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Cicero Melo do Nascimento
Nacionalidad:
Brasil
E-mail:
Biografia
DAS NAVEGAES DO NOVO

A Luiz Carlos Cavalcanti

I

Faamo-nos ao mar, aventureiros,
Que muitos so os cabos a vergar,
E a vida renovada de janeiros
No carece de portos a arribar,
Porque sendo das horas marinheiros,
Sempre reinventando nosso mar,
Multipliquemos a vela solitria,
Que a vida s vigora quando vria.

II

Renascendo das milhas percorridas,
Sempre $3>morfose, sempre nave,
Sejamos das correntes incontidas
Que modulam o peixe em tica ave,
Que fazem vivas trilhas pressentidas,
Do mistrio do mar forjando a chave.
Contornemos, marujos, vis abrolhos,
Redescobrindo o mundo em novos olhos.

III

Timoneiros de chusma inane, enerve,
Descrente no bailar dos dias vos,
Sejamo-lhes o sopro, ativa verve,
Que deso va de vida as mortas mos,
Aquele que no corpo frgil ferve
Revestindo de sins os nulos nos.
Faamos do cansado nauta em dor
As rotas desvendar, navegador.

IV

No navegar jamais rota abatida,
Mas sempre aquela em feto, indesvendada;
Aquela que buscas vem tecida
No profundo do ser, imaculada;
Aquela no casulo, ova contida,
Semente do amanh, desabrochada.
Decifremos os dias no seu ovo,
Que a vida se constri de rumo novo.

V

Sempre em febre e furor a cada instante,
Sempre redefinindo o itinerrio.
Em lugar diferente e bem distante
A nau esteja em cada aniversrio,
Navegando sem bssola ou sextante,
Sem astrolbios ou mapa ou calendrio.
Sorvamos do vagar toda ventura:
Que s nos baste o mar por sepultura.

VI

Que de vagar a barba se embranquea
E os revoltos cabelos virem cs;
Importa-nos o azul sob re a cabea,
O vento desvestindo as trilhas vs.
Que a mente solta ao lu se fortalea,
Permute lassas tarde por manhs.
Que sendo estas do nauta as ss cincias:
No nos cubram os cus de condolncias.

VII

Que a mente se arquitete em mveis ilhas,
Fecunde-lhes a forma em geometria,
Desenhe-lhes a fauna, as maravilhas,
A flora matizada em melodia,
Os crregos mutantes, livres trilhas,
Paisagem aleatria que procria.
Que se desfaz a vida no profundo,
Se o nauta tem a nave fixa ao mundo.

VIII

Que no se busque o nauta em recompensas,
Nem em seu desbravar rude aventura,
Que o sempre navegar de rotas tensas
Perfaz-lhe a honra mor que s perdura,
Iluminando a mente s noites densas,
Levando sua luz trilha escura.
Posto que de maior que seja o feito,
Procura sempre o vulgo a ver defeito.

IX

No so rver dos relgios o destino
De decantar o tempo eternamente,
Mas desenhar no peito o rubro sino,
Aquele que desperta a chama gente
Cigana, em passo errante e desatino
De caminhar estrada to clemente,
Pois, se vivemos nave solta ao lu,
Que nos bastem os vivos sob o cu.

X

Mas que nunca nos faltem sentimentos
De amar sem pejo, pena ou compaixo.
S nos enriquecemos dos momentos
Que nossa nau desdobra o Cabo No
Do viver, que, com todos seus tormentos,
Insano nos arrasta em aluvio.
Sejamos sempre sol de vria cor,
Contudo, em nosso mar, navegador.

NETNIA

A sedio do mar me traz as seivas
Dessa cano de azul e de salsugem.
Aqui, as garras do vento, glaucas, rugem
Em venreo motim, salgadas eivas.

A seduo do mar me d sustento
Na ternura dos olhos renascidos.
luxria de azul, fluidas libidos!
aquticas vulvas, cios de vento!

talssico leito, equnea gua,
Em teu ventre fermento e forjo rotas
De lira ldica a te amar sem trguas!

mar, seduz-me o amargo dessas notas
De anil e sal, erotizada lgua
Do vo incandescente das gaivotas!

CANO DO BZIO

De onde o canto do bzio? De uma vida
Que lhe deixou em ritmo o pranto fundo?
Quem encantou o bzio foi um mundo
De sonhos de matriz senil, suicida?

Quem inventou no bzio, no profundo,
O canto secular que lhe engravida,
Se no foi peixe ou seres de outra ida
Era, nem deus, arcanjos, nem o imundo?

Que paixes destilaram deste pranto
De sempre morrer e ter-se nulo,
E danado a tecer em seu casulo,
Eternamente, o repetido canto?

Quem inventou no bzio a melodia
De mar e sonho, morte e fantasia?

RETORNANDO TACA

A n ave singra os sonhos nus do mrmore,
Cruzando a solido e sempre clere.
Carrega cuidadosa o nauta clebre,
E aquele transformado em ptrea rvore.

Um lutou, desdobrou a rota brbara
Dos dias que da vida exigem tmpera;
O outro, tecendo de ondas sua tmpora,
Transmudou-se de mundos, sempre mscara.

O primeiro se fez, de acasos, ntegro;
O segundo buscou, em rumos trpegos,
Desvendar o inefvel do seu ntimo.

Mas, ambos se perderam: mar adltero.
Hoje, mudo, acompanho, olhos sfregos,
Ulisses retornando ao mtrio tero.

PENLOPE

Retornando do mar que me emoldura,
Ancoro em teus segredos, cidadelas.
De desvelos me nutres, me aquartelas
Desnudado do nauta e de procura.

Eternamente desejada e pura,
Em ti repouso rotas, amaino velas.
Dos perigos dos mares me encastelas
Em tuas celas de amor e de ternura.
Maravilhas que, meiga, me compensas
Depois de navegar, aventureiro,
Ocasos aleatrios, vagas densas,

Retorno sempre ao cais do amor primeiro,
Para recomear, feridas pensas,
Outras navegaes, sempre janeiro.

CAVALGADA MARINHA

Armado te revolvo: ao mar retorno
Amarado de amar, domado e mrcio.
Afeitos a teus afetos ancoro rduo
A teu plago e ps: de amor transbordo.

Astrolbios de lbios, sculo-osco,
A teu corpo de potro louco parto;
Amado locupleto, enfesto farpo
Ardor no dorso norte do teu torso.

Almo contorno, corso colunado,
Avano, sagitrio, a teus segredos,
Arcanos de arcanjos do meu tato.

A rgia nau retorno, nrveo clima,
Alado a cavalgar em veia e velos
A curva dos teus gozos, rosa eqina.

A ESFINGE

Se no te sinto luz, onde a candura
Das palavras bem ditas, bem fo rmadas?
Nas minhas mos, por ora, vejo estradas
Em traados de cega agrimensura,

Se no te vivo em mim, vivo a loucura
Das palavras de amor incendiadas,
As taas da paixo dilaceradas
Na bacanal de sangue e de ternura.

Amor, amado amor, amargo amor,
Como dilacerar os teus mistrios,
Que me transluzem sonhos em torpor?

muito tarde, meu amor impuro.
O sol j ilumina os cemitrios.
Voltarei amanh, me cr, eu juro.

POEMAS DA ESCURIDO
[Edies Bagao, 2001]

A TERCEIRA PELE

Procuro a carne da palavra adusta,
Aquela que insorvida se consome,
Aquela cujo selo cai fronte
Das palavras irms e se incrusta
Nas pedras da razo, no verbo nmade,
No dedilhar de febres e de angstias,
No delrio senil da sombra rstica,
Longa noite de sal e medo insone.
Procuro a carne da palavra augusta,
Aquela que se eleve e se prolongue
Em mistrio sutil, sedosa e onde
Repouse mar, celebrao e bssola.
Procuro a carne da palavra morta
Que se aviva, me bate e me conforta.

DIRIO DE BORDO

Tinha dois sis e navegara leste
do limite de um sul onde pastara
um cavalo sem cor; mas dor e peste,
outro cavalo de algas lhe inundara
as febres das mos. Navegara norte,
as fronteiras das guas onde deitara
um mar sem meses, sem medida e morte,
e um demnio cego o transmudara
em doze cavalheiros, doze damas,
agora acomodados ante a mesa
erguida das espumas e de escamas
de um leito anterior, nunca sonhado.
No navegara oeste, a sombra presa,
no corredor do tempo acorrentado

OS AZUIS E AS FEBRES

Outra casa, porm, o transbordara
no desenho da mo, antigo instante,
que a voz cadente de cabala errante
ainda queima os vento s que inventara.
Tinha outro filho, mas, desova rara,
vinha do sonho escuro que dormia
as proezas do pai, e a noite erguia
um cais de medo e nunca o procriara.
Desenhara trs febres: dois azuis
e a linha dessecada sobre a vbora
de amor e morte se tocando nus.
A mo da sombra redesenha o porto,
o vestido do sol e sua ctara
de veneno e de mar vinoso e morto.

O VASO QUEBRADO

Tenho dentro de mim todas as mortes
e as lembranas em taas infinitas
se contorcem em sais e faces tortas,
entre sombras vinagres e vinditas.
As lembranas em laos se confortam
como anis absurdos e insalubres.
Sangra o corte na tela decomposta,
estilhaos de mnstruo e mtrios beres
Uma carga de morte em mim aborta
o dissoluto branco em pele negra
que, reflexo invisvel, se dissolve
sem consorte, sem vrtice, sem espelho,
na paisagem proscrita do pass ado,
no tambor de um mundo condenado.

O TAPETE DE SOMBRAS

Mais uma noite te fere e te casula
A outra noite que d e desampara,
Com mo de fel e nrvea navalhada,
O teu peito irredento de ternura.
Alma incolor, em desamor, desata
A fronteira da sombra e da loucura.
Somente o mofo, a medular cicuta,
D tessitura a teu mar de nada.
Renascida da seda dos passados,
A nave garra a solido medonha,
A memria de infernos congelados,
Suas celas de cinzas e de sombra.
como se, perdida a humanidade,
ladrasse no teu cu uma cidade.

TRIA INCENDIADA

Sempre perto do mar e porto ausente,
Sempre perto da morte e da desfeita,
Marinho, modelou-se de acidentes
Das dbias curvas que a paixo sujeita.
A memria de Tria ainda queima
Dentro de si a fria indeiscente.
O antagonista ausente ou morto espreita:
o convite dissoluta frente.
A dor que o tempo em seu af costura
Breve lhe bate a barba baldeada,
A face avinagrada da loucura.
Pressgio prematuro ou j tardio.
Ora absorto retorna o peito adaga,
Em olhar enfadado e mar sombrio.

SOB OS ENCANTOS DE CIRCE

At regresso ao lar me foi negado,
Eu que vivo ancorado no teu porto.
Feiticeira do mar me tens atado
A teus cabelos de onda, vento morto.
Quando o mar abdiquei por tuas ilhas
No pensava nas celas dos teus seios,
Levava embarcaes de azedas quilhas
Que frgeis acolheram teus enleios.
Agora a lamentar-me o continente
Dos feitos que, guerreiro, lavorei,
Salgas-me os olhos de um cantar nubente
Sedues de sereia, o que me sei
que o amor fendido vou demente
Singrando a solido de amargo rei.

ENQUANTO ACORDAS...

Chove na moldura do tempo.
Quem ergueu a mo para cri ?-la?
As cortinas abraam o vento
Um deus adormece na sala.
Um corao sempre se cala
perante a paisagem esquiva.
E a curva dos ventos abala
os caminhos da chuva viva.
A sede do deus trs a chuva.
O vento remove seus limites
de corpo colado moldura.
Mas que desdm de chuva morta!
Um deus azul quer que o imites.
Desculpe: bateram porta.

OS CAVALOS DA ALBA

Eu, guerreiro de um deus aqui banido,
Nesta cela de sonhos acidulada
Combato os dias vos com rubra espada,
Cavalgando corcis de aceso olvido.
Renaso sempre ao sul da madrugada
Meus cavalos de luz de um sol partido,
Quando a noite decai sem um gemido
Forjando do inimigo a face alada.
Guerreio sempre ao claro a fera esquiva,
Aquela cuja garra a morte imana
Em sal e sangue, sndalo e saliva.
Mas de acontecer, enquanto se ama
Que, guerreiro, me quede a adaga ativ a
Quando vibrante o corao me inflama.

A TORRE INCONSTIL

Era a casa de Jorge frente torre
Onde morava um deus adormecido.
Que luxria de gesso e tinta podre,
Um sabor de poema sempre lido!
Era a torre pousada sobre a sala
Onde restava um deus - nunca acordou.
O sono que o cobria era cabala:
Inconsistente e crua se criou.
Era a torre de Jorge frente minha
No jogo do xadrez que mo impele
A dupla dor de combater sozinha.
Era do Jorge insone a torre imbele
Que nunca a se exaurir, sempre continha
Dois Mundas caindo sobre a pele.

OS ANIS DO SONO

Serpentes de cavalos
entoam em teu ouvido
e apunhalam o olho,
o lrio da fenda.

Agora no dormiste.
Uma fatia de tempo
transmudaste em po,
a ris do gozo.

Alm das montanhas,
as casas coloridas
dispostas na estante,
uma coroa de lagos.

Antigamente, a antiga amante,
colocava flores no teu tmulo.

caro, sempre nufrago,
sonhavas pssaros
sob um sol de cristal e tempestade.

NATAL DEPOIS

Seu Jos toma cachaa,
Madona Maria esmola
e Jesus, bem pequenino,
pelas caladas se esfola,
com seus olhos de assassino,
cheirando os sonhos de cola.

MATER ANTICA

Era marinho e repousava o tempo.
A esposa era m, o filho incru.
Quando um deus ascendia sob o vento,
a me, marinha, o mantinha ilhu.

Outra me porm o folheava,
que mes so mos presentes, e segredos.
Nas entranhas dizia que matava
a devoluta carne sem os dedos

que a me mais remota acarinhava.

O QUINTO NARIZ DA BESTA

Acidentalmente juntos,
as bombas criam digitais
nas retinas.

Logo mais abaixo,
h ri os
e navios voltando do inferno.

O GOLEM

Guardo o poema da Criao
E as faces dos deuses
Em minha memria de argila
E nudez primognita.

O primeiro vento deu-me o espao,
com corpos celestiais,
e uma casa.

O segundo, o tempo e o nada.

ECLIPSE

Ultrapassado o ponto de retorno,
outro rosto se purga no soturno
redesenhar do morto.

Amargo anoitecer para o expurgo
a face turva e posta a farsa espelha
o dessangrar da faca.

O lobo oculta o lar enquanto sombra.
H sempre mais um ponto no repouso
onde se tomba.

O Poema da Danao
[Edies Bagao, 2006]

[O vo]

Entremos neste espelho e neste jogo,
Nestas linhas de sono que nos guiam.
Tiremos nossos vus, vamos ao gozo
Sedento desta escura harmonia.
So tantos estes sons e to intenso s.
Canta um menino expulso do seu leito
So tantas estas linhas s mos defensas.
Mergulhemos sem medo nesse estreito
Entre cu e inferno, gmeos complacentes,
O pnis de Deus vagando sobre as guas;
As vaginas do caos a receber solenes
Os sons da morte em novo desatino
E lceras de palavra que desguam.
Mergulhemos, menino, em teu destino.
Porque somos meninos, mergulhemos
Nestas curvas e teros proibidos,
Porque somos sozinhos, sis extremos,
Menino, mergulhemos, decados!
Mergulhemos sem pejo neste escuro,
Com pstulas sagradas e salgadas,
Mergulhemos, menino, em sonho curvo,
As asas turvas, mos rudes renegadas.
Mergulhemos, menino, to distante,
Onde fome de febre, ferro e laos
Se perdem num anel de diamante.
Mergulhemos, menino, o mal materno,
Que a serpente decanta como amante
Entre as portas noturnas deste inferno.

[A primeira fala]

E assim descobrimos o ponto morto
Do tempo ilhado em curvas e negro uivo.
No h nada ordenado, tudo esboo.
S a serpente espreita-se no escuro.
Nasceu uma mulher dessa cabala,
Desta mesma matria que nos molda.
Detinha sua boca a voz sagrada
E proibida, mas de inversa roda
Gritou aos cus o nome que, falado,
Pode acordar o deus nunca desperto,
Toda sua crueldade e seu reinado.
Deram-lhe a solido, o fecho eterno.
Decomposta em si mesmo, o ser danado
Abre o cu da serpente e nosso inferno

Abre cu do vcuo e a pele inexistente,
Do ser embrionrio inda menino
Na moldura viscosa da serpente.
Doce abandono cego e sem destino.
Por ora, reina o fogo na montanha
Das guas que proferem a sentena
Ao deus insepulto em ova estranha
E no smen futuro da descrena.
gua seca, palavra seca e sede,
Vagina infantil, cloaca en orme,
me sinistra que desenha a rede.
Neste momento incolor da gua informe,
Uma muralha de luz uma parede,
No deixa despertar o deus que dorme.

Um deus dorme, portanto, neste vinho,
Nesta paisagem, folhas e maduro
Fruto cado sobre o solo impuro.
A produo primeira, o casto linho.
O verme baixo a terra enlameada,
Na textura do tempo, na semente,
Sopro primeiro sobre o solo ardente,
Se transforma nas curvas desta estrada
Em que destilas o vinho do teu rosto,
Em que sobes do sonho para a vida.
E na escada subindo ou na descida,
A cada passo errado ests deposto.
O fundo mais distante, velho amigo,
Se nem um deus de sombra andar contigo.

[A primeira cano de Caim]

Vendo em mim mesmo o meu contrrio,
Erguer-me as armas como um serafim.
Cansado do combate, agora agrrio,
Revestindo de sangue meu jardim,
S quero o dormir dos condenados,
Em terra escura, junto ao p do irmo.
Apagados desta terra e vindimados
Por uma mo tirana e sem paixo.

Ainda nem dormira a minha espada
Do sangue dos que ferem minha casa
Quando uma voz descendo de uma escada
De sangue cintilante e voz em brasa
De pombos afogados me recordam
Os ossos dos meus medos. Meu irmo
Com rendeiras do tempo j me bordam
Coleante e sem sombras pelo cho.

Desperto o pesadelo, em nuvem vejo
Leviat ascendendo desonesto,
E sempre escondido no desejo
Da eterna mar do grande incesto
Entre deuses e homens sob vinho.
E vomita curvas e nos afasta
Em separados orbes e torvelinho
Do tempo que assassina e nos arrasta.

Combato Leviat no labirinto,
Recantos tortos desta escura guerra.
At que um sol de fogo, fel e absinto
Com o sangue de Elias queime a Terra.

[Os mortos em tua sola]

H em cada ser humano um assassino latente.
Em qualquer vo momento podes escorregar
No sangue de tua me ou de teu pai degolados
Por tuas vboras, jacentes em ti e represadas.
H em cada ser humano um arcanjo decepado
Pelas guilhotinas dos sonhos. Nunca sonhes.
Mantm para sempre os olhos escancarados:
Um morto pode estar envolto em teu casaco.

Um morto te espreita no banho do chuveiro.
Cada gota que te molha o corpo te faz morto,
E ao fazeres a barba, h um morto no espelho;
E afogados no quadro em que contemplas um porto.
Os mortos esto nos invadindo, uma epidemia
De mortos est saindo dos seus tmulos ftidos.
Os mortos esto saindo, porm, transfigurados,
De modo que no sabes quem so teus convidados.

Os mortos esto entre ns e nos abraam amigos,
Como velhos conhecidos do colgio ou do trabalho.
Bebem cerveja conosco e nos lembr am velhas canes.
No h como identificar um morto, seno se vendo
No espelho. Tenta uma careta e assanha os cabelos,
Cruza tuas mos magras, os dedos de cigarro, v
A cor das pupilas, estica o rosto e verifica, ento,
Se no acabaste de sair, deambulando, de um caixo.

[A segunda cano de Caim]

O deus que visitava no me escuta,
Nem sua sombra mais me d campanha.
A sua falta o peito inteiro enluta
E vive desolado em terra estranha.
A cabea dessangrada de um menino,
Procura pelo deus dentro da entranha
Nervosa e sepulcral de um assassino.

O deus que visitava no me escuta,
Embora lhe prepare o melhor vinho,
Destilado do sangue e da labuta
Da terra que domei sempre sozinho.
A marca que me deu em proteo,
O selo que me afasta do caminho,
a marca de Abel, meu morto irmo.

O deus que visitava no me escuta,
Acendo -lhe fogueira, fumo a planta,
E os sentidos se tornam massa bruta,
Como a que dera vida e a suplanta.
Mas, o deus no a l, creio que no.
Nem se importa com o sangue desta manta,
De um assassino pedindo seu perdo.

O deus que visitava no me escuta,
O deus que me seduz perdeu a escala.
Decerto os cus preparam outra luta
Para cortar-me a lngua e sua fala,
Para negar em mil o meu perdo,
Como mil vermes comem uma fruta,
Eles iro comer essa paixo.

O deus que visitava no me escuta,
E continuo vagando com a eterna
Alma despedaada e prostituta.
Assim, me sobrevive a dor fraterna,
Conduzindo no peito o sangue irmo,
Correndo noutra veia, veia externa,
Como se fosse um duplo corao.

[O anjo]

Hoje um homem foi assassinado por um anjo.
O seu nico pecado foi voar dentro de um sonho.
E era um sonho to tolo, um sonho de flores
E paisagens pacficas onde repousavam irmos
Um cordeiro sem l e um leo. Era o resgate
A ser pago ao tirano, sob fogo, pela multido.
Um menino foi assassinado hoje dentro de mim.
Erguia papagaios e brincava grandes viagens,
Como crescer sempre em vertical neste jardim.

Hoje um anjo suicidou-se com sua espada de fogo.
No havia mais sentido em ser guarda do vazio.
Olhava a rvore da vida murcha e se via morrer
Sem companheiros, sem gritos, de feras e querubins.
Os homens agora copulavam e se reproduziam em vo.
Sem qualquer proteo vinda dos cus, estavam pois
Libertos e nus e viam a genitlia e viam a extenso
Do seus corpos de carne mortal, porm prazerosa,
Como as ptalas sedutoras e rubras de uma rosa.

[O pesadelo]

No fosso de dejetos, a parede
Pesada de cimento e gua podre
Do rio sob o mundo, sob a torre,
A cabea do cadver em degredo

Sobe e desce das guas devorando
Estrumes ressecados, carne mole.
Tudo que desce neste rio nefando,
A cabea do cadver agora engole.

Engole e rasga a carne macerada
Dos ossos dos seus dedos, mosca informe.
E a cabea do sonho desolada
O faz sonhar de amor e depois dorme.

E dentro deste sonho uma paixo
O desmembra, medonho, a outra porta
Tecida de outras portas, e um caixo
Onde devorar sua me morta.

[Mater ludica]

Mergulhemos, menino, mergulhemos
Neste rio Munda, entre as pedras.
A Pedra de Bico e a do Afogado engolem,
Puxam nossos cabelos como uma sereia,
E nadamos no escuro das guas da vida,
At chegar confortvel margem
E descansar nas coxas nuas e rolias
De nossas mes sonolentas e nossa imagem.

As coxas das mes nos do retorno
Ao antigo rio no seio se compondo.
Pa ra aquela misteriosa porta da vida,
Com que sempre sonhamos, quando
Samos daquelas guas de pele macia
Para as guas dilaceradas pelos ventos,
E nossas mes nos aqueciam os dedos
No mais sagrados dos seus aposentos.

De minha me ainda guardo o cheiro antigo.
Quando chove e h relmpagos e troves.
Enrolo-me dos ps at a cabea e sinto
O seu brao macio afugentando o medo.
A sua perna grossa sobre o meu corpo,
O regao dos seus seios, cheios e fartos
Me faziam sonhar em outros rios, quando
Crescido retornasse, aventureiro, s guas.

Era a recompensa por ter vindo de um sonho
Dela sozinha, pois os sonhos se dividem.
Nenhum homem a conheceu, nem um anjo,
Como acontece nas antigas escrituras.
Nenhum deus a tocou, j que partiram.
Nenhum homem a tocou, pois esto mortos.
Foi numa noite qualquer em que chovia
Que minha me sonhava e eu nascia,

Mas era tudo a semente das guas do rio
Em que nos banhvamos como peixes, nus,
Sem as escamas cortantes doutros peixes.
Minha me tinha a pele macia e to suave
Que at chorava umas estranhas lgrimas
Que descia do seio em amoroso enfarto.
E chorava, menino, rpido, que a secasse
Com a minha lngua infantil de um lagarto,

[A mo sinistra]

Do Alto do Z do Pinho
Desce, correndo, um menino
Com uma pistola na mo.
um menino barrigudo,
Com lombriga, ameba e mudo.
Tem um revlver na mo.

Do Alto do Z do Pinho
Desce, matando, um menino
Com uma pistola na mo.
Da me no teve carinho,
filho deste vizinho,
Ou do outro, em multido.

Do alto do Z do Pinho,
Desce, chorando, um menino;
Dez anos e sem compaixo.
Na lngua a fala escondida.
Na arma, o vento da vida
De lhe quem disser um no.

Ao Alto do Z do Pinho,
Retorna morto um menino,
Embrulhado em papelo.
Agora, sim, tem linhagem
Daqueles cuja linguagem
Fra um revlver na mo.

[Hoje choveu, mas no esteve triste]

Hoje choveu, mas no esteve triste.
Olhava a rua assassinada e suja.
Lembrava-lhe o menino que resiste
Em no crescer no tempo que enferruja.
Lembrava-lhe o menino prematuro
Que ante o caule do tempo to interno,
Brincava de marinho atrs do muro:
Um mundo desenhado no caderno.
Desenhara, entretanto, bons navios,
Tecidos de papel e mente afora,
Se compondo de chuvas e de rios.
Hoje choveu, mas no esteve triste.
Cresceu dentro de si um deus que chora,
E o seu barco levou tudo que existe.

Levou primeiro o pai que nunca o vira,
E depois sua me que sempre amara.
O irmo que tinha deus assassinara
Com as mos do outro irmo; o mun do gira
Perdido no seu eixo, agora a chuva
Est matando a terra e seu rebento.
guas sobem alm do firmamento.
O barco de papel mo segura
Conduz para o seu grande corao
Todos os sem pecados e animais
Marcados pelos deuses, com sinais,
E daqueles cados em danao.

E daqueles queimando os seus cabelos,
E daqueles rasgando o peito em vo,
E daqueles perdidos em pesadelos,
E daqueles comendo o corao,
E daqueles sedentos de serpente,
E daqueles danados sem paixo,
E daqueles perdidos na semente,
E daqueles comendo a prpria mo,
E daqueles morrendo mo mesquinha,
E daqueles com dedo sempre em riste,
E daqueles que a fome desalinha,
E a sada, parece, nunca existe.

E o barco de papel vai navegando.
Como brincar num mundo se afogando?

[Filhos nossos]

Os filhos amadurecem os pais.
Amadurecem,
Amad urecem,
At que os apodrecem.

[Os mortos]

Agora todos mortos vo dormindo,
Diretamente para minha cama.
Deitam-se com seu sono terno, infindo,
Escondem a carcaa em meu pijama.

Do-me todos os sonhos, sonhos idos.
Os sonhos que teceram sua trama.
Os meus sonhos dos mortos esquecidos
Dormem profundamente em minha cama,

Que no sei se estou vivo. Quero a vida!
Quando outros mortos tentam dar conforto,
Jogo o tempo na mente distrada,
Mas, uma voz me diz: o mundo morto!

Afogados me ofertam gua e vento,
Suicidas me do armas e outra asa.
Alado, em sonho, mudo o pensamento,
Num turbilho soergo a minha casa

Mas esta casa no descarta um morto.
Os mortos nunca dormem, so serenos,
Levanto-me da cama - sem um porto.
Os mortos aos seus mortos cederemos.

Retorno ao quarto: abrindo a porta, atinoIntimidade pura e to discreta:
Cantava meu av para um menino
A cano de morrer sendo poeta.

[A cidade dos homens]

Esta cidade foi imenso matadouro.
E, de cabeas baixas, fomos como gado
Para a demncia, todos. Ora, s runas
Revestem nosso sangue em cal e ervas mortas.
As plantas ressequidas trazem a saliva
Gosmenta dos tiranos, seus galhos dessangram
O olhar do visitante, mas, somente as cinzas
Dos mortos e seus gritos de terror laceram
Nossas frontes, sem eco, fechadas em ns
Cegos: ningum desata; a mente muda esfola
O brilho obscuro da paisagem, o machado
Permanece amolado e nu para a degola.

biografia:

Cicero Melo do Nascimento

Ccero Melo do Nascimento nasceu em Unio dos Palmares/Alagoas em 1952. Radicado no Recife desde 1980. Participou ativamente da vida cultural do Recife na dcada de 80 quando da existncia do Movimento de Escritores Independentes de Pernambuco [MEIPE]. Grande conhecedor de literatura contribuiu na dcada de 80 para formar uma fortuna crtica sobre a produo potica dos seus contemporneos. Seus poemas encontram-se publicados em diversos fanzines e jornais do Brasil e exterior. As verses virtuais dos seus dois primeiros livros podem ser acessadas no INTERPOTICA.

Publicaes:

O verbo sitiado - Edies Bagao, 1986;
Poemas da escurido - Edies Bagao, 2001;
Poemas da danao - Edies Bagao, 2006.

Coletneas:

Movimento de Escritores Independentes de Pernambuco 1980/1988 [organizada por Francisco Espinhara] - Edio do Autor, 2000;
Pernambuco, terra da poesia [organizada por Antnio Campos e Cludia Cordeiro] - IMC/Escrituras, 2005.

Tera-feira, 24 de Maro de 2009

cnacimento@uol.com.br

 

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