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Aurelio Aquino de Gusmo
Nacionalidad:
Brasil
E-mail:
Biografia
passagem democrtica e nem tanto

primeiro
a ordem
tece a circunstncia
e se instala no peito
como lembrana
no que se queira
demonstr-la
como exerccio
mas que se a tenha
ao redor do prprio umbigo
rvores, ento,
sero indcios
de que uma floresta
no resiste
a qualquer contradita
e os restos da manh
sero manhs
e nunca posaro
de tarde
pelos raciocnios

primeiro
a ordem
comanda o peito
como uma desdita
a que se estivesse submetido
desde a prpria vida
manhs, ento,
sero ressacas
de uma noite frugal
e incompreendida

primeiro
a ordem
estabelece-se
como uma agricultura
em que no a messe
rvores, ento,
sero a finalidade
de plantas costumeiras
e inconsumveis
o homem, sem vo,
restringe-se a ser
como lhe so.

primeiro
a ordem
afoga o pnico
e diz-se razovel
e vivida
rvore, ento,
ser paisagem
por que se teimou
em quer-la viva.

primeiro
a ordem
se sacraliza
e no altar do peito
perdura
com a mesma textura
de uma tristeza intangvel

primeiro
a ordem
realiza-se
numa matemtica
que nem se diga.
rvores, ento,
sero usinas
a construir engenho
que as oprima.
o homem
seno
ser apenas invlucro
que a contenha.

primeiro
a ordem
atualiza o gesto de sangue
em veias e vias
que a atinja.
rvores, ento,
sero bandeiras
de esmagar o tempo
pela vida inteira.
o homem
a desoras
em vo constrange
a norma.

primeiro
a ordem
anuncia-se
com um qu
de liberdade travestida.
rvores, ento,
sero da vida
o avesso
do que se sentia

a ordem
finalmente
consome
a obedincia
e a desordem
norma
do homem,
do futuro,
da alegria.

odes filosficas e ditirambos desconexos

I

o princpio
no inicia
apenas esquece em si
o que havia
e no sendo
como se permitia
construindo a descontruo
do dia.

e no por s-lo
assim avesso
que trai o jeito
de ser comeo
mas por se ter a prumo
em desafio
ao eximir-se dos fins
por que se cria.

II

o princpio
um fim em vo
resta-lhe no tempo
um inteiro no
mas d-se a futuros
com a mesma simetria
com que a noite inventa
de ser dia.

III

o princpio
no resposta
antes se tem
como pergunta
de todas as portas
indaga
quando
o que no sendo
na alma
e resta
no espao
como adaga
que nem se dissesse lmina
de cortar a fala

o princpio
medra
como uma iluso
da pedra
um rastro manso
da matria

IV

o princpio
tem-se a custo
como desrazo
do discurso
posto em palavras
no transita
uma verdade que se quer
absoluta
-lhe ntimo
o curso
dos melhores rios
do uso
e acostuma-se
corrente
como barco definitivo
que aparenta
singrar com jeito
o peito do infinito.

Afeto

I

a sntese
discursa a lgica
meu afeto tanto
e dzima peridica
no trai a desfaatez
de algarismos montonos
mas a preciso definida
em todos os meus ossos
no tem a perspiccia
das matemticas lides
mas , no exerccio de mim,
um grito que domino.

II

meu afeto
incuo
se no a trama do peito
nos meus ossos

meu afeto
h de ser unnime
como a fora das formigas
e a placidez dos elefantes

meu afeto
est para a vida
na mesma proporo
em que lida.

meu afeto
o exerccio
da exata compreenso
do que eu no digo,

Balada garonete do Hotel Sputnik

no ventre do teu olhar
existe o mesmo desatino
com que se lana o Rio Neva
na esteira do seu destino.

tem a preguia teu olhar
de um dia estatizado
e a nervura dos confortos
com que a vida, s vezes, h de

tem do mar as ondas do Bltico
e a desfaatez do que nem digo
e se cabe, assim, em palavras
descabe das coisas que nem sinto

tem a exata compostura
de uma dzima infinda
que nunca comea nos teus olhos
e que nunca em ns termina.

Como ter corao

Como ter corao
se 800 milhes
no so ?
como ser pacfico
se a paz
apenas um indcio ?
como no ser infinito
se a paz inteira
ainda no cabe em nosso grito ?

Inverto

inverto.
sou aquilo
que nem me conheo.

invento.
sou o contrrio
do meu medo.

intento.
ouso me amar
como me invento.

na minha morte

na minha morte
estarei presente
mesmo que no a tenha
compreendido
habitarei o fogo
em carne e ossos
e desabitarei a vida
o melhor que possa.

minha morte
no existe
os homens que teimam
em diz-la triste

na minha morte
a vida estar presente.
a minha e toda outra
que leve de mim
a compreenso do tarde
e a no compreenso do que se sente.

na minha morte
desarquiteto o limite
deixo de ser s homem
adredemente restrito
e caibo na rebelio
de todos os meus sentidos
aqueles que trouxe mo
e todos os outros que nem tive

na minha morte
me definitivo
passo a ser um ego coletivo.

Ode adverbial ao orgulho

a viso
insta-me
a ver meu filho como nauta
navegador de mares que no posso
consumidor de asas
que me faltam.

e a emoo, de resto,
um grande porre de adrenalina
pelo crebro.

Ode ao no-ser

minha paixo no permite
que meu horizonte seja um dia
posto em cabides
minha paixo no admite
que o inverso de mim
seja somente o que no tive
minha paixo no se permite
ser um amor em tese
impunemente indeciso
minha paixo no se omite
em ser da revoluo
at que deixe de ser triste.

Ode aos meus possveis adversrios

ganhaste o jogo
em qualquer circunstncia
no concorro

perco,
at adredemente,
pra me guardar em lutas
que a alegria me consente.

Ode circunstancial e palestina

balas no desenham a tarde
balas apenas descrevem
a indignidade.
balas no so balas
apenas indicam
uma morte
desnecessria.

o menino
envolto em balas
um dedo em riste
na cara dos canalhas

o menino
envolto em medos
um tempo
de segredos.

o menino
envolto em morte
a descontruo
de sua sorte.

Ode eclesial

I

na nave
deus
barco
de tanger a vida.

o homem
em ondas
mar que no se teve
e que apenas transita
entre um rasgo de esperana
e aquilo que nem se cogita.

deus e homem
apenas se contemplam
um esculpido em perdas
o outro em pacincia

II

em orao
impune e mansamente
o homem constri andaimes
pela alma das gentes

deus em si
constri-se e se constata
como um verbo intransitivo
de estranha matemtica

e deixa-se mnimo
nessa ntima sintaxe
que lhe conjuga to incerto
em verbos que nem prolata.

III

na nave
a salvao uma bandeira
de espalhar pretextos
pela noite brasileira
conforma-se norma
decretada a priori
de que a paz apenas um susto
que se reteve na memria.

homem,
deus tanto
que teima em ser altar
imune confiana.

na nave, entretanto,
deus e o homem escondem de si
qualquer desesperana.

poema ao suicida

o salto
esconde
o homem da cidade

ao morrer -
quem sabe?
o homem pula a si
e a verdade

incoletivamente
ele desarquiteta
o salto, a vida e a tarde

quando idia

quando idia,
j to velha
a matria,
saio de mim
em aventura
e chego a dizer-me verbo
de estranha criatura
idia que nem seja tanta
como o msculo
que sustenta a garganta
e me prope aes
de esperana.

quando matria,
j to gasta
a idia,
ouso dizer do mundo
a razo que meu brao
carrega verbos e fardos
e trunca a rota da fala
com a mesma simplicidade
com que a esperana se deita
na paz de quem nem sabe.

quero meu amor mo

quero meu amor mo
como o gesto mais frugal
e comete-lo impunemente
seja no cio ou em ofcio tal

que nunca se distinga
o que lhe sejas avesso
mas que se traga ao largo
de todo o meu medo

e que lhe sinta a carne
e uma virtual saudade
porque me seja tanto e farto
pra distribu-lo vontade

quero meu amor provisrio
como a estrela mais precoce
que vive apenas da tarde
o limite da luz que no lhe guarde

e que lhe sinta as entranhas
como um discurso latente
que construa versos na praa
em gramticas que nem se consente

quero meu amor tedo
apesar de coletivo
e t-lo na exata proporo
de tudo que eu no digo

quero meu amor subjetivo
como os adeuses que no dei
e remo-lo pelo cho da tarde
na impreciso de tudo que no sei

quero meu amor no meu
mas que se faa variado
e que tenham em mim limite tanto
por tanto que se faa vasto

quero meu amor
sem ilimites
perfeitamente desatado
e que encontre pedras em seu leito
e que encontre leito em seus enfados

quero meu amor desesperado
na falta e na presena
farto pelo que de tanto
gasto pelo que de menos

sou

sou.
penso.
e divirjo de ser e pensar
constantemente:
Os medos me caem entre os dedos
de repente

sou
e sempre
a vida finge pensar
aquilo que nem se sente.

estou
impunemente
naquilo que nem sei
se sou to sempre.

Cartas da vida e brasileiros dramas

Carta I
Inteligncia do amor

no tenha a vontade
um mister to compulsrio
que no o de gerir o peito
e se furtar ao cio;

que convena o corao
dessa gerncia informe
mas que se preze infante
e que se entregue e chore;

que abastea o peito
de quereres mais amenos
alguma rosa profunda
algum urgente segredo;

que conspire furto
com a razo mais latente
mais que se queira interina
numa vida permanente;

no traia o corpo
alguma chaga imprecisa
que se derrame sem jeito
pelo bolso da camisa;

antes se queira frgil
nos exerccios da vida
e se desdobre em cachoeiras
em que se caiba impreciso;

e arquitete um abrao
que no lhe saiba conciso
no limite de suas carnes
e do tamanho do infinito;

no venha o espao
querer-se to limitado
que no comporte um amor
que caiba no teu abrao;

mas que se firme completo
nas lacunas que lhe formam
e se informe por certo
das colunas que suporta.

Carta II

a gente sempre morre
do tamanho da vida
e sobra em amores pacatos
pelo jeito da notcia

a gente sempre ama
do tamanho do abrao
e nem se sobra ileso
das marcas do que se acha.

Carta III

a noite
bia nos meus olhos
com a mesma textura
com que bia minha alma
pela rua

meu poema
no se acostuma
a ser verbo
que no se assuma
e se no se ala
a exerccios mais tticos
que bia tambm na noite
embrulhado no que acho.

a noite
bia nos meus olhos
no gesto mesmo
de uma lgrima
feliz que nem seja tanta
verbo que se queira gua

meu poema
no se escusa
de ser um verbo que sinto
e que me acusa
de t-lo assim inteiro
nas vrgulas que se

Carta IV

meu pas no obedece
a qualquer geografia

Carta V

a lgrima do riso
tem um jeito diferente
algo assim como um rio
que no tivesse corrente

Carta VI

de cada paixo
resta o desuso
uma preguia de amar
a longo curso

Ode definitiva a Reich

minha emoo
preside
a assemblia geral
do que eu no tive

minha razo
assume
todo e qualquer futuro
que me pune

hei de andar assim
incontinente
como se a vida no coubesse
naquilo que se sente

e sempre me permito
ainda insolvente
cobrar o que da vida
gasto assim impunemente.

meu corpo
o esforo
que minha alma
apresenta

Ode aos meus possveis

meus complexos
no os meo
melhor cab-los todos
no meu verso

e sempre os trago
algibeira
guardados inteis
s quartas-feiras

e mesmo que a noite
os entenda
deixo-os pela madrugada
pendurados numa alma
que me convenha

Determinao

Fica assim assente
ningum h de consumir
a solido da gente

pois de quer-la tal
como exerccio
melhor seria t-la em asas
como pssara notcia

fica assim assente
ningum h de fingir
o choro da gente

pois de t-lo avaro
no desvo dos olhos
melhor compreend-lo
como ineficcia do cio

fica assim assente
a gente sempre tudo
quando nada melhor
que ser presente,

Coplas desconformes ao redor da vida

no primeiro ato
expulso- me
gelatinoso e um
e quase a pulso

no primeiro ato
no me perteno
pois sou um eu to grande
que me esqueo

no primeiro ato
trago o mundo
na ponta dos dedos
e a no compreenso
de vos segredos

no primeiro ato
no estou sendo
como seria se fosse
j sofrendo

no primeiro ato
divirjo das borboletas
no me tenho em asas
mas em medos

no primeiro ato
lavro meu grito
na certido nica
do que sinto

no primeiro ato
no me caibo
como invlucro pertinaz
do que me acham

no primeiro ato
convoco- me ao mundo
com a percepo
de que s me iludo

no primeiro ato
estou tudo
embora nada me diga
como outro

no primeiro ato
despeo- me avulso
da qumica eficaz
dos teros

no primeiro ato
no me minto
verdade que nem seja tanta
e que pressinto

no primeiro ato
no me vivo
apenas me lano
ao simples infinito
no primeiro ato
ainda nem cao
o tamanho
dos meus passos

no primeiro ato
reservo- me
o direito de ser quase
o que no quero

no primeiro ato
posso o que no devo
e devo no poder
o que mereo

no primeiro ato
nem me meo
minha placenta
ainda o universo

no primeiro ato
minha carne
j notcia
de que ardo
no primeiro ato
sobro da me
como um susto
em que no caibo

no primeiro ato
minha me tarde
noite que j nem pressinto
na manh que h de

no primeiro ato
no tenho palavras
mas uma rpida iluso
de que me agrado

no primeiro ato
finda a dessemelhana
do que ainda pouco
e que me muito pelo quarto

no primeiro ato
no me canso
de atravessar o vau
dos rios que alcano

no primeiro ato
estou ntimo
e ltimo
e quase acho

no primeiro ato
nem me importa
a palidez do mundo
e as cores da revolta

no primeiro ato
estou concluso
remetidos os meus autos
barriga do mundo

no primeiro ato
naso
com a quase alegria
em que me ardo

no primeiro ato
me desconvoco da idade
sou o incio e o fim
do que me invade

Indagao adverbial do mar

gua em sono
quem te constrange
a no te dares por rio
mas um mangue?

rio em concordata
que compreenso teria
se te fizessem credor
de alguma alegria?

teu primado
em tudo rebenta
jeito de onda morena
que meu olhar
amanhecia
jogo de homem urgente
devedor da alegria
saldo de coisa que a gente
teima em dizer
da valentia

teu primado
d-me a compreender os olhos
como instrumento
de te fazer serventia
como flecha
que destrava o arco
nas manhs sem garantia

teu primado
est presente
em cada onda
que cometes
num desfastio freqente

o mar
nem bem parece
os rios que no se cruzam
das mgoas todas da gente

no teu cartrio de guas
nem lavras a certido
de que te compreendem vasto
apesar de tanto no

gua que nem comentas
o que de slido urdistes
quando em meu peito dissestes
o teu jeito de triste
quase de alguidar
quase de loua
que me truncasse a razo
no vo da boca

meu corpo
no intenta
engenho maior
que me contenha
morte que me seja tanta
pequena aluso ao meu Pas

lavro a esperana
com a mesma magnitude
com que a chuva cria
os mares que no pude
e se no me estranho
que me permito
ser um impatriota
com todas as naes em riste.

muito pouco
ser brasileiro
quando se vai pela alma
o mundo inteiro.

Em torno do meu pas

na favela
as balas vo
aquelas do corao
e as da guerra

na favela
chora-se em dobro
as lgrimas de pedra
e as do choro

lquidas
as ltimas
so mares
em que se afoga
apenas a vida
nada mais

slidas
as de pedra
so os gritos de quem luta
melhor diz-las verbos
pela rua suja

na favela
o poema se escreve
com o sangue e a vontade
de quem deve

poema em dobro
retroativo
que teima em ser de pedra
apesar dos sentidos

na favela
a palavra medra
como o milho
semente que no plantada
pergunta que nem se diga

na favela
a morte habita
com intimidade
comedida
parente que nem seja ntima
da vida.
versos do sofrer

sofro de mim
quando entristeo
razo que nem seja tanta
pra que no me consinta

sofro de mim
quando me perco
dor que nem minha
e nunca esqueo

sofro de mim
inutilmente
nessa vontade intensa
de me ter ausente.

e me guardo em mim
constantemente
quando sofro assim
to de repente.

Do descaminho

Cachorros latem a noite
com a mesma similitude
com que a 'Soiuz' atravessa
a sua plenitude

cachorros so naves
que no quiseram o cosmos
e ancoraram tristonhos
em seus absurdos

e a Soiuz, assim perdida
nem sabe que minha paz
sua lida.

Pequena digresso do ilimite

S se indivduo
quando coletivo
pois preciso ser dito
o homem vive sempre
embrulhado no infinito
pois preciso ser vasto
pra se ser limitado
e preciso ser nico
pra se ser vrio.

preciso levar em conta
que a matemtica de mim
no espontnea
mas preciso assim mesmo
ter vontade na substncia.
preciso estar perto
pra se ter distncia
preciso ser humano
pra se ter esperana.

Vagar noturno

no fundo do copo
dramas e beijos
a angstia cabe inteira
um copo de cerveja
e quem no se mede
pela tristeza que engole
inventa um riso pela boca
num teatro enorme.
cada um cada tudo
engasgado e entranado
nas asperezas do mundo.
o olho escapa
das bordas do copo
e palmilha risos e seios
numa distncia inslita
e o corpo consome a noite
e trama a madrugada
com a aguda extenso do tdio
que se escreve na cara.
em todos o bar agita
palavras de ordem de uma alegria
que permanece inconsumvel.
Poema de circunstncia

no meio dos passos
de acelerados vos
a metralhadora mede a vida
e nem se d conta
do soldado que lhe tem mo.
Ao redor da praa
no as prontides
mas uma lassido impune
que infringe raras vezes a razo
e o calor
amorna o corao
com a facilidade inequvoca
com que tange os pulmes.
Homens, sem saber que s-los,
os transeuntes arquivam a vida
nos desvos mais ntimos dos cabelos.

Ode ao calcanhar

hs de ter a brutalidade
e a delicadeza mais incauta
com que a vida fere, s vezes,
o peito urgente da ptria

no por seres balsa
que amolgas o desencontro
e te tens a tanto custo
na pauta dos teus passos
na escravatura do teu uso

mas antes por seres pssaro
da exatido dos msculos
que teimam a liberdade
apesar de tanto susto.

Carta de Moscou

sonolenta era a tarde
nos seus ramos mais intrusos
e a neve urdia escndalos
traspassando de frito meu discurso
e das asas do Tupolev
franzidas em exato equilbrio
pulsava meu corao aos gritos
na intimidade mais crua do infinito.
o hlito dos camaradas
vigia em risos to a prumo
que suas faces boiavam
num descaramento parente do futuro.

e do longo Tupolev
de que me vi assim despido
ressoou o vagido matemtico
dos sputniks que eu nunca havia tido.

Feitio

versos
os escrevo
como quem maneja a alma
na caneta
e de tudo tanto
que no se perceba
o msculo apenas retrico
que seja.

versos
os prolato
como uma grvida sentena
de qualquer tarde
guardada a proporo
do que nunca h de.

versos
os constato
na franja da noite
em que me ardo.

Pequena conciso da vida

a vez que nascer
quase tanto
que morrer

e desde viver
que no se finja
de prazer

o quanto morrer
da sempre luta
de nascer.

Do ofcio e das horas

cabe ao poeta
engolir as madrugadas
e amanhecer o verbo
no peito das palavras
cabe ao poeta
a estranha lida
de construir andaimes
nos sonhos que exercita
cabe ao poeta
insurgir a vida
e praticar rebelies
sob medida
cabe ao poeta
alinhavar o tempo
e caminha pela calada
impunemente
cabe ao poeta
ser quase marinheiro
e navegar as ncoras gerais
que se cravam no seu peito
cabe ao poeta
promover os sbados
condio de domingos
e distribuir as horas de riso
como gerente dos sentidos
cabe ao poeta
no se pentear
a no ser em espelho
que apenas comente sua face
cabe ao poeta
abster-se da morte tarde
e nunca morrer sem verbo
que lhe resguarde
cabe ao poeta
os infartos
no os do corpo
mas os da alma
cabe ao poeta
todo discurso
que em no sendo palavra
tenha lgica mais justa
cabe ao poeta
guardar a outra face
e tanger a noite do mundo
com seu grito de liberdade.

Vaca pacincia

do curral
nem se admite
que contenha apenas bois
postos em cabide
assim tranado
de pau a pique
o curral antes vitrine
de vacum precipcio
que nem se sabe de boi
e nem ao menos legtimo.
mas na reta do olho
talvez a contingncia
leve a se ver apenas bois
bocejando a inconscincia.

Versos ao sol sustenido menor

assim composto
tens na pauta
a mesma compleio
da madrugada

e te revelas
e te resvalas
como uma gara
pela alma
que nem quisesse ser pssaro
ou fala

mas que caasse a mim
desordenado
eu transposto em som
em estranha matemtica
que me pregasse na pauta
de todas as minhas mgoas.

Baa da Traio

a baa
amanha a praia
com um gesto
de navalha
cospe a areia
j prestante luta
como se fora gara pacincia
da desculpa
fingi-se mar
de vasta cabeleira
renhidos os ombros das ondas
pela tarde inteira

a baa
bebe o cho
como um bilhete compassado
de rebelio
e mansa
arranha o vo
que mais se presta a incalculvel
que a qualquer frao

a baa
quase um leo
que tecesse na juba
as tranas da solido.

Do que transito

transeunte da vida
me desfalca
a compreenso
do que tarde

transeunte da morte
no me vejo
como tanta inconcluso
do que cedo

transeunte do nada
melhor me dera
ser um pouco do trnsito
da terra.

Desejo

no meio do desejo
finjo que medo
a vontade de brincar
com meu segredo

no meio do medo
finjo que segredo
a clara escurido
do meu espelho

no meio do segredo
finjo que medo
a vontade de inventar
um outro espelho

no meio do espelho
meu segredo em vo
um desejo de ter medo
de outros eus que j nem so

e cuspo esse tempo
pelo vo dos dedos
como um retrato de mim
em que me desabito e me perco

Elegia prosaica ao caldo-de-cana com po doce

o rio verde
quase uma alegria
que amolga o instinto
na garganta
e como porto
tange a lngua
como as mulheres tangiam
as panelas gerais
da minha infncia

po se queira po
muito menos por ser pasto
mas por trazer mo
o gosto transeunte
dos laicos canaviais
da sem razo

e mesmo pasto
seja condio
pra se ter o peito livre
grvido da nao

Em pssara conscincia

de blide
no se avoque
por pssaro se ter
mais a molde
enseje continncia
quando infinita
e se preste mais a pulso
quando incontida
tenha no jeito
a conciso e a urgncia
de um sonho gravado
no vo da pacincia
do tempo
no se provoque
a ser apenas frao
que me console
que seja blide
e que no seja
engastada na convenincia
de toda a natureza.
poema zoolgico

o urso polar
quase um grito
arquivado no vo
de todo riso

assim em nado
pssara atitude
e traio adrede
ao que tem de paquiderme

mais que urso uso
de retinas provisrias
que chega a cobrir a mgoa
que drapeja na memria.

Ode renitncia

por que fugir
quando ainda a hora
pouca pra ser tarde
se ainda hoje mesmo cabe
todo centmetro do corao?

h um tempo
de rever as empreitadas
e consumir como tudo
o que quase nada.

Indagao adverbial do mar

gua em sono
quem te constrange
a no te dares rio
mesmo mangue?

rio em concordata
que compreenso terias
se te tivessem credor
de alguma alegria?

teu primado
em tudo rebenta
jeito de onda morena
que meu olhar amanhecia
jogo de homem urgente
devedor da monotonia
saldo de coisa que a gente
teima em dizer
da valentia.

teu primado
d-me a compreender os olhos
como instrumento
de te fazer serventia
como flecha
que destrava o arco
nas manhs sem garantia

teu primado
est presente
em cada onda
que cometes
num desfastio to freqente

o mar
nem bem parece
os rios que no se cruzam
das mgoas todas da gente

no te cartrio de guas
nem lavras a certido
de que te compreendem vasto
apesar de tanto no

gua nem comentas
o que de slido urdiste
quando em meu peito dissestes
tua onda
teu jeito de alguidar
as tuas louas
verbo que me tranasse a razo
no vo da boca.

mar que nem te queria
como as guas que invento
dos meus olhos, dos meus dias.

Certido

averbo-me de livre
quando meu verso exige
verdade que nem seja tanta
como os limites que trago
na garganta
e que me quero exato
quando nem me caibo
corpo que nem cobre o tamanho
daquilo em que me acho

averbo-me de incauto
quando alcano meu limite
roupa que nem me veste
verbo que nem me disse
e me quero destroado
em ruas em que nem me tive
verdade que nem queira tanto
avalizar os meu limites

averbo-me de nauta
nos cosmos em que nem habito
janelas que nem se fecham
com a presena do infinito
e me tenho em medidas
que nem conheo
e me caibo em propores
em que nem tropeo

averbo-me de livre
quando nem madrugada
ainda a razo
por que me tive
e me compreendo a meias
rendeiro de almas
que nem gasto de repente
como um saldo que me caiba

averbo-me de triste
nas manhs sem mim
em que a palavra arquiteta
tudo que no se apresta
a me dizer assim

averbo-me de suspeito
quando a culpa tange
a franja do medo
que me engane

averbo-me de tanto
quando ainda pude
trazer na garganta
os verbos que me ajudem.

Pequena autocrtica

minhas culpas
trago-as todas
em desculpas
quando melhor no fora t-las
como justas

minhas culpas
levo-as todas
em desuso
quando melhor no fora viv-las
como sustos.

Poema

poetas no sero presidentes
falta-lhes a mania
de construir presentes

poetas no sero presidentes
porque suas manhs
so noites inconseqentes.

Verbo e textura

palavras no so entes
palavras so, de repente,
nos barcos e portos da gente
um mar que apenas se pressente
e que nunca se teima em atravessar

palavras so fatos diferentes
resvalam na alma e, geralmente,
escorrem da garganta impunemente
como se fossem cachoeiras do presente
que o futuro teima em discordar

palavras so fardos inconseqentes
que jazem na lngua adredemente
como um destino que se consente
em quase nunca demonstrar

palavras tm da memria
a mesma compreenso
de um no ser atravessado
com jeito de ser em vo

palavras tm da vida
quando postas em cabides
a teimosia em ficar perdidas
onde nunca se admitam

palavras pesam verbos
que nem viver se consintam
coisa de ser tudo e nada
descaminhos das estradas
ondas do mar e margaridas

palavras so roados
de um aceiro incontrolado
que se limitam com os cus
e mares desgovernados.

Pequena ode coerncia

Fica o dito como dito
mas que dize-lo tanto
seja preciso
no apenas na balsa das palavras
mas no dorso objetivo do ofcio.

Fica o dito como dito
mas que faze-lo tanto
seja infinito
enquanto perdure uma roseira amarga
pendurada no vo do nosso grito.
odes psicolgicas

I

o desejo
instaura
artifcios
pela alma

flui,
e, farpa,
rasgadamente
sobressalta

material
nem se consente
andaime do pensar
impunemente

o desejo
exara
certides do tempo
e da carne

intui
adredemente
aquilo que nem se tem
e cala

o desejo
me repe em atas
que nem escrevo
nas palavras

urde
uma vontade
com a mesma compleio
da liberdade

trai um gesto
que nem se cabe
na finitude das mos
porque h de

II

do desejo
tem-se a impresso
que arde

do desejo
tem-se a iluso
de um alarde

do desejo
tenho a compreenso
de que sou sempre tarde

III

desejo
quando singro a razo
do que no digo

desejo
quando pareo
ser um tanto eu
do meu avesso

desejo, enfim
quando desejo
ser diverso
nas curvas
em que transcendo.

Versos do sofrer

a dor
urge que a tenha sempre mo
quando em vontade
se arquitete a desnecessidade
da razo

e sofro de mim
quando entristeo
coisa que no seja tal
e que nem seja tanto
quanto parea

e consumo a mgoa
como tentativa
de me dizer no eu
desconstruindo a vida

sofro
com a compleio e o jeito
de restar de mim
aquilo que no devo

e no que no devo
h sempre o medo
de no me sobrar no sonho
que consumo
e em que no creio

sofro
como a circunstncia
que sofre de mim
a perseverana

e no que no creio
j me permito
ter da razo
algum indcio triste

tarde

tarde
corro o risco
de viver to cedo
e deixo a vida
desamanhecer os meus segredos

noite
ainda cedo
pra inventar as manhs
de todos os meus medos.

De Olinda em carnaval de tudo

At parece que o frevo
Inventando a emoo
Escreve assim
Pelas pernas
Um infinito no cho

E assim descendo a Ribeira
Ladeiras no corao
Olinda toda me chama
Em cada ngulo de casa
Em cada palma de mo

As pernas fogem pro peito
ensaiam a rebelio
Dos sons que o ouvido engole
Com a exata compreenso
De que Olinda no cidade
apenas uma saudade
Misturada com a razo

As gentes pulam seus jeitos
Com a mesma sofreguido
Com que o

 

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