pela terra o seu verde
dicernimento sob os pés dos homens...
a vida minha que te entrego, dê-a
de igual maneira ao vento d\'outros tempos;

concede-me somente amar-te agora,
pois nada conhecemos de um instante
que não se faça em outro que nos chega.

Eu quis o teu amor mais do que tudo...
e se o tive inteiro e sem medida
é por que sempre soube ser-me tua\'.

Candeias, 18 de março de 2007.

ELEGIA & ODE
ou GRANDE POLONAISE BRILHANTE
PRÉCEDÉE D\' UN ANDANTE SPIANATO
IN E b MENOR PARA PIANO E CLARINETE


para meu amigo, Cremilton Suzart, morto...
... ao pequeno Eduardo Leão, nascido.


...e há de ser tua ciência
uma tão íntima conexão de ti mesmo e de tua existência,
que ninguém suspeitará nada. E o teu primeiro segredo
seja antes de alegria subterrânea que de soturno medo...
É preciso criar de novo... Reinventar nagôs e latinos,
e as mais severas inscrições, e quantos ensinamentos e modelos mais finos,
de tal maneira a vida nos excede e temos de enfrentá-la com poderosos recursos.


CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

I

[ INTRODUÇÃO ]

Andante spianato



Era, talvez, a noite [ e sua indizível chaga ],
como a chama escondida em cada acha;

era, talvez, a dor nestes telhados mortos
a abrigar sobre si estes estranhos corpos...

Era, talvez, a ânsia de se estar a aqui
quando se desconhece o que há de vir...

Certamente não era o que nos faz sofrer,
mas esta inútil idéia do que é viver

de nada nos servirá além do assombro
de trazer a existência nossa sobre os ombros

– o véu de rubras rendas sobre os olhos puros –
e o nosso agudo olhar por entre os dias escuros.

Era tão clara a noite a alinhavar de prata
a sombra esguia que envolve a vida e se ata

ao rosto triste de alguém que volve o rosto
e simplesmente passa... mas nos fica o rosto,

como uma testemunha viva da memória:
mero esplendor da Ausência... e de sua fúria.

E sempre em nosso amor a noite irrompe mágica
como para conter a lembrança nostálgica

de um tempo onde as coisas se perdiam,... todas.
E as coisas se permitiam ser sempre outras,

Como a brisa macia que irrompe a alvorada
que outrora povoou a noite... e os seus nadas.

Era um tempo onde as coisas se perdiam – todas.

II

[ INTERLÚDIO ]

Allegretto affetuoso ma non troppo, quasi Andantino


Como aqueles que, em vão, trazem consigo
a foto desbotada de seus mortos,
assim, nós carregamos, sobre os ossos,
a lembrança feliz de um sonho antigo.

É assim que, em silêncio, conduzimos
um amigo ao horror dos precipícios,
para então conhecer o cruel ofício
que a terra presta aos seres vivos,
mas

quando Cremilton povoou a sua cova,
qual um machado ferindo novas achas,
era como sentir uma renova,

um sopro da existência em meio à morte:
– a certeza da dor no fim da marcha...
– a crença firme em uma outra sorte...

III

[ POLONAISE ]

Allegro con fuoco – Vivace


Acorda, Eduardo, infante, porque tudo passa...
e é preciso aceitar a vida e tudo o mais
que o tempo e a morte reduzirão à fumaça.

Acorda, Eduardo, infante, e deixa para traz
o teu início e o teu refúgio – não lamente,
no entanto, à porta da saída, a luz fugaz

que te acompanhará por toda a vida; sente
o sopro do Divino te preencher e levas,
pelos caminhos do existir, estas sementes

do porvir que trazemos ao nascer; te atrevas
contra as pequenas coisas desta vida e faz
de teus dias uma lição de luz e trevas,

para aprender que a mais pura beleza jaz
em meio às sombras da incerteza e da agonia.
Acorda, Eduardo, infante, e, vai mais e mais

preenchendo, em cor a tela nua de teus dias
com o chiaroscuro que levou Vermeer ao olhar
que se confunde à pérola e à luz esguia

que vai preenchendo a sala e percorrendo o ar
e revelando a face de uma mulher tão
bela quanto o mistério que sustém o seu olhar.

Acorda, Eduardo, infante, para a solidão
que, silenciosamente, invade as auroras,
levando para cada homem sua porção

de existência que, pouco a pouco, e sem demora,
há de se consumir em tempo e em esperança,
porque assim aprendemos o valor das horas

que resumem os nossos dias, pobre criança,
onde a vida começa e sempre recomeça
sendo outra vez a mesma coisa; e nesta andança

na qual tu te dedicas com fervor [ mas essa
não é o maior valor da vida ], levas
uma certeza: para a vida não há pressa,

e sim, vivência; entre os musgos, ou nas ervas,
ou nos frutos maduros dos pomares, nas
encantações do dia ou no fulgor das trevas,

há de saber o quão simplória é a vida e as
estradas que se fundem dentro dela, mas,
cuidado, não há nada em suas formas tão raras

[ quanto simples ] que não tragam boas e más
verdades, como o espelho a devolver teu rosto
antecipado pelo tempo e pelas chagas

que a vida te abrirá um dia de sol-posto
em sol-posto, porque a vida é assim:
algo que de si mesmo recomeça outro.

Acorda, Eduardo, infante, e aprendas, enfim,
e o quanto antes, a suar no corpo a alma
sofrida de tua terra e de teu sangue; sim,

deves aprender logo, porém, muita calma,
para que o exercício de tua caminhada não seja
um fardo sobre os teus ombros; calma

pequenino Eduardo, ainda é madrugada,
e antes que o longo entardecer do existir
enegreça esta vida que nasceu calada,

grite, Eduardo, grite para que o porvir
não te amedronte com a operação da vida,
grite pra que, no final, tu possas rir.

Ah, pequeno Eduardo, a existência é lida,
trabalho que se multiplica de passagem
em passagem de cada dia de tua vida;

de tua vida que agora me serve de imagem
para compor este poema tão contrário
ao que sinto, mas verdadeiro em sua linguagem,

em seu sentido... e, mesmo assim, desnecessário
para ti, pequenino coração tão belo,
qual o sino que não ouvirei no campanário

quando este para mim tocar como um martelo
ao fim do veredicto, à hora da amargura,
ou do delírio... e, diante deste anelo,

do mistério maior da vida, da mais pura
verdade, naquele momento revelada,
hei de sentir [ em mim ] a alma tão segura

quanto fria, qual o corpo onde, a alma, embriagada
outrora, povoava com seu próprio ar
e, agora, se nutre de seu próprio nada.

Acorda, Eduardo, pois já é hora de lutar;
é preciso vencer a luz agonizante
da chegada, e, enfim, tomar o teu lugar

entre os palcos do mundo, para que o instante
em que nascestes permaneça vivo e puro;
para que, com fulgor, tu sigas adiante...

Vai, meu menino, vai vencendo estrada e muro
e encontrando, em meio às coisas, o teu valor;
é assim que se extrai a luz de um dia escuro;

é assim que um sorriso surge em meio à dor...
Acorda, Eduardo, pois a vida em si se imbrica,
tal João Cabral versificou sem nenhum horror:

é uma fábrica que a si mesma se fabrica.

Feira de Santana/ Candeias/ Feira de Santana – de março a julho de 2006.



Biografía:
Silvério Duque


Nascido em Março de 1978, graduado em Letras pela UEFS, ajudou a fundar e integrou o grupo de declamação Os Bocas do Inferno, além de coordenar a Escola de Música da Sociedade Filarmônica Euterpe Feirense e é colunista da Revista Poesia&Afins.

Publicou \'O crânio dos peixes\' [Edições MAC/2002] e \'Baladas e outros aportes de viagem\' [Edições Pirapuama Ltda./2006]. Seu mais novo livro \'Ciranda de sombras\' está no prelo.

poetasilverioduque@ig.com.br

 

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